Fafe volta a ser o centro das atenções do automobilismo português este fim de semana, mas desta vez os motores quase não se fazem ouvir. O Fafe Eco Rally encerra o Campeonato de Portugal de Novas Energias – PRIO, numa prova que decidirá os títulos nacionais e contará com a presença de um campeão mundial.
Em entrevista à ‘Automonitor’, Paulo Almeida, responsável da My Time/Classic Clube de Portugal, entidade promotora do campeonato e coorganizadora da prova, revela os desafios de uma competição em que a precisão e a eficiência substituem a velocidade e explica como uma terra apaixonada pelos ralis se prepara para receber uma forma diferente de viver o automobilismo.
Conhecida pelos saltos espetaculares e pelo entusiasmo dos adeptos, Fafe será agora palco de uma competição em que cada metro pode fazer a diferença. Os participantes terão de cumprir médias rigorosas, gerir a energia disponível e trabalhar em perfeita sintonia com os navegadores, numa modalidade que exige concentração permanente e em que um pequeno erro pode comprometer o resultado.
Da presença do campeão mundial Michal Zdarsky aos desafios de organizar uma prova com milhares de controlos, Paulo Almeida explica o que está em jogo nesta última etapa da temporada, o papel das marcas automóveis e a possibilidade de um futuro em que os veículos totalmente elétricos possam também protagonizar os célebres saltos da Pedra Sentada.
Automonitor: O Fafe Eco Rally encerra o Campeonato de Portugal de Novas Energias – PRIO, com os títulos nacionais ainda por decidir. Que significado tem para a organização receber o momento decisivo da temporada?
Paulo Almeida: Realizar a última prova do Campeonato de Portugal de Novas Energias – PRIO em Fafe é um motivo de orgulho. É aqui que termina uma temporada de trabalho e onde se vão decidir os títulos nacionais. Queremos proporcionar às equipas as melhores condições para essa decisão, com uma prova exigente, equilibrada e desportivamente justa.
Para nós, que somos também os promotores deste campeonato, tem um significado especial encerrar a temporada num concelho com uma ligação tão forte ao automobilismo. É um excelente cenário para mostrar que essa tradição pode abrir espaço para a mobilidade elétrica.
Automonitor: Esta edição tem um atrativo adicional: a estreia de um campeão mundial em Fafe. O que representa a sua presença e o que distingue a prova deste ano?
Paulo Almeida: O elemento que mais distingue esta edição é a presença do campeão mundial desta modalidade, Michal Zdarsky, que vem pela primeira vez a esta prova para competir com as equipas do campeonato português.
Automonitor: Fafe é uma terra onde a paixão pelos ralis passa de geração em geração. Como tem reagido a comunidade a uma competição em que a regularidade e a eficiência substituem a velocidade?
Paulo Almeida: A relação de Fafe com o automobilismo é uma enorme vantagem, porque existe uma comunidade que conhece a competição e valoriza o trabalho dos pilotos, dos navegadores e das organizações.
A competição eletrificada carece de algumas características habituais, como o ruído e o cheiro, que são fatores de atração para os fãs, mas a performance está presente. É essa particularidade que queremos desenvolver, associando a cultura desportiva dos minhotos a uma nova forma de viver o automóvel.
Automonitor: Para um público habituado aos saltos e à adrenalina dos ralis tradicionais, um Eco Rally pode parecer uma competição mais tranquila. Onde está, afinal, a emoção desta modalidade?
Paulo Almeida: O primeiro passo é explicar o que está em jogo. Num Eco Rally, a adrenalina vive-se muito dentro do automóvel, no cumprimento rigoroso de uma média, na interpretação do percurso, na coordenação entre piloto e navegador e na gestão da energia. Um pequeno erro pode ter consequências importantes na classificação.
Gostaria que um adepto descobrisse precisamente essa intensidade. Há muito trabalho e muita capacidade de decisão por detrás de uma passagem na estrada aparentemente tranquila.
E há outro aspeto interessante: qualquer pessoa que conduza um veículo elétrico pode reconhecer desafios da sua própria utilização diária, que aqui são levados a um contexto de competição.
