Há estradas em Portugal onde ainda se consegue ouvir um carburador.
Sem o ruído permanente do trânsito, sem filas e sem a monotonia da autoestrada, há curvas onde um automóvel com várias décadas obriga o condutor a trabalhar o volante, a sentir a mecânica e a perceber tudo aquilo que acontece entre as mãos, os pés e as rodas.
Telmo Ramalho tem uma expressão para isso: são estradas onde “ainda se ouve a carburação sem o ruído constante da civilização moderna”.
É por algumas delas que, a partir desta sexta-feira – e até domingo -, vão passar os automóveis do Ribacôa Clássicos. Serão apenas 20, numa viagem de cerca de 200 quilómetros pelo interior do país.
Mas façamos uma experiência.
Retiremos os castelos. Os vinhos. A gastronomia. Os hotéis. Deixemos apenas um automóvel antigo, uma estrada e 200 quilómetros pela frente.
Ainda valeria a viagem?
“Mesmo sem o património, os vinhos e a gastronomia, os 200 quilómetros de estrada justificariam a viagem”, responde Telmo Ramalho, ator e responsável pela iniciativa, em entrevista à Automonitor.
E talvez seja precisamente na resposta a esta pergunta que começa a perceber-se o Ribacôa Clássicos.
“Curvas fluidas” e carros que ainda obrigam a trabalhar
Para Telmo Ramalho, conduzir um clássico nestas estradas é quase o oposto daquilo em que se transformaram muitas deslocações quotidianas.
De um lado estão “o caos e o stress nos grandes centros urbanos” e a “monotonia das autoestradas”. Do outro, aquilo a que chama “geometria de condução”.
“Curvas fluidas com bom asfalto que permitem sentir o trabalho mecânico e, em alguns casos, sem direção assistida.”
Não é apenas uma questão de curvas. “Traçados desimpedidos de tráfego denso onde a condução ganha ritmo e contemplação”, acrescenta.
E depois há a paisagem, com estradas abertas e miradouros que acompanham a viagem. É dessa combinação que nasce aquilo que Telmo Ramalho descreve como uma “sensação de liberdade”.
Uma liberdade que, num automóvel construído há várias décadas, também se ouve. “Estradas onde ainda se ouve a carburação sem o ruído constante da civilização moderna.”
Mas se as estradas são parte fundamental da experiência e os automóveis aquilo que leva os participantes até lá, quem é afinal o verdadeiro protagonista? “Os automóveis são o chamariz. O território é a razão de ser”
A resposta chega sem hesitação. “Os automóveis são o chamariz e o meio de transporte, mas o território é a razão de ser.”
O Ribacôa Clássicos utiliza a paixão automóvel para levar pessoas para fora dos grandes circuitos turísticos e colocá-las diante de um Portugal que nem sempre aparece nos roteiros habituais. “O clássico funciona como pretexto para descentralizar o turismo e levar as pessoas a um Portugal interior fascinante”, explica Telmo Ramalho.
Sabugal, Almeida, Pinhel e Figueira de Castelo Rodrigo fazem parte desse território, com o responsável pela iniciativa a destacar como “imprescindível” o apoio dos municípios envolvidos.
A lógica é simples, mas inverte aquilo que poderia esperar-se de um encontro automóvel: o território não foi escolhido apenas para proporcionar um cenário bonito aos carros. Os carros são usados para levar pessoas ao território.
E isso ajuda a explicar outra característica invulgar do Ribacôa Clássicos.
Não quer ter muitos automóveis.
Se houvesse 100 inscrições? “Manteríamos o limite nos 20”
Vinte carros. O número não resulta de falta de procura nem é uma limitação que a organização espere ultrapassar à medida que o evento cresce.
Perguntámos a Telmo Ramalho o que aconteceria se amanhã aparecessem 100 inscrições. “Mesmo com 100 inscrições, manteríamos o limite nos 20 automóveis.”
É uma escolha. “O ecossistema do evento assenta na proximidade, na fluidez e no acolhimento familiar.”
Colocar muito mais carros na estrada poderia fazer crescer os números, mas mudaria aquilo que a organização procura preservar.
“Aumentar a escala transformaria a experiência de caravana intimista num pesadelo logístico para as estradas e para a hospitalidade local.”
Por isso, garante, os 20 não são apenas o número desta edição. “A escala reduzida não é uma limitação temporária, mas a própria identidade do Ribacôa Clássicos.”
Poucos carros, portanto. Mas não necessariamente os mais raros.
Um carro de família pode ter a melhor história da caravana
Qual será o automóvel que fará mais pessoas parar quando a caravana passar?
Telmo Ramalho não escolhe um. “O grande destaque é a diversidade da caravana.”
Entre os participantes coexistem “ícones desportivos” e “simples carros de família dos anos 70 e 80”. E é precisamente aqui que a conversa se afasta da raridade, da potência ou da cotação.
