<br><br><div align="center"><!-- Revive Adserver Asynchronous JS Tag - Generated with Revive Adserver v5.5.0 -->
<ins data-revive-zoneid="25" data-revive-id="6815d0835407c893664ca86cfa7b90d8"></ins>
<script async src="//com.multipublicacoes.pt/ads/www/delivery/asyncjs.php"></script></div>
Partilhar

Vendeu a própria casa para construir um supercarro capaz de enfrentar Ferrari e Lamborghini. Só conseguiu fazer um

Francisco Laranjeira

Há países que associamos imediatamente à construção de supercarros. Itália tem Ferrari, Lamborghini e Pagani. O Reino Unido tem McLaren. A Alemanha tem Porsche. A Nova Zelândia dificilmente apareceria nessa lista

Jock Freemantle tinha um sonho pouco razoável: provar que a Nova Zelândia conseguia construir um supercarro capaz de enfrentar os grandes nomes europeus. Investiu anos, milhões e chegou a vender a própria casa para financiar o projeto. O resultado tinha um V8 de 7,0 litros, 600 cv, pesava menos de uma tonelada e deveria dar origem a apenas 20 exemplares. Mas quase tudo ficou pelo caminho. Hoje existe apenas um Hulme CanAm completo e funcional.

Há países que associamos imediatamente à construção de supercarros. Itália tem Ferrari, Lamborghini e Pagani. O Reino Unido tem McLaren. A Alemanha tem Porsche.

A Nova Zelândia dificilmente apareceria nessa lista.

Mas, no início deste século, um empresário e engenheiro chamado Jock Freemantle decidiu que isso podia mudar.

Em 2002, procurou Tony Parker, professor e designer industrial, com uma ideia extraordinariamente ambiciosa: desenvolver de raiz um supercarro neozelandês capaz de competir internacionalmente.

Não pretendia simplesmente construir um automóvel rápido para uso próprio. Freemantle queria demonstrar que o país de Bruce McLaren, Denny Hulme e Chris Amon tinha também engenheiros, designers e fabricantes capazes de criar um verdadeiro supercarro.

Nascia assim o projeto Hulme.

O nome vinha de um campeão do mundo de Fórmula 1

Nem sequer o nome foi escolhido por acaso.

Denny Hulme continua a ser o único neozelandês campeão mundial de Fórmula 1, título conquistado em 1967 ao volante de um Brabham.

Mais tarde correu ao lado do compatriota Bruce McLaren e tornou-se uma das figuras dominantes da Can-Am, vencendo o campeonato em 1968 e 1970.

McLaren e Hulme foram tão dominadores que aquela época ficou conhecida como o “Bruce and Denny Show”.

Greeta Hulme, viúva do piloto, autorizou a utilização do nome no novo supercarro.

E as referências foram muito além do emblema.

O protótipo funcional recebeu a alcunha Bear 1, numa homenagem a “The Bear”, como Denny Hulme era conhecido, e a própria escolha de um enorme V8 Chevrolet recuperava o espírito dos McLaren com que o piloto tinha dominado a Can-Am.

Primeiro teria tejadilho e motor BMW

O carro que acabou por nascer, porém, era bastante diferente da ideia original.

O primeiro conceito chamava-se Hulme F1 Champion e tinha cockpit fechado. As propostas iniciais previam ainda a utilização de um V8 BMW e uma carroçaria mais próxima de um GT convencional.

À medida que o desenvolvimento avançou, Freemantle e a equipa foram tornando o projeto mais radical.

O tejadilho desapareceu.

O motor BMW também.

No seu lugar surgiu um Chevrolet LS7 V8 atmosférico de 7,0 litros, montado longitudinalmente atrás dos ocupantes.

O resultado passou a chamar-se Hulme CanAm.

E discreto não era.

600 cv para menos de 1.000 quilos

O V8 produzia cerca de 600 cv e 600 Nm, enviados exclusivamente às rodas traseiras através de uma caixa CIMA de seis velocidades e de um diferencial autoblocante.

O peso anunciado rondava apenas 980 quilos.

Era uma relação peso/potência digna de um automóvel de competição.

Os objetivos de desenvolvimento apontavam para uma aceleração dos 0 aos 100 km/h em menos de 3,5 segundos e uma velocidade máxima superior a 300 km/h.

Convém, contudo, distinguir as promessas daquilo que efetivamente foi demonstrado.

