A decisão da Administração Trump de revogar, no passado dia 12, a chamada “constatação de perigo” de 2009 — que reconhecia formalmente que seis gases com efeito de estufa, incluindo dióxido de carbono e metano, representam um risco para a saúde pública — marca um ponto de viragem na política climática americana. De acordo com o ‘The Conversation’, a medida não é apenas politicamente significativa: ignora um vasto corpo de evidência científica sobre os impactos das alterações climáticas na saúde humana.
A constatação agora anulada sustentava várias regulações ambientais nos EUA. Ao descartá-la, a administração argumenta que os riscos para a saúde foram sobrestimados. No entanto, médicos, epidemiologistas e especialistas em saúde ambiental defendem que as provas acumuladas ao longo dos últimos anos tornam esses riscos inegáveis.
Calor extremo e mortalidade crescente
O aumento dos gases com efeito de estufa funciona como um “cobertor” atmosférico que retém calor junto à superfície terrestre. O resultado é uma maior frequência e intensidade de ondas de calor. A exposição prolongada a temperaturas elevadas pode ser fatal, sobretudo para idosos, pessoas com doenças cardíacas, pulmonares ou renais, e trabalhadores ao ar livre.
Globalmente, as mortes associadas ao calor aumentaram 23% entre as décadas de 1990 e 2010, ultrapassando meio milhão por ano. Nos EUA, a onda de calor que atingiu o noroeste do Pacífico em 2021 causou centenas de vítimas. Cientistas preveem que cidades como Miami, Houston, Phoenix ou Las Vegas enfrentarão cada vez mais dias com temperaturas capazes de ameaçar a sobrevivência humana.
Eventos extremos e impactos diretos
O ar mais quente retém mais humidade, intensificando tempestades e inundações. Oceanos mais quentes alimentam furacões mais poderosos. As consequências incluem afogamentos, ferimentos, contaminação da água e problemas psicológicos após desastres naturais.
Secas mais severas comprometem o abastecimento alimentar e aumentam doenças respiratórias associadas à poeira. Florestas mais secas tornam-se mais vulneráveis a incêndios florestais, agravando ainda mais os riscos.
Poluição do ar e doenças respiratórias
O fumo dos incêndios florestais contém partículas finas (PM2,5) capazes de penetrar profundamente nos pulmões, além de substâncias tóxicas libertadas pela combustão de edifícios e veículos. A exposição está associada a enfartes, acidentes vasculares cerebrais, crises de asma e cancro do pulmão.
Além disso, temperaturas mais elevadas favorecem a formação de ozono troposférico, um irritante cardiovascular e respiratório. A queima de combustíveis fósseis continua a ser uma das principais fontes de poluentes atmosféricos nocivos.
Doenças infecciosas em expansão
Insetos transmissores de doenças, como mosquitos, expandem o seu alcance com o aumento das temperaturas. Casos de dengue e chikungunya já foram registados em vários estados americanos. O aquecimento global também favorece doenças transmitidas por água e alimentos, como infeções bacterianas e cólera.
No sudoeste dos EUA, a seca está associada ao aumento da febre do vale, uma infeção fúngica respiratória.
Saúde mental e vulnerabilidade social
As alterações climáticas afetam também a saúde mental, com aumento de ansiedade, depressão e stress pós-traumático após desastres. Estudos apontam ainda para uma correlação entre temperaturas elevadas e aumento de violência e suicídios.
Crianças, idosos, grávidas e pessoas com doenças crónicas estão entre os grupos mais vulneráveis. Comunidades de baixos rendimentos enfrentam riscos acrescidos devido à menor capacidade de adaptação e recuperação.
Ciência versus política
O ‘The Conversation’ sublinha que as evidências que ligam alterações climáticas e saúde se multiplicaram desde 2009. Ao mesmo tempo, a revogação da constatação de perigo integra um conjunto mais amplo de decisões, como o enfraquecimento de limites de emissões automóveis e o reforço do apoio à indústria dos combustíveis fósseis.
Os especialistas argumentam que combater as alterações climáticas traz benefícios diretos para a saúde: ar mais limpo reduz doenças cardíacas e pulmonares; cidades mais adaptadas incentivam atividade física; sistemas energéticos limpos diminuem custos sanitários.
Para os autores, ignorar a ciência não elimina o risco — apenas adia as consequências. E, segundo defendem, proteger o clima é também proteger a saúde pública.






