Frank Stephenson ajudou a desenhar alguns dos automóveis mais admirados do mundo, incluindo modelos da Ferrari e o McLaren P1. Mas o primeiro elétrico de Maranello não o impressionou. Pelo contrário: o designer considera que o Luce poderá tornar-se um dos maiores fracassos da história do design automóvel. E nem a emblemática marca italiana escapou às críticas.
Quando alguém que ajudou a desenhar alguns dos Ferrari mais conhecidos das últimas décadas compara o primeiro elétrico da marca a uma barra de sabão com quatro rodas, a crítica dificilmente passa despercebida.
Frank Stephenson, designer com um currículo que inclui o Ferrari F430, o Maserati MC12, o primeiro MINI da era BMW e o McLaren P1, não esconde a desilusão com o novo Ferrari Luce.
Num artigo de opinião publicado pela ‘Top Gear’, o designer explica que preferiu deixar passar algum tempo após a apresentação do automóvel antes de formular uma avaliação definitiva. Mas a reflexão não suavizou as suas impressões.
Stephenson considera o Luce um erro de design, ainda que reconheça competência na execução de algumas soluções. Vai mais longe e admite que o modelo poderá ficar para a história como um dos maiores fracassos do design automóvel.
E rejeita antecipadamente uma possível defesa: a ideia de que o carro seria aceitável se ostentasse o símbolo de outra marca.
Para Stephenson, um mau desenho continua a ser um mau desenho, independentemente do emblema colocado no capô.
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O que correu tão mal no primeiro Ferrari elétrico?
A crítica começa na dianteira, que o designer considera demasiado genérica e praticamente desprovida de elementos capazes de transmitir a identidade da Ferrari.
Stephenson reconhece um mérito na continuidade visual entre a frente, o capô e o para-brisas, uma solução que aproveita a liberdade proporcionada pela ausência de um motor de combustão tradicional.
Mas os elogios terminam rapidamente.
Na lateral, critica a falta de tensão das linhas e a presença de elementos escuros que, na sua opinião, fazem o automóvel parecer artificialmente afastado das rodas, aproximando-o da estética de um todo-o-terreno.
Um detalhe quadrangular na porta dianteira merece uma comparação pouco favorável com o desenho de um iPhone.
A traseira recebe o julgamento mais severo. Stephenson considera que os elementos visuais não funcionam em conjunto e que as quatro óticas circulares parecem uma tentativa apressada de acrescentar alguma identidade Ferrari a um automóvel que, na sua opinião, praticamente não a possui.
O resultado é um modelo que o designer considera visualmente pouco expressivo, apesar de reconhecer a qualidade de execução do projeto.
Há uma parte do Ferrari Luce que escapou às críticas
Curiosamente, Stephenson muda de tom quando analisa o interior.
O Luce apresenta uma configuração de quatro portas e cinco lugares, privilegiando a utilização quotidiana e o conforto. Uma abordagem que o designer considera pouco habitual num Ferrari, mas que não o impede de reconhecer as qualidades do habitáculo.
A organização dos comandos, a atenção ao detalhe e a qualidade de execução merecem elogios. Stephenson admite mesmo que o interior poderá constituir um dos principais argumentos para escolher o automóvel.
Mas existe um problema que, para o designer, nenhuma destas qualidades consegue resolver.
Se fossem retirados os emblemas, seria possível reconhecer imediatamente que estamos perante um Ferrari?
Stephenson considera que não. E essa resposta resume grande parte da sua desilusão.
A influência da Apple está a apagar a identidade Ferrari?
O Ferrari Luce foi desenvolvido com a colaboração da LoveFrom, empresa fundada por Jony Ive, antigo responsável pelo design da Apple, e Marc Newson.
Essa ligação ajuda a compreender a abordagem minimalista e a atenção dada à experiência de utilização, sobretudo no interior.
Para Stephenson, porém, a aproximação entre a linguagem visual dos produtos tecnológicos e a tradição dos desportivos italianos levanta uma questão fundamental.
O designer defende que existe espaço para automóveis elétricos inspirados na filosofia da Apple e para Ferrari que preservem a emoção e a personalidade associadas à marca.
O problema, na sua opinião, surge quando a mistura dessas duas identidades acaba por enfraquecer ambas.
A crítica não significa, contudo, que o Luce seja necessariamente um mau automóvel. A própria Top Gear já destacou qualidades na condução do protótipo. O julgamento de Stephenson concentra-se sobretudo na aparência e na identidade do modelo.
Será este Ferrari um clássico incompreendido?
Apesar de tudo, Stephenson admite que o tempo poderá alterar a perceção do Ferrari Luce.
A história da indústria automóvel está cheia de modelos inicialmente controversos que acabaram por conquistar admiradores e reconhecimento.
Mas o designer mostra-se pouco convencido de que isso venha a acontecer com o primeiro elétrico de Maranello.
Para ilustrar as suas dúvidas, lança uma pergunta: será que o Ferrari Luce poderá conquistar o prémio máximo do Concurso de Elegância de Pebble Beach em 2050?
Stephenson não acredita.
A polémica deixa, porém, uma questão que vai muito além da aparência deste automóvel: numa altura em que a eletrificação está a transformar a indústria, até onde pode uma marca como a Ferrari reinventar-se sem perder a identidade que a tornou famosa?
Para Frank Stephenson, o Luce poderá ser o exemplo de uma transformação que foi longe de mais.






