A autonomia oficial é de até 777 quilómetros. Miko Marczyk conseguiu percorrer 1.338. O campeão europeu de ralis levou um Audi A6 Sportback e-tron performance até ao limite e estabeleceu um novo recorde do Guinness para a maior distância percorrida por um automóvel elétrico de produção em série com uma única carga. O resultado impressiona, mas não deve ser confundido com a autonomia que um condutor poderá esperar no dia a dia: foram necessárias mais de 45 horas.
Normalmente, Miko Marczyk tenta chegar ao fim o mais depressa possível. Desta vez, tinha de fazer exatamente o contrário.
O piloto polaco partiu de Zakopane, no sul da Polónia, às 01h55 de 11 de setembro. Seguiu por Cracóvia, Sandomierz e Varsóvia, acompanhou o vale do Vístula até Hel, junto ao mar Báltico, e iniciou depois o caminho de regresso.
O Audi acabou por parar entre Toruń e Ciechocinek.
No contador estavam 1.338 quilómetros percorridos sem uma única recarga.
O resultado foi reconhecido pelo Guinness World Records e superou o anterior recorde de 1.205 quilómetros estabelecido em 2025 por um Lucid Air Grand Touring, segundo a Volkswagen Financial Services, que apoiou a tentativa.
De 777 para 1.338 quilómetros
O automóvel utilizado torna o resultado particularmente interessante.
Não se tratava de um protótipo construído especificamente para bater recordes, mas de um Audi A6 Sportback e-tron performance de produção, equipado com uma bateria de 100 kWh de capacidade bruta e 94,9 kWh úteis.
A Audi anuncia para esta versão uma autonomia máxima de 777 quilómetros segundo o ciclo WLTP.
Marczyk acrescentou mais 561 quilómetros a esse valor.
O segredo está sobretudo num número: 7,09 kWh/100 km.
Foi esse o consumo médio registado durante toda a tentativa. Para comparação, a Audi homologa atualmente o A6 Sportback e-tron performance para consumos combinados entre aproximadamente 13,6 e 15,8 kWh/100 km, dependendo da configuração.
Ou seja, durante a tentativa de recorde, Marczyk conseguiu gastar sensivelmente metade da energia que o automóvel pode consumir no ciclo normal de homologação.
Há um “mas”: foram mais de 45 horas
É aqui que os 1.338 quilómetros precisam de ser colocados em perspetiva.
A viagem demorou mais de 45 horas.
Mesmo utilizando 45 horas como referência mínima, dividir 1.338 quilómetros por esse período dá uma velocidade média global inferior a 30 km/h.
Não significa que o Audi tenha circulado permanentemente a essa velocidade — o tempo total inclui necessariamente as diferentes fases da viagem —, mas mostra até que ponto esta experiência está afastada de uma deslocação de 1.338 quilómetros feita a velocidades normais de autoestrada.
A própria tentativa tinha um objetivo muito específico: percorrer a maior distância possível com a energia disponível, e não chegar rapidamente ao destino.
Segundo a Audi, o percurso decorreu em estradas abertas ao trânsito e incluiu mesmo troços em hora de ponta. A temperatura média rondou os 15 graus, tendo descido até aos sete graus durante a madrugada.
Como conseguiu gastar tão pouca energia?
Não houve um único truque.
Marczyk adotou uma condução extremamente suave e antecipatória, evitando acelerações desnecessárias e travagens bruscas. A pressão dos pneus foi igualmente controlada para minimizar a resistência ao rolamento.
O sistema de regeneração também desempenhou um papel importante.
O A6 Sportback e-tron consegue recuperar até 220 kW de potência durante a desaceleração e, segundo a Audi, a regeneração permite responder a cerca de 95% das situações de travagem encontradas na utilização quotidiana sem necessidade de recorrer aos travões mecânicos.
O percurso começou ainda numa região montanhosa, junto aos Tatras, permitindo aproveitar as descidas para recuperar parte da energia.
Mas há outra característica do automóvel particularmente importante para a eficiência: a aerodinâmica.
O Audi mais aerodinâmico de sempre
O A6 Sportback e-tron apresenta um coeficiente aerodinâmico de apenas 0,21, o valor mais baixo alcançado até agora por um Audi de produção.
A marca calcula que aproximadamente 40% do consumo do Sportback no ciclo WLTP resulte da resistência aerodinâmica.
Quanto maior a velocidade, mais importante se torna esse fator.
No recorde, contudo, o resultado de 7,09 kWh/100 km nasceu da combinação de várias condições: aerodinâmica, baixa resistência ao rolamento, utilização da regeneração, temperatura relativamente favorável e, sobretudo, uma condução inteiramente orientada para poupar energia.
Curiosamente, o automóvel utilizado estava muito longe de ser lento.
O A6 Sportback e-tron performance tem 367 cv e 565 Nm, acelera dos zero aos 100 km/h em 5,4 segundos e pode atingir 210 km/h.
Durante aquelas 45 horas, praticamente nenhuma dessas capacidades interessava.
Então um A6 e-tron consegue mesmo fazer 1.338 km?
Conseguiu. Mas não é isso que um proprietário deve esperar quando entra numa autoestrada.
A 120 ou 130 km/h, com climatização ligada, acelerações normais, diferentes condições meteorológicas e sem a intenção de esgotar a bateria até ao limite, o resultado será inevitavelmente muito diferente.
Aliás, é precisamente por isso que o dado mais revelador deste recorde poderá não ser a distância.
São os 7,09 kWh/100 km.
O recorde mostra até onde pode chegar a eficiência de um automóvel elétrico moderno quando praticamente todas as variáveis são colocadas ao serviço de um único objetivo: gastar o mínimo possível.
E Miko Marczyk já sabia como jogar este jogo.
Em 2025, o mesmo piloto tinha estabelecido outro recorde do Guinness, então ao volante de um Škoda Superb 2.0 TDI. Percorreu 2.831 quilómetros com um único depósito, registando um consumo médio de apenas 2,6 litros por 100 quilómetros.
Desta vez trocou o gasóleo pela eletricidade.
E levou um Audi homologado para até 777 quilómetros quase ao dobro dessa distância.






