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Como se constrói um dos maiores eventos de clássicos da Europa? Duarte Nobre Guedes conta dez anos de Estoril Classics

Francisco Laranjeira

Mentor do evento falou à ‘Automonitor’ sobre os mais de 200 automóveis, 10 competições e 12 corridas que vão animar o Estoril este fim de semana

Há automóveis que passam décadas fechados em coleções privadas. Outros sobrevivem praticamente imobilizados em museus. E depois há máquinas construídas para competir que, apesar da idade, continuam a travar no limite, acelerar e disputar posições como fizeram quando eram novas.

É em torno destas últimas que Duarte Nobre Guedes ajudou a construir, ao longo de dez edições, o Estoril Classics.

O evento regressa esta sexta-feira ao Autódromo do Estoril com mais de 200 automóveis, 10 competições e 12 corridas. Fórmula 1, protótipos, GT e Turismos de diferentes épocas estarão novamente em pista, numa edição que marca uma década de crescimento de um evento que começou em Portugal e que o seu mentor considera hoje pertencer à “primeira linha europeia” do automobilismo histórico.

Mas chegar até aqui implica muito mais do que encontrar carros extraordinários.

É preciso convencer proprietários a transportar para Portugal máquinas que podem valer milhões de euros e aceitar o risco de as colocar novamente em competição. É preciso conquistar a confiança de equipas e gentleman drivers internacionais. É preciso escolher automóveis não apenas pelo preço ou pela raridade, mas pela história que conseguem contar. E é preciso fazer tudo isso ano após ano.

Na véspera da 10.ª edição, a ‘Automonitor’ falou com Duarte Nobre Guedes sobre aquilo que distingue o Estoril Classics, os bastidores de construir um evento desta dimensão e a forma como o próprio conceito de automóvel clássico está a mudar.

Para quem olha para o Estoril Classics e vê apenas uma corrida de carros clássicos, o que é que não está a perceber? O que distingue verdadeiramente este evento de uma exposição, de um encontro de clássicos ou até de uma corrida convencional?

Estamos a falar de automóveis clássicos: máquinas com relevância histórica, desportiva e tecnológica. E é precisamente aí que reside a essência do Estoril Classics. Estes automóveis não foram concebidos para permanecer imóveis numa sala ou num museu, mas para competir, travar no limite, acelerar e disputar posições em pista. É nesse contexto que revelam verdadeiramente aquilo que são.

Uma exposição permite-nos contemplar um automóvel; o Estoril Classics permite-nos compreendê-lo. Ouvir o motor, sentir a velocidade, perceber o seu comportamento em pista e, depois, aproximarmo-nos dele no paddock, conhecer quem o conduz e quem o prepara.

Também não é apenas uma corrida convencional. A competição é real e faz parte da essência do evento, mas o resultado desportivo é apenas uma das dimensões da experiência. O Estoril Classics é, acima de tudo, uma celebração viva de várias décadas da história do automobilismo.

É essa combinação entre competição, património e proximidade com o público que nos distingue. Um Fórmula 1, um protótipo de Le Mans ou um GT histórico ganham uma dimensão completamente diferente quando regressam ao ambiente para o qual foram originalmente criados.

Mais de 200 automóveis vão estar no Estoril e alguns são peças históricas extremamente raras e valiosas. Porque é que um proprietário aceita colocar um carro que pode valer milhões de euros novamente numa pista e levá-lo ao limite? O risco faz parte da preservação desta história?

Há uma frase que resume bem essa filosofia: um automóvel de competição só está verdadeiramente completo quando está a competir.

Claro que existe risco e ninguém o ignora. Estamos a falar de carros que podem ser únicos, com um enorme valor histórico e financeiro, e que são preparados e mantidos por equipas altamente especializadas. Mas os proprietários que participam neste tipo de automobilismo não olham para estes carros apenas como ativos para guardar numa garagem. Olham para eles como máquinas que têm uma função e uma história que deve continuar viva.

E há também uma dimensão de preservação nisso. Preservar não significa necessariamente imobilizar. Significa manter o conhecimento sobre a mecânica, saber preparar estes motores, estas caixas de velocidades, estes chassis, e transmitir esse conhecimento às gerações seguintes.

Um carro parado num museu preserva o objeto; um carro que continua a correr ajuda também a preservar a cultura e o conhecimento que existem à volta dele.

