Os fabricantes chineses continuam a conquistar terreno no mercado automóvel europeu e cada novo BYD, MG ou Jaecoo vendido significa, potencialmente, um cliente que deixou de escolher uma marca já estabelecida. Mas quem está realmente a perder mais compradores para esta nova concorrência?
A resposta pode surpreender. Apesar do peso de fabricantes como Volkswagen, Renault, Peugeot ou Fiat no continente, não são necessariamente as marcas europeias que estão a sentir mais intensamente a transferência de clientes para os construtores chineses.
Segundo dados da ‘Automobilwoche’ citados pelo ‘L’Automobile Magazine’, Hyundai e Kia estarão entre as marcas mais afetadas na Alemanha quando a análise é feita tendo em conta o peso dessas perdas nas vendas de cada fabricante.
Os chineses parecem, assim, estar a desafiar particularmente os fabricantes que há algumas décadas fizeram um percurso semelhante ao que eles próprios tentam agora repetir na Europa.
Volkswagen perde muitos clientes em termos absolutos
Há, contudo, uma distinção importante.
Quando se olha apenas para o número de compradores perdidos, o Grupo Volkswagen será aquele que mais clientes terá cedido às marcas chinesas nos últimos meses.
De acordo com os dados citados pela publicação francesa, cerca de 10% dos clientes da MG e da BYD em 2026 terão vindo da Volkswagen.
O peso do gigante alemão no mercado ajuda, porém, a explicar este resultado em números absolutos.
Quando as perdas são comparadas com o volume total de vendas de cada fabricante, o retrato muda.
Hyundai e Kia são as mais pressionadas
É nessa análise proporcional que Hyundai e Kia surgem particularmente expostas à ofensiva chinesa.
O ‘L’Automobile Magazine’ encontra até um paralelismo histórico: os fabricantes chineses de hoje podem estar a desempenhar um papel semelhante ao ocupado pelas marcas coreanas na Europa há cerca de três décadas.
Hyundai e Kia chegaram ao mercado europeu como alternativas a fabricantes já estabelecidos e foram progressivamente conquistando consumidores, melhorando os automóveis, aumentando a oferta e construindo uma presença cada vez mais sólida.
Agora enfrentam concorrentes que procuram seguir uma estratégia semelhante, mas com uma forte aposta em veículos elétricos e híbridos e numa relação entre preço e equipamento particularmente agressiva.
Preço e equipamento são armas dos chineses
Segundo o ‘L’Automobile Magazine’, uma das principais vantagens competitivas das marcas chinesas está precisamente na quantidade de equipamento oferecida pelo preço pedido.
Alguns fabricantes acrescentam ainda descontos significativos. A MG, por exemplo, tem recorrido a campanhas agressivas para escoar determinados stocks.
Hyundai e Kia, por outro lado, já não são necessariamente as alternativas de preço reduzido que representaram quando começaram a crescer na Europa.
As duas marcas conservam outras armas importantes, entre as quais as garantias prolongadas de cinco ou sete anos, dependendo do fabricante e do mercado.
Mas não estão sozinhas sob pressão. Ford e Opel são também apontadas pela ‘Automobilwoche’ entre as marcas que estarão a perder compradores perante a multiplicação de novos automóveis chineses, particularmente híbridos e elétricos.
Chineses já chegam aos 7% a 10% em mercados europeus
A dimensão do desafio começa a ser visível nos números.
Segundo o ‘L’Automobile Magazine’, as marcas chinesas já atingem quotas entre aproximadamente 7% e 10%, dependendo do mercado da Europa Ocidental analisado.
Se conseguirem estabilizar numa quota de 10% à escala europeia, isso poderá representar mais de 1,5 milhões de automóveis chineses matriculados por ano no continente.
E esses compradores terão de vir, em grande parte, das marcas que atualmente dominam o mercado.
A disputa não será apenas entre fabricantes chineses e europeus. Há atualmente um número elevado de marcas da China a tentar estabelecer-se no continente, o que significa que também terão de disputar clientes entre si.
E quem poderá perder clientes em França?
Os dados analisados dizem respeito sobretudo à Alemanha, um mercado onde Hyundai e Kia possuem uma presença significativa, pelo que não podem ser automaticamente extrapolados para todos os países europeus.
Em França, por exemplo, a dinâmica poderá ser diferente. O ‘L’Automobile Magazine’ aponta o MG ZS como um modelo capaz de atrair compradores que tradicionalmente poderiam considerar um Dacia Duster.
A recém-chegada Jaecoo poderá provocar um efeito semelhante com o SUV Jaecoo 5, devido ao posicionamento de preço próximo do modelo da Dacia.
É precisamente aqui que a ofensiva chinesa começa a ultrapassar a simples competição no mercado dos automóveis elétricos: as novas marcas estão a disputar compradores em segmentos onde os fabricantes europeus construíram posições fortes durante anos.
Europeus ainda têm vantagens difíceis de copiar
Apesar do rápido crescimento das marcas chinesas, os fabricantes tradicionais continuam a beneficiar de vantagens importantes.
Renault, Volkswagen, Peugeot, BMW ou Mercedes, entre muitas outras, dispõem de extensas redes de concessionários, sistemas de assistência estabelecidos, maior disponibilidade de peças e um histórico que permite aos compradores conhecer melhor os valores residuais dos automóveis.
O pós-venda continua, segundo a publicação francesa, a ser um dos pontos fracos de alguns fabricantes chineses.
Em determinadas marcas, uma reparação após um acidente pode implicar semanas de espera pela chegada de uma peça.
Mas também aí os fabricantes chineses estão a investir e a melhorar progressivamente a logística europeia.
A questão deixa, portanto, de ser apenas saber se conseguem conquistar clientes às marcas tradicionais. Os dados alemães sugerem que isso já está a acontecer.
A incógnita é saber quem perderá mais compradores à medida que as marcas chinesas corrigirem precisamente as fragilidades que ainda dão vantagem aos fabricantes estabelecidos na Europa.






