Há uma tentação que muitos automobilistas conhecem: encontrar um lugar mesmo à porta do destino, ainda que isso implique dar mais uma, duas ou três voltas ao quarteirão. Ana Barbosa Leal, diretora de Operações Off-Street da Telpark, gostaria que deixássemos de pensar assim. Em entrevista à Automonitor, fala dos hábitos que os portugueses precisam de mudar ao estacionar, de como a tecnologia pode facilitar a procura de lugar e de um futuro em que levar o carro até ao destino nem sempre será a melhor opção.
“A ideia de que vale sempre a pena dar mais uma volta para encontrar lugar mesmo à porta.”
É este o comportamento que Ana Barbosa Leal eliminaria amanhã, se pudesse escolher apenas um.
“Todos reconhecemos essa tentação. O problema é quando repetimos a volta e continuamos sem resolver onde deixar o carro”, explica a responsável, defendendo que um parque a alguns minutos do destino pode ser uma alternativa mais conveniente para quem pode fazer o percurso a pé.
Mas a entrevista vai além do estacionamento. Os dados do estudo Telpark Impacta revelam um contraste: 87,1% dos inquiridos utilizam habitualmente o automóvel, mas 58,5% manifestam algum grau de concordância com restrições à circulação nas cidades.
Como conciliar estas duas realidades? E conseguirá a tecnologia acabar com as voltas à procura de estacionamento?
“A ideia de que vale sempre a pena dar mais uma volta”
Se pudesse eliminar amanhã um único comportamento dos automobilistas portugueses relacionado com estacionamento, qual seria?
A ideia de que vale sempre a pena dar mais uma volta para encontrar lugar mesmo à porta.
Todos reconhecemos essa tentação. O problema é quando repetimos a volta e continuamos sem resolver onde deixar o carro. Para quem pode fazer esse percurso a pé, um parque a alguns minutos do destino pode ser uma escolha muito mais conveniente.
Gostava que a pergunta passasse de “será que encontro lugar à porta?” para “qual é a melhor opção para esta deslocação?”. Pode ser reservar perto do destino ou deixar o carro junto de um transporte público. Depende da viagem e das necessidades de cada pessoa.
E quando vamos a um grande evento? Qual é o erro mais frequente?
Diria que o maior erro é deixar a decisão sobre onde estacionar para quando já estamos perto do recinto e, normalmente, com o tempo contado. Planeamos a compra do bilhete e a hora de chegada, mas muitas vezes o estacionamento fica para o fim. Quando milhares de pessoas fazem o mesmo, isso acaba por pesar na experiência de todos.
Do ponto de vista da operação, o desafio é preparar a chegada de muitas pessoas num intervalo curto e a saída de quase todas ao mesmo tempo. Quanto mais cedo conhecermos parte dessa procura, melhor conseguimos organizar a resposta.
No NOS Alive e no Rock in Rio Lisboa, as reservas da Telpark aumentaram. Isso significa que há mais pessoas a levar o carro?
Não podemos concluir, apenas com base nestes resultados, que há mais pessoas a levar o automóvel aos festivais. O que os números mostram é uma maior utilização das reservas antecipadas da Telpark.
No Rock in Rio Lisboa registámos 3.155 reservas, mais 14% do que na edição de 2024. No NOS Alive foram 2.303, um crescimento de 25% face ao ano anterior. São resultados positivos e mostram que os utilizadores valorizam a possibilidade de organizar a deslocação com antecedência.
“Não basta ter tecnologia”
Quanto tempo perde um português à procura de estacionamento? E quanto desse tempo poderemos poupar com a tecnologia?
Não dispomos de um indicador próprio que nos permita quantificar com rigor o tempo médio que um automobilista português passa à procura de estacionamento. Por isso, não seria correto avançar com um número ou estimar quanto tempo a tecnologia poderá eliminar.
O que podemos dizer é que a reserva antecipada e os pagamentos digitais ajudam a evitar algumas das tarefas que antes tinham de ser resolvidas no local.
A inteligência artificial poderá acabar com as voltas à procura de lugar?
Mesmo sem recorrer à inteligência artificial, já é possível evitar muitas das voltas à procura de estacionamento. A aplicação Telpark permite escolher soluções de estacionamento de acordo com diferentes necessidades, seja nas deslocações do dia a dia, em momentos de lazer ou em ocasiões especiais.
