A Ferrari avança na eletrificação com passo lento, mas deliberado. Antes mesmo de revelar a silhueta do seu primeiro modelo 100% elétrico — agendada para maio de 2026 —, a marca de Maranello decidiu mostrar aquilo que estará permanentemente no campo de visão do condutor: o cockpit. E fê-lo com uma declaração de intenções clara.
O modelo chama-se Luce — “luz”, em italiano — um nome escolhido para sublinhar que este Ferrari pretende ir além da simples transição energética. Não é apenas um elétrico: é uma nova interpretação da experiência Ferrari.
Um Ferrari elétrico com design ‘made in Apple’
O interior do Luce resulta de uma colaboração inédita entre a Ferrari e o coletivo criativo LoveFrom, fundado por Jony Ive, antigo chefe de design da Apple, e Marc Newson. É uma parceria ousada, sobretudo para uma marca que, há apenas 13 anos, recuperou o controlo total do design após seis décadas com a Pininfarina.
O resultado é um cockpit que mistura herança italiana com linguagem visual tecnológica, onde o vidro e o alumínio substituem o plástico e onde a ergonomia prevalece sobre o espetáculo digital. Um Ferrari que, curiosamente, vai contra a corrente dominante dos veículos elétricos de luxo.
Anti-tablet por princípio
Apesar da apresentação ter decorrido em São Francisco, perto da sede do coletivo de design, o discurso foi quase um manifesto contra a indústria atual. Para Jony Ive, as telas táteis resolvem problemas de espaço em smartphones, mas “num carro, são a tecnologia errada”.
Assim, o Luce aposta numa abordagem “anti-tablet”:
– controlos mecânicos,
– interruptores basculantes,
– ponteiros reais,
– feedback tátil e sonoro afinado ao milímetro.
Cada botão foi sujeito a mais de vinte testes com pilotos de ensaio da Ferrari, numa obsessão que remete para a engenharia clássica da marca.
Um painel de instrumentos que flutua no tempo
No centro do interior está um painel de instrumentos de 12,86 polegadas, com tecnologia OLED fornecida pela Samsung, mas apresentado de forma pouco convencional. Três mostradores sobrepostos organizam a informação essencial: velocidade à esquerda, dados críticos ao centro e conta-rotações à direita.
Os ponteiros físicos, em alumínio anodizado, são retroiluminados por LEDs e podem rodar 360 graus. Lentes convexas criam um efeito de profundidade, enquanto a tipografia evoca os históricos Veglia e Jaeger dos Ferrari clássicos, sobre o tradicional fundo amarelo da marca.
Todo o conjunto gira com o volante, ajustando-se à posição do condutor — um detalhe quase aeronáutico.
Volante clássico, tecnologia contemporânea
O volante de três raios presta homenagem aos icónicos volantes Nardi das décadas de 1950 e 60. Fabricado em alumínio 100% reciclado, é composto por 19 peças usinadas em CNC e pesa menos 400 gramas do que um volante Ferrari atual.
Os comandos estão organizados em módulos inspirados na Fórmula 1. À direita surge o Manettino, à esquerda os modos de potência. As patilhas metálicas não são decorativas: uma gere a travagem regenerativa; a outra ativa o Torque Shift Engagement, que simula trocas de caixa manual — uma solução semelhante à do Hyundai Ioniq 5 N, pensada para devolver emoção à condução elétrica.
Vidro como elemento estrutural
A Ferrari fez do vidro um protagonista. Utiliza o novo Corning Fusion5, mais resistente a riscos e impactos, microperfurado com 13 mil orifícios cortados a laser para integrar gráficos iluminados. Ao todo, o Luce tem cerca de 40 componentes em vidro, quando um automóvel de luxo tradicional usa três ou quatro.
O seletor de marchas, o painel central, o painel de instrumentos e até a chave utilizam este material. A chave, aliás, muda de cor através de tinta digital quando inserida no encaixe magnético, desencadeando uma sequência luminosa quase ritualística.
Um elétrico extravagante… à Ferrari
Tecnicamente, o Luce não pede desculpa:
– quatro portas, quatro lugares;
– quatro motores elétricos;
– mais de 1.000 cv;
– bateria de 122 kWh;
– autonomia estimada de 530 km (WLTP);
– 0–100 km/h em menos de 2,5 segundos.
Mas mais do que os números, a Ferrari insiste na sensação ao volante como elemento diferenciador.
Um Ferrari elétrico com alma?
John Elkann rejeitou o nome inicial “Elettrica” por o considerar redutor. A ambição do Luce é ser algo atemporal, o oposto da obsolescência rápida dos produtos tecnológicos. Ainda assim, a dúvida permanece.
Por um lado, a estética — alumínio escovado, cantos arredondados, grafismos ao estilo Apple Watch — aproxima o Luce de um objeto tecnológico de luxo. Por outro, pode ser a primeira vez que alguém consegue tornar um cockpit digital legível, profundo e intuitivo, sem sacrificar a ligação emocional entre homem e máquina.
O exterior só será revelado em maio de 2026. Até lá, a Ferrari deixou claro que o seu primeiro elétrico não quer apenas ser rápido ou moderno. Quer, acima de tudo, continuar a ser um Ferrari — mesmo sem motor a combustão.
The Ferrari Luce gauges do look very good in motion. Obvious who designed this one though. The clean dash and physical buttons are a nice touch too. pic.twitter.com/YDGR9v9VAX
— Aaron Zollo (@zollotech) February 9, 2026











