Se uma mota elétrica é suficientemente rápida e ágil para fugir da polícia, talvez também seja suficientemente rápida e ágil para a polícia fazer a perseguição. Em Londres, a velha máxima “se não os podes vencer, junta-te a eles” acaba de ganhar uma interpretação bastante literal — e com um último detalhe particularmente irónico: o dinheiro usado para reforçar a frota vem do próprio crime.
A Metropolitan Police decidiu aumentar de cinco para 25 o número de motos elétricas Sur-Ron ao serviço dos agentes, numa resposta à utilização crescente de e-bikes de elevada potência e ciclomotores por criminosos para cometer roubos e escapar através do trânsito da capital britânica.
São mais 20 máquinas para combater um problema no qual este tipo de veículo se tornou parte da vantagem dos criminosos. E a polícia britânica decidiu responder retirando-lhes essa vantagem.
Segundo a Metropolitan Police, as novas motos permitem aos agentes acompanhar suspeitos através de ruas congestionadas, passagens estreitas e outros locais onde os veículos policiais convencionais simplesmente não conseguem chegar.
Pequenas, rápidas e difíceis de acompanhar
Londres enfrenta há vários anos um problema particularmente visível com roubos cometidos por criminosos que utilizam veículos de duas rodas. Os telemóveis são um dos principais alvos: aproximação rápida, roubo e fuga antes de a vítima — ou a polícia — conseguir reagir.
As e-bikes de elevada potência acrescentaram uma nova dimensão ao fenómeno. Leves, silenciosas e capazes de acelerar rapidamente, podem atravessar congestionamentos, mudar de direção em espaços reduzidos e entrar em zonas onde um automóvel não tem qualquer hipótese de acompanhar uma perseguição.
Muitas das máquinas apreendidas pela polícia foram ainda modificadas ilegalmente para aumentar o desempenho.
A solução da Metropolitan Police foi colocar os seus próprios agentes em motos capazes de fazer praticamente o mesmo.
As Sur-Ron conseguem circular pelo trânsito congestionado, entrar em passagens estreitas e, segundo a própria polícia, até enfrentar escadas quando necessário.
“Estas motos permitem aos agentes moverem-se rapidamente através de ruas movimentadas, chegar a áreas onde os veículos tradicionais não conseguem entrar, responder mais depressa ao crime e deter mais suspeitos”, explicou Louise Puddefoot, responsável da Metropolitan Police pela área do policiamento de primeira linha.
A frota existente de apenas cinco unidades passa agora para 25.
E já houve perseguições
A ideia pode parecer saída de um filme, mas as motos já foram colocadas à prova em situações reais.
A 17 de agosto, a polícia recebeu uma denúncia sobre uma e-bike que estava a ser utilizada ilegalmente e sem seguro. O condutor tentou fugir quando percebeu a presença dos agentes.
Desta vez, porém, a polícia tinha uma máquina capaz de acompanhar a aceleração.
Um agente numa Sur-Ron iniciou a perseguição e conseguiu manter-se atrás do suspeito, que acabou por perder o controlo da e-bike e foi detido.
Quatro dias depois, aconteceu novamente.
Um condutor de ciclomotor tentou escapar a uma operação policial, avançando através do trânsito e entrando numa zona residencial. Um agente numa Sur-Ron conseguiu persegui-lo até o suspeito cair da máquina.
Ainda tentou continuar a fuga a pé, mas acabou detido. Segundo a Metropolitan Police, transportava uma quantidade significativa de droga de Classe A, estava proibido de conduzir e utilizava um ciclomotor com matrículas falsas.
A polícia acredita que este tipo de capacidade está a ajudar a retirar uma das principais vantagens utilizadas por alguns criminosos: a possibilidade de desaparecer rapidamente por locais onde uma patrulha convencional não consegue acompanhá-los.
Mais de 2.500 máquinas apreendidas
A ofensiva contra a utilização ilegal destes veículos é bastante maior do que as 20 novas Sur-Ron.
Desde o início de 2026, a Metropolitan Police afirma ter apreendido mais de 2.500 e-bikes e trotinetes elétricas utilizadas ilegalmente.
Entre os problemas encontrados estão veículos modificados com baterias mais potentes, máquinas utilizadas sem seguro e modelos que, pelas suas características, não cumprem os requisitos legais necessários para circular como simples bicicletas elétricas.
A polícia relaciona a estratégia mais ampla de combate a este tipo de criminalidade com uma redução dos roubos na capital.
Nos 12 meses terminados em julho, os chamados crimes de proximidade diminuíram 14% e foram registados menos 13 mil roubos de telemóveis em Londres.
As novas Sur-Ron serão utilizadas em várias zonas da cidade, incluindo Camden, Islington, Hackney, Tower Hamlets, Westminster, Kensington & Chelsea e Hammersmith & Fulham.
Falta apenas saber quem paga a conta
É aqui que a história completa o círculo.
Comprar mais 20 motos, equipá-las e colocá-las ao serviço da polícia custa dinheiro. Mas, neste caso, a expansão da frota não será simplesmente suportada pelos contribuintes britânicos.
Segundo a Metropolitan Police, as novas Sur-Ron foram financiadas através de dinheiro proveniente de bens e lucros confiscados ao crime e posteriormente reinvestido no policiamento. O Ministério do Interior britânico apoiou também a formação necessária para os agentes que vão utilizar as máquinas.
Ou seja, a sequência é difícil de superar: criminosos começaram a utilizar motos elétricas rápidas e ágeis para fugir da polícia; a polícia decidiu comprar motos semelhantes para conseguir persegui-los; e utilizou dinheiro retirado ao crime para pagar a conta.
Se não os podes vencer, junta-te a eles.
E, se possível, deixa-os pagar as motos.






