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UE complica a vida a si própria: o estranho caso das tarifas aos carros chineses

Automonitor com Lusa

Carros elétricos com extensor de autonomia, que deveriam ser considerados uma solução híbrida eficiente, ficam sujeitos às mesmas tarifas que os veículos 100% elétricos, enquanto os híbridos plug-in escapam ilesos

A tentativa da União Europeia de penalizar veículos elétricos chineses está a criar um problema regulatório próprio, tornando o mercado europeu confuso e incoerente. Os carros elétricos com extensor de autonomia, que deveriam ser considerados uma solução híbrida eficiente, ficam sujeitos às mesmas tarifas que os veículos 100% elétricos, enquanto os híbridos plug-in escapam ilesos.

Tarifas que confundem fabricantes e consumidores

Segundo Martijn ten Brink, chefe da Mazda na Europa, a lei é clara: todos os veículos produzidos na China e vendidos na Europa podem enfrentar sobretaxas alfandegárias. As taxas variam entre 7,8% e 35,3%, dependendo do fabricante e da cooperação com a investigação europeia sobre subsídios estatais chineses. Para a Mazda, isso significa que o berlina elétrica 6E com extensor de autonomia não pode ser vendido em França, porque os custos de entrada no mercado seriam proibitivos, relatou o site especializado ‘L’Automobile Magazine’.

O absurdo reside na distinção técnica da UE: um híbrido plug-in (PHEV) pode acionar as rodas com o motor a combustão e evita tarifas, enquanto um veículo elétrico com extensor de autonomia, que funciona de forma praticamente idêntica, é taxado como elétrico e paga impostos adicionais.

Uma política contra si mesma

A secção do regulamento europeu que entrou em vigor no outono de 2024 define veículos elétricos a bateria (VEB) como aqueles alimentados exclusivamente por motores elétricos, mesmo que tenham um pequeno motor a combustão para aumentar a autonomia. Em contrapartida, os híbridos plug-in, nos quais o motor de combustão aciona as rodas, não são afetados pelas sobretaxas.

O resultado é uma situação paradoxal: carros essencialmente iguais, em termos de emissões e desempenho, são tratados de forma diferente por uma diferença mínima na arquitetura do motor. Fabricantes chineses, como a BYD, aproveitaram a lacuna, tornando-se líderes de mercado em híbridos plug-in na Europa, enquanto outras marcas enfrentam tarifas proibitivas.

Consequências para a indústria e para o consumidor

Para a Mazda, a imposição destas taxas sobre o 6E com extensor de autonomia tornou a operação economicamente inviável. A marca preferiu não lançar o modelo na Europa, embora tenha sido desenvolvido em parceria com a Changan, outra fabricante chinesa. A política europeia, pensada para proteger a indústria local e punir subsídios injustos, acabou por penalizar fabricantes e limitar escolhas para o consumidor.

Especialistas destacam que, para o clima e para a mobilidade elétrica, não há diferença significativa entre um híbrido plug-in e um elétrico com extensor de autonomia. Mas na Europa, basta um detalhe regulatório para criar barreiras injustificadas e favorecer uma solução que nada tem de superior.

A incoerência da UE em números

As sobretaxas impostas aos fabricantes chineses podem chegar a 45,3% quando somadas às taxas alfandegárias padrão. Entre os mais afetados estão o grupo SAIC (35,3%) e o grupo Geely (18,8%), enquanto marcas que se enquadram em híbridos plug-in escapam totalmente das taxas. O resultado é uma situação paradoxal: a legislação europeia, ao tentar proteger o mercado, criou obstáculos que parecem mais políticos do que técnicos.