A inteligência artificial poderá ajudar a analisar mais informação e a melhorar a forma como antecipamos padrões de procura. Mas não basta ter tecnologia: é necessário que a informação seja fiável e que as infraestruturas e os diferentes serviços consigam trabalhar de forma articulada.
Não avançaria com uma data para dizer que este problema vai desaparecer.
Já conseguem prever quando um parque vai ficar cheio e avisar os condutores antes de chegarem?
Os dados e os sistemas que utilizamos já nos ajudam a planear a operação e a disponibilidade dos diferentes produtos de estacionamento. Conseguimos compreender padrões de procura e preparar os momentos de maior concentração de entradas e, sobretudo, de saídas. Isso é diferente de afirmar que já prevemos automaticamente a hora exata a que cada parque vai encher.
Quanto a recomendações automáticas de alternativas em tempo real, é importante distinguir essa possibilidade das funcionalidades que já disponibilizamos.
“O automóvel não tem de ser a melhor opção em todos os percursos”
Uma empresa de estacionamento ganha com os automóveis, mas as cidades querem menos carros nos centros. Não há aqui uma contradição?
Não vemos necessariamente uma contradição. O automóvel continua a ser importante para muitas deslocações, mas isso não significa que tenha de ser a melhor opção em todos os percursos ou em todas as zonas da cidade.
O Telpark Impacta mostra que 87,1% dos inquiridos utilizam habitualmente o automóvel. Ao mesmo tempo, 58,5% manifestam algum grau de concordância com restrições à circulação automóvel nas cidades. Há abertura à mudança, mas as alternativas têm de funcionar: 58,3% apontam o tempo de deslocação como barreira à mudança de transporte e 35,3% referem o custo.
É por isso que vemos os parques como parte da organização da mobilidade urbana. Um parque dissuasor, por exemplo, permite deixar o carro e continuar de transporte público. Nalguns casos fará sentido estacionar perto do destino; noutros, combinar meios de transporte.
Os automóveis elétricos estão a mudar os parques. Um parque que apenas ofereça estacionamento estará ultrapassado daqui a dez anos?
Um parque tem de responder ao que as pessoas precisam naquela localização. Em muitos casos, isso já inclui carregar o automóvel enquanto está estacionado. A nossa prioridade é adequar o serviço ao tempo de permanência e ao perfil de utilização de cada parque.
Em Portugal, o reforço previsto para 2026 contempla 126 pontos de carregamento, somando os já instalados aos previstos até ao final do ano: 87 em Lisboa, quatro no Porto e 35 no restante país.
Quem deixa o automóvel durante várias horas tem uma necessidade diferente de quem precisa de carregar numa paragem curta. Não diria que um parque dedicado apenas ao estacionamento ficará necessariamente ultrapassado. O valor de cada parque estará na qualidade e na utilidade dos serviços que oferece a quem o utiliza.
E a aplicação Telpark? Poderá um dia escolher onde estacionamos, reservar o lugar e combinar o carro com transportes públicos?
Hoje, através da aplicação Telpark, já é possível reservar estacionamento e efetuar pagamentos digitais. A próxima etapa não tem de passar por uma aplicação que decida tudo pelo utilizador, mas por tornar mais simples o acesso aos serviços de que precisa em diferentes momentos.
É também por isso que temos vindo a desenvolver uma estratégia de parcerias com empresas de outros setores ligados à mobilidade.
A integração com transportes públicos é uma possibilidade relevante, mas não devemos confundi-la com uma funcionalidade já disponível na aplicação.
O que nos vai parecer absurdo daqui a cinco anos?
Faça uma previsão: o que fazemos hoje quando vamos de carro a um grande evento que, daqui a cinco anos, nos vai parecer completamente absurdo?
A minha previsão é que nos pareça cada vez mais estranho comprar o bilhete para um grande evento com meses de antecedência e só decidir onde deixar o carro quando chegamos às imediações do recinto.
Gostava que, daqui a cinco anos, planear a chegada e o regresso fizesse parte da preparação com a mesma naturalidade com que hoje compramos um bilhete no telemóvel. Isso pode significar reservar um parque ou combinar o carro com os transportes públicos, conforme o evento e as alternativas disponíveis.
Do lado da operação, teremos de acompanhar essa expectativa com informação fiável e uma boa organização dos acessos e das saídas. O cliente deve poder concentrar-se no espetáculo e nas boas recordações, não na preocupação de encontrar onde estacionar.
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