O Calendário Pirelli 2027 é uma homenagem à Índia, mas também a um dos seus mais importantes fotógrafos. Raghu Rai morreu antes de concluir o projeto e foi a filha, Avani Rai, quem decidiu pegar na máquina fotográfica e dar continuidade ao trabalho. O resultado foi apresentado em Nova Deli e marca uma estreia na história da publicação.
Raghu Rai passou mais de seis décadas a fotografar a Índia. Quando foi convidado para participar na 53.ª edição do Calendário Pirelli, imaginou um encontro entre o passado e o presente: fotografias do seu arquivo serviriam de cenário a novos retratos de pessoas da Índia contemporânea.
Mas o fotógrafo morreu em abril, antes de conseguir terminar o projeto. A filha, também fotógrafa, decidiu não deixar o trabalho por concluir. E fez algo que o pai não tinha previsto: levou as imagens de volta aos locais onde muitas delas tinham sido captadas.
Uma filha, uma máquina fotográfica e as ruas da Índia
Em vez de reproduzir a ideia original num estúdio, Avani Rai percorreu as ruas de Deli e Mumbai com fotografias do arquivo do pai, algumas inéditas. Regressou a mercados, bairros históricos e outros espaços que Raghu tinha documentado ao longo da vida.
Em cada local, procurou um novo enquadramento, integrando a fotografia antiga na paisagem atual. O resultado são imagens em que duas épocas convivem no mesmo espaço, mostrando simultaneamente o que mudou e aquilo que permanece.
“O meu pai pertencia à rua. Foi por isso que peguei na ideia em que ele estava a trabalhar e a trouxe de volta para as ruas, para junto das pessoas que fotografou ao longo de toda a sua vida”, explicou Avani Rai.
O projeto envolveu cerca de 130 pessoas, desde cidadãos anónimos a bailarinos, artesãos e figuras conhecidas, incluindo o ator indiano Ranveer Singh. Entre os participantes esteve também a mãe da fotógrafa.
Nove mulheres mostram outra face da Índia
A outra metade do Calendário Pirelli 2027 ficou a cargo do norueguês Sølve Sundsbø, responsável também pela edição de 2026.
O fotógrafo escolheu nove mulheres com ligações à Índia e fotografou-as no Rajastão, entre o Forte de Jaigarh, em Jaipur, e Ajabgarh.
Entre as protagonistas estão as atrizes Freida Pinto, Aditi Rao Hydari e Avantika Vandanapu, a compositora Anoushka Shankar, a poeta Rupi Kaur, as modelos Lakshmi Menon e Bhavitha Mandava, a apresentadora Padma Lakshmi e a própria Avani Rai.
Sundsbø reconheceu que seria impossível representar toda a complexidade da Índia através de uma única abordagem. Preferiu concentrar-se nas histórias e identidades das mulheres fotografadas, deixando a Raghu e Avani Rai uma perspetiva mais documental do país.
A edição reúne 36 fotografias, distribuídas por uma caixa com dois compartimentos: 18 imagens de Sundsbø e outras 18 do projeto de Raghu e Avani Rai. É a primeira vez que três fotógrafos participam numa mesma edição do calendário.
Como nasceu o calendário mais famoso de uma marca de pneus?
A história do Calendário Pirelli começou em 1964, quando a subsidiária britânica da fabricante italiana procurava uma forma de se distinguir da concorrência.
A primeira edição, fotografada por Robert Freeman, conhecido pelo seu trabalho com os Beatles, foi produzida em Maiorca e distribuída como oferta institucional a clientes importantes.
Com o passar das décadas, o calendário deixou de ser apenas uma iniciativa promocional para se afirmar como um projeto de fotografia artística, reunindo nomes reconhecidos internacionalmente.
A publicação foi interrompida entre 1975 e 1983, durante a recessão mundial, e voltou a não ser produzida em 2021, devido à pandemia. Com a edição de 2027, são já 53 calendários assinados por 43 fotógrafos.
Mas esta edição tem uma particularidade que ultrapassa os números e as celebridades: através das fotografias de Raghu Rai e do olhar da filha, o passado e o presente da Índia encontram-se numa mesma imagem.






