Durante décadas, a OSCA foi pouco mais do que uma memória entre os apaixonados pela história automóvel italiana. Fundada pelos irmãos Maserati em 1947, construiu pequenos desportivos e automóveis de competição que conquistaram vitórias importantes. Agora, quase 60 anos depois do seu desaparecimento, a marca iniciou uma nova etapa. Mas o primeiro modelo desta era está longe daquilo que os seus fundadores teriam imaginado.
A recuperação da OSCA integra um projeto liderado por Massimo Di Risio, fundador da DR Automobiles, grupo italiano conhecido pela comercialização de automóveis de origem chinesa adaptados ao mercado europeu.
O regresso materializou-se em junho de 2026, no circuito de Imola, com a apresentação do MT6, um SUV-coupé baseado na plataforma do Changan UNI-T. A escolha pode parecer surpreendente para uma marca nascida nas pistas, mas faz parte de uma estratégia que pretende combinar modelos de maior volume comercial com automóveis mais exclusivos.
Segundo o ‘Motor1’, a nova OSCA aposta numa identidade visual própria e num trabalho de desenvolvimento realizado em Itália, embora a base técnica do primeiro modelo tenha origem chinesa.
E é precisamente no futuro da marca que surge a possibilidade de recuperar parte da sua herança desportiva.
A outra marca dos irmãos Maserati
Para compreender a importância deste regresso, é necessário viajar até 1947.
Nesse ano, Ernesto, Ettore e Bindo Maserati fundaram, nos arredores de Bolonha, a Officine Specializzate Costruzione Automobili, mais conhecida pela sigla OSCA.
Os três irmãos tinham deixado a empresa que ostentava o nome da família, depois de a Maserati ter sido vendida à família Orsi em 1937, e decidiram concentrar-se naquilo que melhor conheciam: a construção de automóveis desportivos e de competição.
Ao contrário dos grandes fabricantes, a OSCA apostou em modelos compactos, leves e tecnicamente sofisticados, desenvolvidos para competir com adversários frequentemente mais potentes.
Um dos primeiros automóveis foi o MT4, apresentado em 1948. Nesse mesmo ano, Luigi Villoresi conquistou uma vitória no Grande Prémio de Nápoles, iniciando uma trajetória que levaria a pequena empresa italiana a algumas das provas mais importantes do automobilismo internacional.
O momento de maior notoriedade chegou em 1954, quando Stirling Moss e Bill Lloyd venceram as 12 Horas de Sebring ao volante de um OSCA MT4, superando adversários de fabricantes muito mais poderosos.
A marca ficou associada aos pequenos desportivos de competição, capazes de compensar a menor cilindrada dos motores com baixo peso, agilidade e soluções mecânicas avançadas.
A OSCA também produziu automóveis de estrada em pequenas séries, recorrendo a carroçarias de especialistas italianos como Zagato, Frua e Vignale.
Apesar do prestígio conquistado nas pistas, nunca se transformou num fabricante de grande dimensão. Em 1963, o controlo da empresa passou para o grupo MV Agusta e, quatro anos depois, a atividade terminou.
O nome OSCA permaneceu, desde então, sobretudo na memória dos colecionadores e dos conhecedores da história do automobilismo.
O regresso começa com um SUV de origem chinesa
A nova OSCA apresenta uma realidade bastante diferente.
O MT6 utiliza uma plataforma de origem Changan e apresenta uma carroçaria SUV-coupé com 4,52 metros de comprimento, uma dianteira dominada por uma grande grelha octogonal e vários elementos em fibra de carbono.
O desenho foi desenvolvido pelo centro de estilo Fabbrica Italia, com a colaboração da Italdesign, procurando estabelecer uma identidade própria para o modelo.
No habitáculo, a aposta passa por uma apresentação desportiva, com bancos desenvolvidos em colaboração com a Recaro, revestimentos em pele e Alcantara e dois ecrãs de 10,25 polegadas.
O motor é um quatro cilindros 1.5 turbo a gasolina, com 180 cv, associado a uma caixa automática de dupla embraiagem de sete velocidades. A potência é transmitida às rodas dianteiras.