É possível fazer uma estimativa do valor conjunto dos automóveis que estarão em pista nesta edição? Estamos a falar de dezenas de milhões, centenas de milhões de euros? E qual será provavelmente o carro mais valioso do fim de semana?

É uma pergunta inevitável, mas também uma das mais difíceis de responder com rigor. Não fazemos uma avaliação financeira da grelha e eu teria alguma relutância em transformar o Estoril Classics num catálogo de leilão.

Estamos seguramente a falar de muitas dezenas de milhões de euros e, dependendo dos chassis concretos presentes e da respetiva história, o valor global pode atingir valores muito superiores. Mas num automóvel de competição histórico não basta dizer “é um determinado modelo”.

Dois carros aparentemente iguais podem ter valores completamente diferentes consoante a originalidade, o chassis, os resultados que obtiveram e os pilotos que os conduziram.

Por isso, também seria precipitado dizer neste momento qual será o mais valioso. E, para nós, há uma distinção importante: o automóvel mais caro do paddock não é necessariamente o mais importante historicamente.

O McLaren MP4/1 mudou a Fórmula 1 com o primeiro monocoque integral de fibra de carbono e está ligado ao regresso de Niki Lauda. Quando selecionam um automóvel para o Estoril Classics, o que pesa mais: raridade, valor, palmarés, piloto que o conduziu ou aquilo que mudou na história do automóvel? O que faz de um carro uma peça verdadeiramente histórica?

É sempre uma combinação de fatores, mas diria que o valor financeiro é provavelmente o menos importante para nós. Procuramos sobretudo automóveis que tenham uma história para contar.

Pode ser pela inovação tecnológica, pelo palmarés, pelo piloto que o conduziu, por representar uma determinada época ou por ter mudado a forma como os automóveis passaram a ser construídos.

O McLaren MP4/1 é um excelente exemplo porque não é apenas um Fórmula 1 raro: introduziu uma solução construtiva que viria a alterar profundamente a Fórmula 1, está associado ao regresso de Niki Lauda à competição e representa um momento de enorme transformação tecnológica.

Um carro torna-se verdadeiramente histórico quando nos ajuda a compreender um antes e um depois. Pode não ser o que ganhou mais corridas nem o que vale mais dinheiro. Às vezes, a importância está naquilo que mudou depois de ele existir.

Como é a negociação para convencer alguém a enviar para Portugal um Fórmula 1, um protótipo de Le Mans ou um GT que pode valer vários milhões de euros e colocá-lo novamente em competição? Já recebeu um “não” que ainda hoje gostaria de transformar num “sim”?

A palavra fundamental é confiança. Um proprietário com um automóvel desta importância não precisa simplesmente de mais uma corrida no calendário. Tem de sentir que vale a pena trazer o carro até Portugal e que vai encontrar uma organização, um circuito e um contexto à altura.

Essa confiança constrói-se ao longo dos anos.

A parceria com a Peter Auto é muito importante, assim como a reputação que o próprio Estoril Classics foi conquistando junto das equipas e dos gentleman drivers internacionais. Quando alguém vem ao Estoril, gosta da pista, do ambiente, de Cascais e da forma como é recebido, essa experiência circula muito rapidamente dentro deste meio.

E “nãos” há sempre. Às vezes o carro está a ser reconstruído, outras vezes existe uma incompatibilidade de calendário, outras simplesmente não é o momento certo.

Mas neste mundo aprendi também que um “não” raramente tem de ser um “não para sempre”.

O Estoril Classics chega à 10.ª edição. Se comparar o público da primeira edição com o de hoje, quem mudou mais: o evento ou os portugueses? Há hoje em Portugal uma cultura de automobilismo histórico que não existia há dez anos?

Mudaram os dois. O evento cresceu muito, profissionalizou-se, internacionalizou-se e conseguiu trazer ao Estoril grelhas e automóveis que há alguns anos seriam muito difíceis de ver em Portugal. Mas também sentimos um público mais conhecedor e mais interessado.

Não diria que o Estoril Classics criou a cultura do automóvel clássico em Portugal, porque ela já existia e é muito forte. O que fizemos foi dar-lhe um grande ponto de encontro internacional e aproximar o público português de um universo que, muitas vezes, só conseguia acompanhar através de eventos no estrangeiro.

E há ainda uma renovação geracional muito interessante.

Para uma geração, um Fórmula 1 dos anos 70 é o carro da sua juventude; para outra, essa memória é um GT dos anos 90 ou do início dos anos 2000. Isso permite ao automobilismo histórico continuar a renovar-se em vez de ficar preso a uma única época.

