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Mayor de Londres foi condenado por um Nissan Micra que diz não ser seu. E as cartas foram parar a um restaurante de Gordon Ramsay

Automonitor

Khan foi condenado em agosto por manter um automóvel sem o imposto de circulação em dia e recebeu uma conta total de 340,84 libras — cerca de 395 euros à taxa atual

Sadiq Khan é mayor de Londres, preside à Transport for London e tornou-se uma das figuras políticas mais associadas às polémicas restrições automóveis da capital britânica.

Mas foi um Nissan Micra azul, com 24 anos, que acabou por lhe proporcionar uma das histórias mais improváveis da carreira.

Khan foi condenado em agosto por manter um automóvel sem o imposto de circulação em dia e recebeu uma conta total de 340,84 libras — cerca de 395 euros à taxa atual.

Havia apenas um problema.

Segundo a Câmara de Londres, o Nissan Micra não pertence a Sadiq Khan. Nunca pertenceu à Transport for London. E o mayor garante que foi vítima de uma fraude.

A história torna-se ainda mais estranha quando se percebe onde foram parar as cartas que poderiam ter evitado a condenação.

Em vez dos escritórios da Transport for London, a correspondência enviada pela Driver and Vehicle Licensing Agency (DVLA), entidade responsável pelo registo dos veículos no Reino Unido, foi enviada para um restaurante de Gordon Ramsay, no leste de Londres.

Um Micra de 2002 e um nome conhecido

O carro no centro da história é um Nissan Micra azul, matriculado pela primeira vez em 2002.

O imposto anual terminou em setembro de 2025 e, em janeiro deste ano, o veículo foi detetado sem tributação válida.

Nos registos oficiais, porém, apareciam o nome e a data de nascimento de Sadiq Khan como responsável pelo automóvel.

A DVLA enviou então uma carta a pedir confirmação da identidade do proprietário. Não houve resposta e o processo avançou.

O caso acabou perante um magistrado em Herefordshire, através do chamado Single Justice Procedure, um mecanismo destinado a resolver infrações menores de forma rápida, sem necessidade de uma audiência pública tradicional.

Khan não apresentou qualquer declaração porque, segundo a sua equipa, nunca teve conhecimento do processo.

A 18 de agosto foi condenado na ausência e recebeu uma multa de 220 libras, acrescida de 85 libras de custas e de 35,84 libras correspondentes ao imposto em falta.

Total: 340,84 libras.

As cartas foram parar ao número errado

É aqui que Gordon Ramsay entra na história.

Os escritórios da Transport for London ficam no número 5 da Endeavour Square, em Stratford.

A DVLA enviou, porém, a correspondência para o número 9.

Nesse edifício funciona o Bread Street Kitchen, Bar & Rooftop, restaurante associado ao famoso chef britânico Gordon Ramsay.

Até a notificação da condenação acabou enviada para essa morada.

O documento dava ao mayor 28 dias para pagar e avisava que o incumprimento poderia resultar em multas adicionais, intervenção de agentes de execução ou até numa ordem para o levar a tribunal.

Tudo por causa de um Nissan Micra que City Hall garante que ele nunca possuiu.

E a polémica da ULEZ pode estar por trás?

A equipa de Khan acredita que sim.

O mayor tornou-se alvo de fortes protestos depois de alargar a Ultra Low Emission Zone — ULEZ — a toda a Grande Londres.

A zona obriga veículos mais poluentes a cumprir determinados padrões de emissões ou pagar uma taxa diária de 12,50 libras para circularem.

Durante os protestos, alguns automobilistas chegaram a anunciar que iriam registar os seus veículos em nome de Sadiq Khan, numa tentativa de fazer com que fosse ele a receber as cobranças associadas à ULEZ.

A Câmara de Londres diz que não é a primeira vez que alguém utiliza falsamente os dados do mayor para o associar a veículos que não lhe pertencem.

“É uma fraude e é um crime”, afirmou um porta-voz de Khan, acrescentando que a DVLA tem conhecimento do problema.

Condenado num sistema onde os casos podem durar segundos

O episódio trouxe também novamente para o centro das atenções o sistema utilizado para condenar Khan.

O Single Justice Procedure foi introduzido em 2015 para resolver infrações menores de forma mais rápida e barata. Um único magistrado pode analisar os processos em privado, sem audiência pública e, em muitos casos, sem a presença do acusado.

O sistema já vinha a ser alvo de críticas.

Em 2024, cerca de 59 mil condenações relacionadas com viagens de comboio sem bilhete adequado foram anuladas depois de terem sido consideradas ilegais. Também foram identificados casos de menores e de pessoas doentes ou incapacitadas condenadas através deste mecanismo.

No caso de Khan, o processo acabou por seguir automaticamente porque ninguém respondeu às cartas.

Só que as cartas estavam no edifício errado.

DVLA retirou o processo

A história teve entretanto uma reviravolta.

Depois de o caso chegar à imprensa, a DVLA reviu o processo e anunciou na quarta-feira à noite que retirou a acusação, estando também a investigar como o Nissan Micra ficou associado aos dados de Sadiq Khan.

A retirada não apaga automaticamente a condenação que já foi proferida.

O processo deverá voltar ao tribunal para que essa decisão seja formalmente anulada. Segundo o Guardian, estava prevista uma audiência para quinta-feira destinada precisamente a abrir caminho para eliminar a condenação.

Se isso acontecer, ficará uma história difícil de inventar: um dos políticos mais poderosos de Londres condenado por um Nissan Micra de 2002 que garante nunca ter possuído, depois de os documentos oficiais terem ido parar ao restaurante errado.

E com Gordon Ramsay, sem querer, no meio de tudo.