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Sem radar nem câmaras: GoPro quer usar o som para avisar motociclistas dos carros no ângulo morto

Automonitor

Um carro aproxima-se pela retaguarda e permanece naquele ponto em que o motociclista não consegue vê-lo nos espelhos. Nos automóveis modernos, radares e câmaras podem detetá-lo. Numa mota, a GoPro está a estudar uma solução bastante diferente

Um carro aproxima-se pela retaguarda e permanece naquele ponto em que o motociclista não consegue vê-lo nos espelhos. Nos automóveis modernos, radares e câmaras podem detetá-lo. Numa mota, a GoPro está a estudar uma solução bastante diferente: fazer com que seja o próprio capacete a “ouvir” o perigo.

Uma patente da GoPro publicada nos EUA a 20 de agosto descreve um sistema de deteção de ângulo morto baseado numa matriz de microfones instalada no capacete, processamento digital de som e machine learning. O objetivo é determinar se existe um veículo ou outro objeto numa zona que o motociclista não consegue ver e emitir um alerta em tempo real.

A tecnologia surge numa altura em que a GoPro está efetivamente a preparar a entrada nos capacetes para motociclistas. A empresa adquiriu a especialista australiana Forcite em 2024 e está atualmente a desenvolver, em conjunto com a italiana AGV, um capacete equipado com tecnologia própria. A GoPro confirmou em agosto que o projeto continua dentro do calendário previsto e que o capacete já cumpriu a norma de segurança ECE 22.06.

O capacete aprende a “voz” da própria mota

É aqui que a ideia se torna particularmente interessante.

Segundo a patente, os microfones podem estar distribuídos em torno do capacete e recolher continuamente os sons enquanto a mota circula. Um modelo de machine learning é treinado para reconhecer as características específicas do som do motor da própria mota em diferentes regimes e condições ambientais.

O sistema utiliza depois processamento digital para distinguir o som direto do motor de potenciais sinais refletidos. Analisando esses reflexos e os respetivos atrasos, procura calcular a distância e a direção de objetos próximos.

Na prática, funciona conceptualmente de forma semelhante à utilização de ecos para perceber o que existe em redor, embora recorrendo ao ruído já produzido pela mota e a processamento computacional.

A patente prevê ainda filtragem adaptativa para eliminar outros ruídos e distinguir as características sonoras relevantes num ambiente que, numa estrada, pode ser particularmente complexo.

E se houver um carro no ângulo morto?

Quando o sistema determina que existe um objeto numa zona de ângulo morto, o capacete pode avisar o motociclista.

A documentação mostra LEDs integrados na zona frontal capazes de transmitir sinais visuais através de uma área refletora no visor. Uma patente já concedida à GoPro descreve precisamente um sistema de comunicação visual integrado no capacete que pode apresentar indicações de navegação e outros alertas sem obrigar o condutor a desviar os olhos da estrada.

A ‘Australian Motorcycle News’, que analisou as novas patentes, refere também uma câmara integrada na queixeira e um conjunto de LEDs multicoloridos destinados a transmitir informação ao motociclista.

Ou seja, o objetivo parece ser transformar o capacete num equipamento bastante mais ativo do que uma simples proteção para a cabeça.

Porque não usar simplesmente radar?

A própria patente responde à pergunta.

A GoPro argumenta que os sistemas tradicionais de monitorização de ângulo morto baseados em radar podem ser caros, complexos de instalar e difíceis de adaptar à enorme diversidade de modelos de motos existentes.

Ao concentrar os sensores no capacete, a solução poderia teoricamente acompanhar o motociclista independentemente da mota que estivesse a conduzir.

Microfones são também componentes muito mais simples e baratos do que instalar radares dedicados numa moto.

É precisamente esta independência do veículo que poderá constituir uma das principais vantagens da tecnologia caso consiga funcionar de forma fiável em condições reais.

De patente a capacete ainda vai uma distância

Há, contudo, uma distinção importante.

A publicação de uma patente não significa que esta tecnologia vá necessariamente integrar o primeiro capacete desenvolvido pela GoPro e pela AGV. As empresas patenteiam frequentemente soluções que são posteriormente modificadas ou que nunca chegam a produtos comerciais.

O que sabemos oficialmente é que o projeto GoPro/AGV existe, continua em desenvolvimento e já alcançou a certificação ECE 22.06. A GoPro ainda não revelou as especificações finais nem confirmou quais destas tecnologias estarão presentes no produto que chegar ao mercado.

As patentes mostram, porém, até onde poderá chegar a ambição da empresa: depois de passar décadas a colocar câmaras nos capacetes dos motociclistas, a GoPro está agora a estudar uma forma de fazer com que o próprio capacete perceba aquilo que o motociclista não consegue ver.