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James Bond, Fórmula 1 e carros de sonho não chegam: o que se passa com a Aston Martin?

Aston Martin DB12 S
Automonitor

Aston Martin vai abandonar o FTSE 250, índice que reúne as empresas que se seguem às 100 maiores cotadas na Bolsa de Londres, na revisão anunciada esta semana pela FTSE Russell. A alteração entra em vigor a 21 de setembro

Há poucas marcas de automóveis com uma imagem tão poderosa. Aston Martin significa James Bond, desportivos de sonho, modelos que ultrapassam facilmente os 200 mil euros e, nos últimos anos, uma presença mundial reforçada pela Fórmula 1. Mas há uma realidade muito menos glamorosa por detrás do emblema alado: desde que entrou em Bolsa, em 2018, as ações da Aston Martin perderam mais de 99% do seu valor.

A queda acaba de produzir mais um símbolo das dificuldades da histórica marca britânica. A Aston Martin vai abandonar o FTSE 250, índice que reúne as empresas que se seguem às 100 maiores cotadas na Bolsa de Londres, na revisão anunciada esta semana pela FTSE Russell. A alteração entra em vigor a 21 de setembro.

Segundo o ‘L’Automobile Magazine’, as ações acumulam uma queda de cerca de 45% apenas desde o início de 2026. Quando a Aston Martin entrou em Bolsa, em outubro de 2018, a operação avaliava a empresa em aproximadamente 4,3 mil milhões de libras. Oito anos depois, a perda das ações desde a estreia supera os 99%.

E é aqui que nasce a pergunta difícil de explicar a quem olha apenas para os carros: como pode uma marca capaz de vender alguns dos automóveis mais caros e desejados do planeta valer tão pouco aos olhos dos investidores?

Carros caros não significam necessariamente lucros

O problema da Aston Martin não é falta de pedigree nem de produto. A atual gama inclui nomes como Vantage, DB12, Vanquish e DBX, aos quais se junta o supercarro híbrido Valhalla. Também não têm faltado investidores poderosos: Lawrence Stroll assumiu o controlo da empresa em 2020 e entre os acionistas encontram-se o fundo soberano da Arábia Saudita, PIF, e a chinesa Geely, além da relação técnica e acionista com a Mercedes-Benz.

O problema está em transformar tudo isso em dinheiro.

Desde a entrada em Bolsa, segundo o ‘L’Automobile Magazine’, a Aston Martin acumulou cerca de 2 mil milhões de libras em fluxos de caixa livre negativos. Produzir automóveis de luxo em volumes relativamente reduzidos implica distribuir custos elevados de desenvolvimento, engenharia e produção por poucas unidades, deixando a empresa particularmente vulnerável quando as vendas abrandam.

A China tornou-se outro problema, tal como as tarifas aplicadas pelos EUA. Em fevereiro, a empresa anunciou um plano para cortar cerca de 600 postos de trabalho, aproximadamente 20% da força laboral.

E há um paradoxo curioso nos números mais recentes: a Aston Martin está, de facto, a vender mais e a melhorar alguns indicadores — mas continua a perder dinheiro.

No primeiro semestre de 2026, as entregas grossistas aumentaram 21%, para 2.331 automóveis, enquanto as receitas dispararam 38%, para 628,6 milhões de libras. O lucro bruto cresceu 68% e a margem bruta passou de 27,9% para 33,8%.

Mesmo assim, terminou os primeiros seis meses do ano com um prejuízo antes de impostos de 154,2 milhões de libras, pior do que os 140,8 milhões registados no mesmo período de 2025. E a dívida líquida chegou aos 1,545 mil milhões de libras.

Ou seja: os carros estão a gerar mais receitas e melhores margens, mas a estrutura financeira continua a pesar sobre a empresa.

Até o nome Aston Martin entrou na equação

Foi precisamente a necessidade de dinheiro que conduziu a um dos capítulos mais surpreendentes desta história.

Em julho, a Aston Martin garantiu até 550 milhões de libras de novo financiamento junto da HPS, empresa de crédito privado controlada pela BlackRock. A marca apresenta a operação como um reforço importante da sua liquidez e capacidade para executar os futuros planos de produto.

Mas o acordo provocou uma revolta entre alguns dos credores existentes.

Segundo revelou esta semana o ‘Financial Times’, perto de 200 marcas registadas, incluindo o próprio nome “Aston Martin” e o célebre logótipo das asas, foram transferidas para uma nova subsidiária e usadas como garantia do financiamento. Esses ativos deixaram assim de estar ao alcance dos credores anteriores, que têm mais de 1,3 mil milhões de libras a receber e avançaram com procedimentos judiciais para obter documentação relacionada com a operação.

A situação é suficientemente tensa para que as obrigações da empresa também tenham sofrido. O ‘L’Automobile Magazine’ refere que, no início de agosto, um título de dívida com vencimento em 2029 era negociado abaixo de 60% do respetivo valor nominal, depois de valer 82% em junho — sinal da crescente perceção de risco entre investidores.

Então, a Aston Martin está em risco de desaparecer?

Não é isso que os dados disponíveis permitem concluir.

A saída do FTSE 250 é um golpe simbólico e mostra até onde caiu a avaliação da empresa, mas não significa que a Aston Martin esteja à beira da insolvência. O financiamento conseguido neste verão deu-lhe sobretudo algo muito importante: tempo.

Segundo a CreditSights, citada pelo ‘L’Automobile Magazine’, os 550 milhões de libras agora obtidos poderão evitar uma nova necessidade de financiamento até 2028.

O próprio CEO, Adrian Hallmark, defendeu na apresentação dos resultados semestrais que a transformação está a produzir resultados. A empresa aponta para um segundo semestre mais forte, beneficiando da melhoria da gama, do programa de redução de custos e das entregas de modelos especiais como o Valhalla.

É precisamente aí que está o teste.

A Aston Martin já provou durante mais de um século que consegue fabricar automóveis capazes de fazer sonhar. Tem uma das marcas mais reconhecidas da indústria, clientes dispostos a pagar centenas de milhares de euros pelos seus carros, James Bond, Fórmula 1 e alguns dos modelos mais exclusivos do mercado.

O que ainda precisa de provar aos investidores é algo aparentemente muito mais simples: que consegue ganhar dinheiro de forma sustentável a fazer tudo isso.