Os dois euros por litro voltaram a entrar nas contas dos especialistas do setor energético. A escalada das tensões no Médio Oriente está a agitar os mercados internacionais de petróleo e gasóleo — e os primeiros sinais dessa pressão começam já a sentir-se nas bombas de combustível.
Os dados mais recentes apontam para novos aumentos expressivos. Com base no fecho das cotações desta segunda-feira, se os preços fossem atualizados hoje, o gasóleo subiria mais 15 cêntimos por litro e a gasolina 95 cerca de 11 cêntimos, segundo informação recolhida junto de fontes do setor.
A confirmar-se este cenário, os aumentos somar-se-iam às subidas já registadas no início da semana. Na segunda-feira, o preço do gasóleo aumentou 19 cêntimos por litro, já tendo em conta a redução do Imposto sobre Produtos Petrolíferos (ISP). Se a evolução das cotações se mantiver, a subida acumulada poderá atingir os 34 cêntimos por litro.
Também na gasolina a tendência é semelhante, embora com menor intensidade. O aumento registado no início da semana foi de 7 cêntimos por litro. Caso se confirme agora a nova subida estimada de 11 cêntimos, o agravamento acumulado poderá chegar aos 18 cêntimos.
Perante esta escalada dos combustíveis, o Governo decidiu reduzir o ISP em 3,55 cêntimos por litro, numa tentativa de travar parte da subida. Ainda assim, apesar deste ajustamento fiscal, a evolução das cotações internacionais continua a pressionar o preço final pago pelos consumidores.
É precisamente esta dinâmica — entre a subida rápida nos mercados internacionais e a transmissão gradual para as bombas — que está a levar especialistas a alertar para a possibilidade de novos aumentos nas próximas semanas.
A explicação dos mercados
Para os analistas financeiros, a subida que já se observa nas bombas pode ser apenas o início do ajustamento. “Do ponto de vista de mercado, o que estamos a assistir é a um choque típico de energia com transmissão gradual do mercado grossista para o consumidor final”, explica Nuno Mello, analista da XTB, em declarações à ‘Executive Digest’.
Desde o início da escalada no Médio Oriente, os futuros do gasóleo na Europa já subiram mais de 50%, mas esse movimento ainda não foi totalmente refletido no preço final. “Os postos de abastecimento estão a vender combustível comprado anteriormente e as cadeias de distribuição trabalham com stocks e contratos que retardam o ajustamento.”
Este atraso explica porque é que, numa fase inicial de crise energética, as cotações internacionais sobem muito mais depressa do que os preços pagos pelos consumidores. “Esse diferencial sugere que o ajustamento ainda não terminou e que os preços poderão continuar a subir nas próximas semanas, tanto em Espanha como em Portugal.”
Gasóleo mais vulnerável que a gasolina
Outro fator que agrava a situação é o facto de o gasóleo estar a subir mais rapidamente do que o próprio petróleo. A explicação está no chamado ‘crack spread’, a diferença entre o preço do crude e o valor dos combustíveis refinados.
“A Europa é estruturalmente deficitária em gasóleo e depende de importações, o que faz com que qualquer risco geopolítico nas rotas energéticas tenha um impacto mais forte neste combustível do que na gasolina”, explica Nuno Mello.
Se o atual nível de preços no mercado grossista se mantiver, o analista admite que o ajuste poderá prolongar-se durante várias semanas. “Não é de excluir que o gasóleo se aproxime da fasquia dos dois euros por litro ainda durante este mês.”
A visão dos consumidores
Do lado dos consumidores, a leitura é mais cautelosa, mas também aponta para um cenário de pressão nos preços. Pedro Silva, especialista em combustíveis da DECO PROteste, reconhece que o mercado vive um momento de grande instabilidade. “O preço do petróleo está bastante instável, mas a tendência tem sido de subida e já ultrapassou os 100 dólares por barril”, explica em declarações exclusivas à ‘Executive Digest’.
Segundo o especialista, esta pressão resulta sobretudo da situação no Médio Oriente e da importância estratégica da região para o abastecimento energético global. “O bloqueio do Estreito de Ormuz e as perturbações na produção de petróleo criam uma enorme instabilidade e pressão altista nos preços.”
Dependência europeia pesa no gasóleo
A situação é particularmente sensível no caso do gasóleo, devido à dependência europeia deste combustível. Durante anos, a Europa compensou a falta de capacidade de refinação interna com importações da Rússia. Após o início da guerra na Ucrânia e a imposição de sanções, essa dependência teve de ser substituída por outras origens. O problema é que muitas dessas novas rotas energéticas passam precisamente por regiões atualmente afetadas pela crise.
“A Europa é deficitária em gasóleo e acabou por procurar novas fontes de abastecimento em regiões que hoje também enfrentam instabilidade geopolítica”, explica Pedro Silva. Este fator ajuda a explicar porque é que o gasóleo tem registado subidas mais acentuadas do que a gasolina.
Dois euros ainda não são inevitáveis
Apesar dos sinais de subida, o especialista da DECO PROteste sublinha que ainda é cedo para garantir que o preço médio chegará aos dois euros. “Não sabemos se o preço atingirá os dois euros. Isso seria uma bola de cristal. Mas os sinais apontam para que exista um agravamento além da subida que já vimos esta semana.”
O impacto final dependerá também de eventuais medidas do Governo para mitigar a subida. Entre as opções está a redução do Imposto sobre Produtos Petrolíferos (ISP), um mecanismo que já foi utilizado em crises anteriores para neutralizar o aumento da receita de IVA gerado pela subida dos combustíveis.
Pedro Silva defende, no entanto, que seria importante criar um mecanismo automático que tornasse previsível a intervenção do Estado. “Gostaríamos de ver um mecanismo automático que, ao atingir determinados patamares de preço, desencadeasse uma revisão do ISP para garantir neutralidade fiscal.”
Segundo o especialista, essa previsibilidade permitiria aos consumidores e às empresas antecipar melhor o impacto das subidas. Ao mesmo tempo, ajudaria a proteger setores fortemente dependentes do combustível, como o transporte de mercadorias, evitando um efeito dominó na economia.
Além da redução do ISP, a DECO PROteste aponta também para outras possíveis revisões fiscais. Atualmente, cerca de 13% do litro de combustível corresponde a biocombustíveis, uma incorporação obrigatória que tem custos adicionais. “O imposto sobre produtos petrolíferos não deveria incidir sobre essa componente, porque não é um produto derivado do petróleo”, defende Pedro Silva.
Os dois especialistas consultados pela ‘Executive Digest’ estão de acordo neste ponto: a evolução dos combustíveis dependerá sobretudo do que acontecer no Médio Oriente. Se o conflito aliviar rapidamente, os preços poderão estabilizar ou até recuar. Mas se a instabilidade se prolongar e afetar as rotas energéticas globais, o impacto poderá continuar a sentir-se nas bombas. E, nesse cenário, o número que começa a preocupar consumidores e analistas — dois euros por litro de preço médio — poderá deixar de ser apenas uma hipótese teórica.