“Mais do que a raridade, são as histórias humanas: automóveis mantidos na mesma família há gerações ou restauros minuciosos feitos pelas próprias mãos dos proprietários.”
Um carro familiar aparentemente banal pode carregar várias décadas da história de uma família. Outro pode representar anos de trabalho de alguém que decidiu desmontá-lo, recuperar o que parecia perdido e voltar a colocá-lo na estrada.
O valor deixa, nesse momento, de caber numa tabela de preços.
Está na memória.
E é precisamente a memória que levanta uma das questões mais importantes para o futuro dos clássicos.
Os jovens não perderam o interesse. Mudaram de clássicos
Quem cresceu nas décadas de 1950, 60 ou 70 pode olhar para muitos destes automóveis e reconhecer imediatamente uma parte da própria vida.
Talvez tenha existido um na família. Talvez fosse o carro que via passar todos os dias. Talvez fosse aquele que queria comprar quando ainda não tinha dinheiro para o fazer.
Mas o que acontece quando essa geração envelhece?
Os automóveis clássicos conseguem conquistar quem nasceu muito depois deles ou estão condenados a envelhecer juntamente com os seus proprietários?
“Nota-se um interesse crescente por parte dos mais jovens, ainda que com preferências distintas”, responde Telmo Ramalho.
A mudança já está a acontecer. “Enquanto as gerações mais antigas preservam os modelos dos anos 50 a 70, os novos participantes entram no movimento através dos youngtimers”, sobretudo automóveis das décadas de 1980 e 1990.
Talvez, portanto, os jovens não estejam a abandonar os clássicos.
Talvez estejam simplesmente a escolher aqueles que lhes pertencem emocionalmente. “A paixão mantém-se viva, renovando-se no tipo de máquinas e na forma de as desfrutar.”
É uma transformação fundamental para o futuro deste universo. Porque preservar automóveis antigos exige que continue a existir alguém que queira comprá-los, mantê-los e, sobretudo, conduzi-los.
Mas isso pode não chegar.
Daqui a 20 anos ainda poderemos fazer estes mesmos 200 quilómetros?
Pegámos então no Ribacôa Clássicos e empurrámo-lo duas décadas para o futuro.
O mesmo carro. As mesmas estradas. Os mesmos 200 quilómetros.
Ainda será possível fazê-los livremente?
“Daqui a duas décadas continuaremos a rodar nestas estradas”, acredita Telmo Ramalho.
Mas a frase seguinte é menos tranquilizadora.
“O modelo de utilização sofrerá adaptações.”
O responsável pelo Ribacôa Clássicos identifica desde logo “as restrições legislativas e ambientais” entre as ameaças à utilização futura destes automóveis.
Depois há aquilo que os fará andar.
A progressiva redução da disponibilidade de combustíveis tradicionais, à medida que avança a transição energética, obrigará a encontrar soluções capazes de manter motores construídos noutra época em funcionamento. Telmo Ramalho aponta os e-fuels, ou combustíveis sintéticos, como uma das alternativas possíveis.
Mas há uma terceira ameaça.
E talvez seja a mais fácil de esquecer.
Daqui a 20 anos, quem vai saber reparar estes carros?
Podemos guardar um automóvel durante décadas.
Podemos preservar a carroçaria, procurar peças, protegê-lo da ferrugem e esperar que continue a existir combustível capaz de alimentar o motor.
Mas alguém terá de saber o que fazer quando ele deixar de funcionar.
Telmo Ramalho aponta “o desaparecimento gradual de oficinas especializadas e artesãos da mecânica tradicional” como uma das maiores ameaças à sobrevivência deste tipo de utilização dos clássicos.
É conhecimento que também envelhece. Saber afinar um carburador. Perceber uma avaria sem ligar o automóvel a um computador. Recuperar uma peça em vez de simplesmente a substituir. Trabalhar com sistemas mecânicos que desapareceram há décadas dos automóveis novos.
Cada oficina que fecha e cada profissional que abandona a atividade pode levar consigo uma pequena parte desse conhecimento. E é aí que a questão do futuro dos clássicos deixa de ser apenas tecnológica.
Para que estes carros sobrevivam não basta que continuem a existir. É preciso haver quem queira conduzi-los. Combustível para os fazer andar. Regras que permitam colocá-los na estrada. Peças para os manter. E pessoas que ainda saibam repará-los.
Por enquanto, tudo isso ainda existe.
E a partir desta sexta-feira haverá 20 automóveis a fazer aquilo para que foram construídos: sair da garagem, aquecer o motor e percorrer cerca de 200 quilómetros de estrada. Não estarão parados num museu. Não estarão escondidos numa coleção. Estarão a ser automóveis.
Daqui a 20 anos, Telmo Ramalho acredita que continuarão a fazê-lo. Mesmo que, até lá, seja preciso encontrar novas formas de preservar uma coisa tão antiga e tão simples como ouvir um carburador numa estrada vazia.







