A Audi desenvolveu dois automóveis elétricos exclusivamente para o mercado chinês, mas não contava que acabassem à venda no seu próprio país. Quando um importador independente começou a comercializar os modelos na Alemanha, a fabricante decidiu avançar com medidas judiciais para impedir a sua entrada no mercado europeu.
Os protagonistas desta história são o AUDI E5 Sportback e o AUDI E7X, dois modelos desenvolvidos em parceria com a chinesa SAIC e comercializados sob a marca AUDI, escrita em maiúsculas e sem o tradicional símbolo dos quatro anéis.
Segundo a ‘Auto Bild’, que recupera informações inicialmente divulgadas pela Automobilwoche, a empresa alemã Auto China começou a importar os veículos durante o verão, oferecendo aos consumidores modelos que não fazem parte da gama oficial da Audi na Europa.
A iniciativa, porém, teve uma duração curta. A Audi confirmou que iniciou procedimentos legais contra o importador e que pretende fazer valer os seus direitos.
Dois Audi que os europeus não deveriam poder comprar
A história começa com a criação da AUDI, uma marca lançada em 2024 pela fabricante alemã em parceria com a SAIC.
O objetivo era conquistar consumidores chineses mais jovens e interessados em tecnologia, oferecendo automóveis elétricos com uma identidade própria, diferente da utilizada pela Audi nos mercados ocidentais.
O primeiro modelo foi o E5 Sportback, apresentado em 2025, seguindo-se o SUV E7X, revelado em 2026.
Ambos foram desenvolvidos especificamente para a China, com soluções tecnológicas e equipamentos adaptados às preferências dos consumidores locais.
Mas os automóveis despertaram também interesse fora daquele mercado.
A empresa Auto China, especializada na importação de veículos chineses para a Alemanha, decidiu aproveitar essa oportunidade. Comprava os automóveis na China, transportava-os para território alemão e tratava dos procedimentos necessários à sua matrícula.
A empresa já trabalhava com veículos de outras marcas chinesas, incluindo fabricantes ligados aos setores tecnológicos.
Custam mais do dobro na Alemanha, mas continuam a despertar interesse
Os preços anunciados ajudam a explicar a curiosidade em torno destes automóveis.
Na Alemanha, o AUDI E5 Sportback estava anunciado por 59.980 euros, enquanto o SUV E7X começava nos 72.900 euros.
Na China, os preços de entrada eram consideravelmente inferiores: aproximadamente 26.269 euros para o E5 Sportback e 34.407 euros para o E7X.
Mesmo com valores superiores ao dobro dos praticados no mercado chinês, os dois modelos despertavam interesse pelo equipamento e pelas características técnicas.
Para comparação, a Auto Bild refere que um Audi S6 e-tron Sportback custa pelo menos 99.500 euros na Alemanha, enquanto o SQ6 e-tron começa nos 93.800 euros.
Contudo, os valores inicialmente anunciados pelo importador não correspondiam necessariamente ao preço final pago pelos clientes, uma vez que poderiam acrescer impostos e despesas associadas à importação e legalização.
Porque é que a Audi quer impedir a venda dos seus próprios carros?
A fabricante alemã sustenta que os modelos AUDI foram concebidos exclusivamente para o mercado chinês e não dispõem de homologação europeia de tipo concedida pelo fabricante.
A Auto China, por seu lado, afirmava conseguir tratar dos procedimentos necessários à circulação dos automóveis na Alemanha.
A questão não se limita, porém, à documentação.
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A Audi alerta também para dificuldades relacionadas com manutenção, assistência técnica e fornecimento de peças.
Segundo a fabricante, os concessionários autorizados fora da China não estão preparados para assegurar os serviços necessários aos modelos da AUDI, uma vez que estes pertencem a uma gama desenvolvida especificamente para aquele mercado.
Existem ainda questões relacionadas com os direitos de marca e a autorização para comercializar veículos originalmente destinados a um território diferente.
À Automobilwoche, uma porta-voz da Audi confirmou que a empresa tinha iniciado medidas legais contra o importador e que pretendia defender os seus direitos.
Os carros desapareceram do catálogo do importador
Depois da intervenção da Audi, os modelos E5 Sportback e E7X deixaram de aparecer no catálogo da Auto China.
Segundo o portal alemão Golem, um representante do importador não esclareceu se a retirada dos automóveis estava diretamente relacionada com a ação judicial.
Entretanto, há indicações de que alguns exemplares já terão chegado às estradas alemãs.
O caso apresenta semelhanças com outro conflito envolvendo o Grupo Volkswagen.
Em março de 2026, um tribunal de Hamburgo deu razão à Volkswagen, numa decisão ainda não definitiva, num processo relacionado com a importação de 22 exemplares do ID.6 Crozz, um SUV elétrico desenvolvido para a China.
Nesse caso, chegou a estar em discussão a destruição dos veículos importados, embora a decisão pudesse ainda ser contestada judicialmente.
O precedente mostra como a importação independente de automóveis concebidos para mercados específicos pode levantar problemas legais, mesmo quando os veículos pertencem a fabricantes conhecidos dos consumidores europeus.
Para já, a Audi mantém a sua posição: os E5 Sportback e E7X destinam-se ao mercado chinês, e a sua comercialização na Europa não faz parte dos planos oficiais da fabricante.
A ironia é que estes dois modelos foram criados para ajudar a Audi a competir com as marcas chinesas na China, mas acabaram por despertar interesse suficiente para serem importados para a Alemanha, precisamente o país de origem da fabricante.
Da autonomia recorde aos prémios em Portugal: a Audi continua a dar que falar
A Audi tem estado em destaque por razões muito diferentes. Recentemente, a Automonitor contou como a fabricante alemã está a emprestar engenheiros a outras empresas, num modelo que faz lembrar as transferências do futebol e que poderá levar alguns profissionais a trabalhar no desenvolvimento de mísseis.
No campo da mobilidade elétrica, também demos conta de um Audi que percorreu 1.338 quilómetros sem voltar a carregar, embora exista um número decisivo para compreender como foi possível alcançar essa distância.
Já em Portugal, a marca alemã teve motivos para celebrar: o Audi A6 e-tron foi eleito o elétrico preferido dos portugueses em 2026, numa edição dos prémios do Automóvel Club de Portugal que distinguiu vários modelos e fabricantes.