Automonitor: Organizar um Eco Rally exige uma precisão que o público dificilmente imagina. O que acontece nos bastidores antes de os automóveis chegarem à partida?
Paulo Almeida: Organizar uma prova destas começa muito antes de os automóveis chegarem à partida. É necessário estudar e verificar o percurso, preparar um roadbook, que é medido ao metro, estabelecer médias de velocidade e horários, articular autorizações, organizar os controlos horários e assegurar as condições de carregamento. Tudo isto tem de funcionar de forma coordenada.
Para dar uma ideia, os concorrentes são controlados aproximadamente uma vez a cada quilómetro, em locais secretos, o que significa que neste Eco Rally iremos processar mais de 4.500 tempos.
Temos também uma equipa tecnologicamente preparada, que controlará os consumos energéticos de cada concorrente e processará uma classificação para a taça de eficiência.
Automonitor: O Fafe Eco Rally tem vindo a construir uma identidade própria e já atrai modelos que ainda nem chegaram aos concessionários. Que papel desempenham as marcas automóveis nesta evolução?
Paulo Almeida: Não escolheria um único momento. A identidade de uma prova constrói-se edição após edição, através da qualidade da organização, da ligação ao território e da confiança que se procura conquistar junto das equipas e dos parceiros.
Tal como no resto do campeonato, as marcas têm aproveitado para mostrar os novos modelos de automóveis que vão aparecendo no mercado, como é possível ver na lista de inscritos desta prova, que tem vários modelos em estreia, alguns que ainda não chegaram aos stands.
Automonitor: Para além da competição, que impacto tem o Eco Rally na economia e na promoção turística de Fafe? A prova já consegue atrair visitantes para além das equipas?
Paulo Almeida: Uma prova como esta traz equipas, acompanhantes e elementos da organização, criando procura no alojamento, na restauração e no comércio. Também permite dar a conhecer o concelho através do percurso e da comunicação do evento. Gostamos de pensar que quem vem competir pode encontrar razões para regressar com mais tempo.
Quanto à mobilização de visitantes para além das equipas, é uma dimensão que queremos continuar a desenvolver.
Temos ainda uma equipa de comunicação para todo o campeonato, que permite divulgar os nossos conteúdos, seja nos canais tradicionais, seja no meio digital, e que nos permite ter um retorno CISION AAV superior a cinco milhões de euros por ano.
Automonitor: O crescimento da modalidade depende também da capacidade de atrair novos participantes. Como tem evoluído o perfil das equipas e o que faz os concorrentes quererem regressar a Fafe?
Paulo Almeida: Como promotores, interessa-nos tanto o número de participantes como a diversidade de pessoas que conseguimos trazer à modalidade. Queremos proporcionar uma competição exigente às equipas mais experientes e, ao mesmo tempo, criar condições para que novos participantes possam começar.
Ouvimos os participantes de todo o campeonato no final do ano, e é sobre as suas propostas que são escritos os regulamentos, mas no caso de Fafe não é necessário muito esforço para agradar. As estradas são únicas e, se juntarmos a isso uma gastronomia a gosto, tudo fica mais simples.
Automonitor: Fafe é sinónimo de alguns dos momentos mais espetaculares dos ralis portugueses. Olhando para o futuro, consegue imaginar automóveis totalmente elétricos a disputar o WRC e a saltar na Pedra Sentada? Que sonho falta concretizar?
Paulo Almeida: Cinco anos é muito tempo para se fazerem previsões neste tema da mobilidade elétrica. Nos últimos anos, temos passado por contínuas revoluções tecnológicas que tornam arriscado fazer previsões, mas talvez, a curto prazo, seja possível ver veículos no WRC a saltar na Pedra Sentada, completamente elétricos, uma vez que hoje em dia muitos já superam em performance os carros a combustão.
O nosso sonho passa pelo cumprimento da nossa missão, que é explorar novos caminhos para o desporto motorizado, usando energias mais amigas do ambiente, contribuindo para minimizar a pegada de carbono no mundo onde temos de viver.