Esses valores eram metas para o desenvolvimento e para os futuros carros de produção. Relatos da época indicam que o Bear 1 terá atingido cerca de 257 km/h em circuito.

O objetivo de Freemantle também não era criar apenas números impressionantes.

Queria proporcionar ao condutor uma experiência próxima da de um Fórmula 1, mas num automóvel que pudesse circular na estrada.

Por isso, os ocupantes ficavam sentados muito perto do chão, praticamente envolvidos pela carroçaria. A suspensão utilizava triângulos sobrepostos e amortecedores interiores acionados por pushrods, enquanto a travagem recorria a componentes AP Racing.

Poucas concessões eram feitas ao conforto ou à eletrónica.

Era deliberadamente um supercarro analógico.

Até Chris Amon o conduziu

O Bear 1 fez a sua estreia pública no encontro da A1 Grand Prix em Taupō, em janeiro de 2009.

E ao volante estava outro nome histórico do automobilismo da Nova Zelândia: Chris Amon.

O antigo piloto de Fórmula 1 levou o protótipo para a pista e elogiou o comportamento e as prestações do carro.

Era difícil imaginar uma apresentação mais simbólica.

Um supercarro concebido e construído na Nova Zelândia, batizado em homenagem a Denny Hulme e apresentado ao público por Chris Amon.

O sonho começava a parecer suficientemente real para dar o passo seguinte.

Produzi-lo.

Iam ser feitos apenas 20

Em 2010, a Hulme Supercars abriu caminho para uma série extremamente limitada.

O plano previa apenas 20 Hulme CanAm, com um preço de 295 mil libras, antes de impostos.

Nem sequer seria uma compra convencional.

Os potenciais clientes poderiam entregar um depósito de 10 mil libras e teriam direito a conhecer e experimentar o carro antes de confirmar a encomenda.

Quem avançasse teria ainda uma experiência particularmente invulgar: uma viagem à Nova Zelândia para fazer os ajustes finais e familiarizar-se com o seu próprio automóvel.

Cada carro seria construído praticamente à medida.

A Hulme estava a tentar colocar-se no território de fabricantes artesanais como a Pagani, e não no das grandes linhas de produção.

Só havia um problema.

Construir um protótipo e criar uma fabricante de automóveis são coisas muito diferentes.

O dinheiro começou a faltar

Desenvolver, homologar e produzir um supercarro de estrada exigia muito mais capital do que aquele que o projeto tinha conseguido reunir.

Freemantle procurou investidores e tentou obter financiamento para avançar para a produção.

Em 2010, a empresa chegou a tentar captar capital através de uma oferta de ações. O objetivo mínimo necessário para colocar a produção em marcha não foi alcançado.

E o fundador já tinha levado o compromisso pessoal muito longe.

Registos históricos do projeto indicam que Freemantle chegou a vender a própria casa para ajudar a financiar o desenvolvimento do Hulme.

O que começara como uma ideia empresarial tinha-se transformado numa obsessão pessoal.

Mas o dinheiro necessário para passar do protótipo à produção nunca apareceu.

Os 20 carros não foram construídos.

O Bear 1 ficou sozinho.

Nem o cancro o fez abandonar o projeto

Freemantle continuou durante anos a tentar encontrar uma forma de concretizar o sonho.

Mesmo depois de lhe ter sido diagnosticado cancro, em 2013, continuou a falar sobre possibilidades de desenvolvimento do Hulme.

Ainda em 2016 discutia formas de fazer avançar o projeto.

Morreu a 23 de dezembro desse ano.

Com ele desapareceu definitivamente a possibilidade de concretizar o projeto tal como tinha sido imaginado.

Mas não desapareceu o carro.

Existe apenas um

O primeiro conceito Hulme F1 permaneceu precisamente isso: um conceito.

Os 20 CanAm destinados aos clientes nunca chegaram.

E o Bear 1 tornou-se algo ainda mais raro do que Freemantle alguma vez tinha planeado.

É o único Hulme CanAm completo e funcional alguma vez construído.

Atualmente, o carro está temporariamente exposto no Southward Car Museum, na Nova Zelândia, emprestado por uma coleção privada.

Mais de duas décadas depois de Jock Freemantle ter decidido que a Nova Zelândia podia construir um supercarro capaz de enfrentar os melhores do mundo, o resultado do sonho continua a existir.

Não criou uma nova Ferrari.

Não deu origem à indústria de pequenos fabricantes que Freemantle imaginava para o seu país.

Nem sequer chegou aos 20 carros prometidos.