Basta olhar para uma moto de MotoGP atual para perceber que alguma coisa mudou profundamente na sua aparência. Onde antes existiam carenagens relativamente simples, encontramos agora asas, aletas e superfícies aerodinâmicas que parecem saídas de um avião de combate. Mas para que servem estes elementos? A resposta está numa das maiores revoluções tecnológicas do motociclismo moderno, que permite acelerar mais, travar melhor e ganhar preciosos décimos de segundo em pista.
As motos da categoria rainha ultrapassam os 350 km/h e possuem uma relação entre potência e peso extraordinária. Com tamanha capacidade de aceleração, manter a roda dianteira em contacto com o asfalto tornou-se um dos grandes desafios dos engenheiros.
É precisamente aqui que entram as pequenas asas, conhecidas como winglets.
Segundo um explicador técnico publicado pelo MotoGP, estas superfícies podem gerar uma força aerodinâmica descendente equivalente a cerca de 35 a 50 quilogramas quando as motos circulam a velocidades muito elevadas.
E, ao contrário das asas de um avião, não foram concebidas para levantar a máquina do chão.
A física explica: as asas fazem exatamente o contrário das de um avião
Num avião, as asas são concebidas para produzir sustentação, permitindo vencer a gravidade e levantar voo.
Numa moto de MotoGP, o princípio aerodinâmico é utilizado no sentido oposto.
O ar que atravessa as superfícies das asas cria diferenças de pressão que geram uma força descendente, pressionando a moto contra o asfalto.
Quanto maior for a velocidade, maior poderá ser essa força, embora o resultado dependa da geometria e da configuração aerodinâmica.
O benefício mais evidente surge durante as acelerações.
Quando um piloto abre completamente o acelerador, a transferência de carga para a traseira tende a levantar a roda dianteira. As asas ajudam a contrariar esse movimento, permitindo aproveitar melhor a potência disponível e reduzindo a necessidade de intervenção dos sistemas eletrónicos de controlo.
Mas as vantagens não terminam aí.
A carga aerodinâmica também contribui para a estabilidade a alta velocidade e pode melhorar o comportamento nas travagens e nas curvas rápidas.
Há, contudo, uma particularidade que distingue estas motos dos automóveis de Fórmula 1: os pilotos inclinam as máquinas a ângulos extremos, alterando constantemente a orientação das superfícies aerodinâmicas relativamente ao ar.
Por isso, desenvolver uma asa eficaz numa moto é um exercício especialmente complexo.
Se são tão eficazes, porque não aumentar simplesmente o tamanho das asas?
Porque a aerodinâmica também tem um preço.
As superfícies que geram força descendente criam resistência à passagem do ar, conhecida como arrasto aerodinâmico.
Isso significa que uma solução que melhora a aceleração ou a estabilidade pode prejudicar a velocidade máxima nas retas.
Os engenheiros procuram, por isso, um equilíbrio entre carga aerodinâmica e resistência ao avanço.
Além disso, as asas podem alterar o comportamento da moto quando esta circula muito próxima de outra. O ar turbulento deixado pela máquina da frente pode afetar a estabilidade e dificultar determinadas ultrapassagens.
A segurança também tem sido motivo de discussão, sobretudo devido à proliferação de elementos aerodinâmicos em zonas próximas do corpo dos pilotos.
A Ducati ajudou a transformar o MotoGP
Embora existam experiências com asas em motos de competição desde a década de 1970, a revolução moderna ganhou força em 2015, quando a Ducati introduziu aletas aerodinâmicas na sua Desmosedici GP15.
A solução revelou-se suficientemente interessante para levar outros fabricantes a desenvolver sistemas semelhantes.
Em 2017, os desenhos mais salientes foram proibidos por razões de segurança, mas a tecnologia regressou integrada nas próprias carenagens.
Desde então, a aerodinâmica tornou-se uma das áreas mais importantes da competição tecnológica entre Ducati, Aprilia, KTM, Honda e Yamaha.
A evolução chegou mesmo à zona traseira das motos, com soluções aerodinâmicas instaladas junto ao assento.
E porque vão mudar as asas em 2027?
A próxima grande transformação do MotoGP está marcada para 2027.
Os novos regulamentos preveem limitações mais apertadas à aerodinâmica, incluindo a redução da largura máxima da carenagem dianteira e alterações às dimensões permitidas.
O objetivo passa por reduzir a dependência de soluções aerodinâmicas cada vez mais complexas, controlar os custos e favorecer corridas com maior proximidade entre pilotos.
Também serão proibidos os dispositivos de ajuste da altura da moto durante a marcha.
Isto não significa o desaparecimento completo das asas, mas representa uma mudança importante na liberdade de desenvolvimento dos fabricantes.
E ajuda a perceber a dimensão da revolução: aquilo que começou como um conjunto de pequenas aletas transformou-se numa das tecnologias mais influentes do MotoGP moderno.
Na próxima vez que assistir a uma corrida, repare nas asas das motos. Não estão ali para as fazer voar, mas para garantir que continuam firmemente agarradas ao chão, mesmo quando os pilotos parecem desafiar as leis da física.
As asas são apenas uma parte da revolução tecnológica do MotoGP. Descubra também o que vai mudar nas motos em 2027, o impacto milionário do Grande Prémio de Portugal na economia e como os bilhetes para o MotoGP podem dar vantagem na corrida aos lugares para a Fórmula 1 em Portugal.






