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‘Corrida aos chips’: guerra com a China mergulha setor automóvel da Europa no caos tecnológico

Automonitor com Lusa

Nexperia, empresa sediada nos Países Baixos mas controlada pela chinesa Wingtech, enfrenta agora restrições simultâneas impostas por Haia, Washington e Pequim

A guerra geopolítica que envolve a fabricante de chips Nexperia está a alarmar a indústria automóvel europeia. A empresa, sediada nos Países Baixos mas controlada pela chinesa Wingtech, enfrenta agora restrições simultâneas impostas por Haia, Washington e Pequim — um cenário que ameaça provocar uma nova crise de semicondutores no setor automóvel.

De acordo com o jornal ‘POLITICO’, o fornecimento de chips essenciais da Nexperia começou a cair semanas depois de o Governo neerlandês assumir o controlo da empresa. Paralelamente, os Estados Unidos ampliaram os controlos de exportação sobre a Wingtech e a China retaliou, proibindo a exportação de componentes produzidos pela subsidiária chinesa da Nexperia.

Fontes do setor automóvel alertam para a possibilidade de paragens e desacelerações na produção mundial já nas próximas semanas, devido à escassez de chips. Um responsável ouvido pela publicação afirmou que “muitos fornecedores não têm stock suficiente” e que “o setor automóvel está no centro da tempestade”.

Os semicondutores da Nexperia são utilizados em praticamente toda a cadeia automóvel — desde airbags a sistemas de entretenimento — e são considerados indispensáveis. Um automóvel convencional contém até 500 chips da empresa, enquanto um veículo elétrico pode incorporar até 1.000.

Crise repete cenário da pandemia

O alerta surgiu no passado dia 9, quando a Nexperia declarou força maior, referindo-se a um “desenvolvimento imprevisto que pode afetar a disponibilidade de certos produtos”. Segundo o ‘POLITICO’, o aviso levou as marcas automóveis a correrem para adquirir os chips restantes, comparando a reação com “a corrida ao papel higiénico durante a pandemia”.

A situação faz recordar 2022, quando a escassez global de microchips paralisou fábricas de automóveis em todo o mundo. Apesar disso, pouco foi feito para reforçar as cadeias de abastecimento europeias. A Lei dos Chips, lançada pela União Europeia após aquela crise, pretendia reduzir a dependência externa, mas os resultados continuam distantes das metas estabelecidas.

Disputa política intensifica tensões

O Governo neerlandês justificou a intervenção na Nexperia com receios de transferência de tecnologia para fora do país. A decisão foi tomada um dia depois de os EUA estenderem as restrições à Wingtech e quatro dias antes de a China impor controlos de exportação aos chips fabricados pela Nexperia.

Bruxelas colocou o tema no topo da agenda. “A questão dos chips é crucial para muitos aspetos da nossa política, principalmente a transição energética”, afirmou Paula Pinho, porta-voz da Comissão Europeia. O comissário da Indústria, Stéphane Séjourné, discutiu o caso com líderes empresariais e o vice-presidente da Comissão, Maros Sefcovic, abordou o tema numa conversa com o ministro chinês do Comércio, Wang Wentao.

Marcas automóveis em alerta e resposta europeia

A Associação dos Construtores Europeus de Automóveis (ACEA) manifestou “profunda preocupação com a potencial interrupção significativa” na produção e apelou a uma solução rápida. A Volkswagen também alertou os trabalhadores para possíveis paralisações. Embora a Nexperia não seja fornecedora direta do grupo, vários componentes usados nos seus veículos dependem dos chips da empresa.

A Comissão Europeia, indicou a publicação, planeia apresentar uma nova “Lei dos Chips 2.0” no primeiro trimestre do próximo ano. O objetivo é acelerar a independência tecnológica da Europa e duplicar a sua participação na produção mundial de semicondutores até 2030.

No entanto, analistas alertam que o tempo é curto. Como observou Herman Quarles van Ufford, do Conselho Europeu de Relações Exteriores, “o caso Nexperia mostra que a Europa ainda não aprendeu a lição de 2022”.