A marca anunciou um trabalho específico de desenvolvimento para o mercado europeu, conduzido por uma equipa liderada pelo engenheiro Roberto Fedeli, com experiência anterior em fabricantes como Ferrari, Maserati e Alfa Romeo.
As intervenções abrangeram a gestão eletrónica do motor, a suspensão, os amortecedores e o sistema de travagem. O escape contou com a participação da especialista italiana Tubi Style.
Em Itália, o preço anunciado para o MT6 foi de 49 mil euros, numa configuração bastante equipada.
O contraste com a história da marca é evidente. A empresa que nasceu para construir pequenos automóveis de competição regressou com um SUV baseado numa plataforma chinesa, embora com alterações de estilo e desenvolvimento técnico realizados em Itália.
E a estratégia não termina neste modelo.
Outro SUV antes do verdadeiro desportivo
A OSCA anunciou também o MT8, um segundo SUV-coupé que deverá alargar a gama.
Com aproximadamente 4,87 metros de comprimento, o MT8 mantém a filosofia do modelo mais pequeno, mas utiliza um motor 2.0 turbo de 250 cv e prevê versões de tração dianteira ou integral.
Contudo, o projeto mais interessante para os entusiastas da história da marca é um desportivo de dois lugares, com motor central, que a OSCA pretende lançar em 2027, precisamente no ano em que assinala o 80.º aniversário da sua fundação.
De acordo com a agência italiana Askanews, Massimo Di Risio confirmou que o automóvel deverá utilizar uma plataforma britânica e um motor V6 de 3,5 litros sobrealimentado.
Estas características levaram várias publicações especializadas a apontar o Lotus Emira como a provável base técnica do futuro modelo.
A hipótese é particularmente interessante porque o desportivo britânico utiliza um motor V6 de origem Toyota, com compressor volumétrico, numa configuração que desenvolve cerca de 400 cv.
A eventual ligação à Lotus permitiria recuperar uma fórmula bastante mais próxima da identidade original da OSCA: motor central, tração traseira e uma arquitetura concebida para privilegiar o comportamento dinâmico.
O desenvolvimento do novo automóvel deverá envolver a Italdesign e a equipa técnica da Historic Italian Brands, enquanto a afinação dinâmica ficará sob responsabilidade de Roberto Fedeli.
A intenção anunciada é apresentar um protótipo até ao final de 2026 e iniciar a comercialização em 2027, com um preço inferior a 200 mil euros.
Importa, contudo, distinguir os planos anunciados de um automóvel já concretizado. A plataforma definitiva, as especificações técnicas completas e o calendário de produção ainda carecem de confirmação.
Um regresso que também levanta dúvidas
A recuperação de uma marca histórica não garante, por si só, o regresso da filosofia que a tornou conhecida.
No caso da OSCA, existe ainda uma questão relacionada com o grupo responsável pelo projeto.
Em 2024, a autoridade italiana da concorrência aplicou uma multa de seis milhões de euros à DR Automobiles e à sua subsidiária DR Service & Parts por duas práticas comerciais desleais.
A investigação concluiu que a origem chinesa de determinados automóveis comercializados sob as marcas DR e EVO tinha sido apresentada de forma enganadora, sugerindo uma produção italiana. A autoridade identificou também problemas no fornecimento de peças e no serviço pós-venda.
A decisão dizia respeito à atividade dessas empresas e não aos novos modelos OSCA, mas ajuda a explicar a importância da transparência sobre a origem e o desenvolvimento dos automóveis desta nova fase.
Também por isso, o futuro desportivo poderá assumir um papel decisivo na credibilidade da marca.
Se os MT6 e MT8 representam uma aposta comercial no segmento dos SUV, o anunciado modelo com motor V6 poderá estabelecer uma ligação mais convincente ao passado.
Afinal, a OSCA original não construiu a sua reputação com grandes volumes de produção, mas com pequenos desportivos capazes de enfrentar adversários muito mais poderosos.
Quase 80 anos depois da fundação, o nome criado pelos irmãos Maserati voltou a aparecer num automóvel novo.
Resta saber se esta nova etapa ficará sobretudo associada aos SUV de origem chinesa ou se o prometido desportivo conseguirá recuperar uma parte do espírito que tornou a OSCA numa das pequenas marcas mais interessantes da história automóvel italiana.