A própria ideia de “clássico” está a mudar. Carros dos anos 1990 e 2000 que muitos de nós vimos competir já entram neste universo. Há algum automóvel de competição relativamente recente que esteja hoje subvalorizado e que acredita que daqui a 10 ou 20 anos será tratado como uma peça histórica extraordinária?

Eu não diria “subvalorizado”, porque não vejo estes automóveis sobretudo numa lógica de investimento. Mas acho evidente que os GT dos anos 1990 e início dos anos 2000 estão a atravessar agora uma transformação muito interessante na forma como são vistos.

Um Chrysler Viper GTS-R, por exemplo, ou alguns dos GT1 e GT2 dessa geração eram, até há pouco tempo, simplesmente carros de competição relativamente recentes. Hoje já percebemos que representam uma época extraordinária das corridas de resistência e que há uma geração inteira que cresceu a vê-los competir.

É precisamente por isso que o regresso da Endurance Racing Legends é tão interessante nesta edição.

Ter novamente no Estoril carros como os Porsche e Ferrari desta geração, bem como a estreia de protótipos LMP1 que lutaram pela vitória nas 24 Horas de Le Mans, como o Pescarolo C60 ou o Panoz LMP-1 Roadster-S, demonstra que a história do automobilismo não termina nos anos 70 ou 80, e está continuamente a ser escrita.

Goodwood e Le Mans Classic tornaram-se referências mundiais. O que falta ao Estoril Classics para poder disputar esse campeonato? É dimensão, orçamento, capacidade para atrair determinados carros ou simplesmente tempo para construir a mesma reputação?

Goodwood, Le Mans Classic e Estoril Classics são eventos distintos, com histórias, formatos e espíritos próprios, pelo que não faz sentido encará-los numa lógica de imitação ou de comparação direta.

O Estoril Classics construiu uma identidade muito clara e conquistou, por mérito próprio, um lugar entre os principais eventos europeus de automobilismo histórico.

Temos argumentos únicos: um circuito com uma enorme história internacional, uma proximidade invulgar entre o público, os pilotos e os automóveis, um destino como Cascais e uma posição geográfica e climatérica muito particular no calendário europeu.

Naturalmente, tempo, dimensão e orçamento contam. Uma reputação internacional desta natureza não se compra de um ano para o outro; constrói-se edição após edição.

Quando começámos, disse que não queria que o Estoril estivesse na segunda linha dos eventos de clássicos. Dez edições depois, acho que já fizemos uma parte importante desse caminho.

Mas chegar ao topo e permanecer no topo são dois desafios diferentes. E nós queremos continuar a crescer sem perder aquilo que torna este evento especial.

Então retiremos a linguagem promocional: o Estoril Classics já pertence realmente à primeira divisão europeia? E qual é o argumento concreto que sustenta essa afirmação?

O Estoril Classics já pertence à primeira linha europeia do automobilismo histórico.

Goodwood e Le Mans Classic são eventos diferentes, com dimensões, formatos e espíritos próprios; por isso, não medimos a relevância do Estoril Classics pela semelhança com qualquer um deles, mas pela posição que conquistou no panorama internacional.

Essa posição traduz-se na presença regular das grandes equipas, dos proprietários e dos gentleman drivers internacionais, na capacidade de receber algumas das principais competições europeias e em reunir automóveis de enorme relevância histórica. São estes elementos que colocam o Estoril Classics entre os grandes eventos internacionais da modalidade.

E o melhor argumento não é aquilo que dizemos sobre o evento, mas a confiança que o Estoril Classics conquistou junto das principais equipas, proprietários e organizações internacionais do automobilismo histórico.

A Peter Auto é uma referência mundial neste universo e o Estoril recebe as suas principais grelhas; já tivemos centenas de automóveis de competição numa única edição, participantes de múltiplas nacionalidades e algumas das máquinas mais importantes da história do automobilismo.

Em 2026 voltamos a reunir mais de 200 automóveis, 10 competições e 12 corridas, incluindo Fórmula 1, protótipos, GT e Turismos.

Para mim, talvez o sinal mais importante seja outro: hoje já não temos de explicar ao meio internacional o que é o Estoril Classics. Já sabem o que é.

Agora o desafio é continuar a fazê-lo crescer e a aumentar a sua relevância.