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Ensaio. Novo Dacia Spring: crescer sem perder a inteligência de ser pequeno

Jorge Farromba

Encontramos automóveis que vão evoluindo através de melhorias contínuas, mas no caso do Spring este só conserva o nome, pois começa praticamente do zero, conta-nos Jorge Farromba

Tudo mudou… exceto o nome.

Encontramos automóveis que vão evoluindo através de melhorias contínuas, mas no caso do Spring este só conserva o nome, pois começa praticamente do zero.

Apresentada em Paris, esta segunda geração do elétrico Dacia não é uma atualização profunda nem uma simples mudança de estilo pois a plataforma, a carroçaria, as proporções, o sistema de propulsão, a bateria, o habitáculo e até a origem industrial são novos.

Acredito que a Dacia quis manter uma designação que se tornou sinónimo de acesso simples e financeiramente racional pois desde 2021:

• conquistou mais de 210 000 consumidores em 40 países;
• 93% dos particulares estavam a adquirir o seu primeiro elétrico
• 79% vinham de outras marcas.

A estratégia revelou-se acertada pois não foi apenas um produto de volume mas uma ferramenta de conquista comercial pois conseguiram trazer novos consumidores para o universo Dacia.

Hoje, o Spring está mais completo; mais maduro, com um aumento de dimensões exteriores, espaço disponível e capacidade da bagageira.

A democratização elétrica

O Spring não nasceu para vencer provas de potência ou alcançar autonomias espetaculares; também não transformou o habitáculo numa montra tecnológica. Tenta responder a uma questão concreta: quanto automóvel necessita realmente a maioria dos consumidores nas suas deslocações quotidianas?

E os dados recolhidos pela Dacia ajudam a responder a isso:

• Em média, os proprietários percorrem 34km/dia,
• a uma velocidade média de 34 km/h,
• 75% carregam o automóvel em casa.

Perante este perfil de utilização, instalar uma bateria enorme não representaria necessariamente progresso; mas transportar centenas de kg adicionais, pagar por capacidade raramente utilizada e consumir mais matérias-primas para resolver um problema que, na maioria dos dias, simplesmente não existe.

É aqui que a Dacia demonstra uma inteligência industrial pouco comum. Em vez de começar pelas perguntas “quanto podemos acrescentar?”, começa por perguntar “do que podemos prescindir sem prejudicar aquilo que interessa?”. Essa mudança de perspetiva explica quase tudo neste automóvel: o Spring é minimalista por disciplina.

Um novo corpo, uma nova postura

Com 3,85 metros de comprimento e 1,74 metros de largura, cresceu 15 cm em comprimento e 18 cm em largura – particularmente importante – pois modifica radicalmente a perceção visual do automóvel.

O novo Spring apresenta superfícies mais tensas, ombros traseiros marcados, capot curto e elevado e extremidades quase verticais: de frente, a inspiração no Duster é evidente.

Mas não se trata de copiar o irmão, mas de transferir para um automóvel do segmento A a mesma ideia de robustez simples e funcional onde a largura adicional torna as proporções mais harmoniosas, onde até as faixas pretas que unem os elementos luminosos dianteiros e traseiros fazem-no parecer ainda mais largo; os para-choques volumosos e as proteções em plástico texturado não procuram simular capacidades todo-o-terreno mas suportar melhor os inevitáveis contactos, riscos e pequenas agressões da utilização urbana.

O farol que explica a filosofia Dacia

A assinatura luminosa, inspirada no símbolo Dacia Link, possui uma secção superior iluminada por LED. Até aqui tudo normal… só que a parte inferior, colocada num ângulo de aproximadamente 45º, não necessita de uma segunda estrutura luminosa complexa pois reflete a luz proveniente da secção superior, criando profundidade, continuidade visual e um efeito aparentemente mais sofisticado, numa solução quase pedagógica, pois o design não foi utilizado para esconder a redução de custos mas utilizado para a tornar visualmente interessante:

• Menos componentes eletrónicos,
• menos cablagem,
• menor complexidade industrial
• assinatura reconhecível à distância.

A mesma lógica surge na traseira pois em vez de aplicar individualmente as letras da marca, a palavra Dacia está integrada na própria faixa decorativa. A superfície ligeiramente inclinada reage à luz e cria contraste.

Estes pormenores poderão ser considerados irrelevantes, mas não são, pois multiplicados por centenas de milhares de automóveis, alguns gramas, alguns componentes e alguns segundos poupados na montagem transformam-se em custos industriais consideráveis. E ao fazer mais com menos permite à Dacia continuar a falar de preços abaixo dos 20.000 euros num automóvel elétrico produzido na Europa.

A plataforma do Twingo, mas com personalidade Dacia

O novo Spring utiliza a plataforma elétrica compacta RG-EV do Grupo Renault e partilha uma parte importante da sua arquitetura com o novo Renault Twingo E-Tech Electric.

A produção dos dois modelos é realizada na Eslovénia e permite explorar componentes e processos industriais comuns, reduzindo custos sem obrigar os dois automóveis a desempenhar o mesmo papel onde o Twingo é mais emocional e estilizado e o Spring adota uma abordagem mais robusta, objetiva e familiar.

Esta familiaridade técnica entre as marcas não anula a identidade mas demonstra como uma mesma base pode originar produtos posicionados de maneira distinta.

O Spring é também o primeiro Dacia desenvolvido através dos novos programas do Grupo Renault destinados a reduzir o ciclo de conceção para menos de dois anos e esta rapidez não resulta apenas de trabalhar mais depressa mas de reutilizar arquiteturas comprovadas, concentrar variantes, diminuir o número de decisões supérfluas e evitar complexidade que o cliente teria de pagar sem necessariamente a valorizar.

Mais espaço onde realmente interessa

Por exemplo, o crescimento exterior foi utilizado com pragmatismo pois continua compacto para a cidade, mas oferece mais espaço para quatro ocupantes além de uma posição de condução melhorada, sendo que estas observações devem ser entendidas como primeiras impressões estáticas, não como conclusões de um ensaio dinâmico completo.

O pequeno detalhe que liberta uma bagageira inteira

Sob o capot existe uma das novidades mais simples e úteis do novo Spring: um compartimento dianteiro opcional de 18 litros – o frunk; imagine um dia de chuva, chegar à bagageira carregada, levantar as malas ou as compras e procurar por baixo do piso o cabo para carregar o automóvel; aqui pode ser guardado à frente, separado da carga e imediatamente acessível.

A boa engenharia também se mede pela quantidade de pequenas irritações que consegue evitar.

Leveza como tecnologia

O novo Spring pesa a partir de 1.212 quilogramas; isto num elétrico atual, é quase uma declaração filosófica, pois resulta da combinação de uma bateria dimensionada para a utilização real, arquitetura compacta, controlo rigoroso dos componentes, simplificação do interior e eliminação de elementos decorativos desnecessários.

A Dacia procurou não criar peso desnecessário o que pode explicar um consumo combinado anunciado de 12,7 kWh/100 km que numa bateria LFP de 27,5 kWh úteis pode proporcionar até 250 quilómetros de autonomia WLTP.

O motor certo

O motor elétrico desenvolve 80 cv, mas mesmo sem conseguir emitir um veredicto definitivo sobre o comportamento dinâmico, conforto, insonorização ou travagem, diria que, a base técnica mais moderna, o aumento da largura, a distribuição da bateria sob o piso e os pneus de 15 ou 16” criam condições para estarmos em presença de um automóvel mais estável e maduro.

Interior digital mas não dominado pelo digital

O habitáculo recebeu uma transformação profunda onde as linhas horizontais do painel reforçam visualmente a largura, o quadro de instrumentos digital possui 7” e a versão Journey acrescenta um ecrã tátil central de 10,1” mas manteve as operações essenciais através de comandos físicos.

O Spring quer evitar que a tecnologia complique um automóvel cuja maior virtude é precisamente a simplicidade.

Made in Europe, a preço Dacia

Ao ser construído na Europa reduz a distância entre produção e mercado e aproveita sinergias industriais do Grupo Renault, sendo que em Portugal, o Spring Expression é anunciado a partir de 17.900 euros e o Journey a partir de 19.400 euros, onde o cliente escolhe sobretudo equipamento.

A Dacia já demonstrou no passado que sabe identificar soluções que a indústria inicialmente considera demasiado simples:

• apostou no GPL quando muitos fabricantes o olhavam com desconfiança,
• transformou o Duster numa referência europeia
• fez do Sandero um fenómeno comercial.

Com o Spring, procura repetir essa capacidade de entender o cliente antes de seguir a moda, com um automóvel elétrico credível, robusto, funcional e acessível para jovens condutores, famílias que procuram um segundo automóvel, utilizadores urbanos, empresas de proximidade e consumidores que desejam entrar pela primeira vez na mobilidade elétrica.

O anterior Spring democratizou o acesso ao automóvel elétrico; este quer provar que acessível está na inteligência de saber exatamente quando é suficiente.