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“Queremos definir a tendência tecnológica”: como a portuguesa i-charging quer competir com gigantes globais no carregamento elétrico

Pedro Silva, CEO da empresa, revelou que a mobilidade elétrica entrou numa nova fase: depois da autonomia dos veículos e da velocidade dos carregadores, o próximo grande desafio está na forma como a energia é gerida, distribuída e integrada nas redes

A mobilidade elétrica entrou numa nova fase. Depois da autonomia dos veículos e da velocidade dos carregadores, o próximo grande desafio está na forma como a energia é gerida, distribuída e integrada nas redes. A leitura é de Pedro Silva, presidente executivo da i-charging, empresa portuguesa que nasceu no Porto, produz em Portugal e já compete em dezenas de mercados internacionais.

Em entrevista à ‘Executive Digest’, o CEO da i-charging defende que a discussão sobre carregamento elétrico deixou de poder estar centrada apenas na potência dos equipamentos. “Hoje já existem veículos capazes, já existem carregadores capazes e a tecnologia continua a evoluir rapidamente em ambas as áreas”, afirma. “O verdadeiro desafio está cada vez mais na integração de todo o ecossistema energético.”

“Não basta disponibilizar mais potência”

A empresa apresentou recentemente o all-in-one 500, um carregador compacto capaz de fornecer até 500 kW numa única unidade. Mas, para Pedro Silva, a importância do equipamento está menos no número isolado e mais no que ele revela sobre a evolução do setor: os operadores precisam de soluções com mais potência, menos ocupação de espaço e maior inteligência na gestão da energia.

“A questão deixou de ser apenas disponibilizar mais potência. É preciso garantir que essa energia chega ao local certo, no momento certo, de forma eficiente e economicamente sustentável”, explica o responsável. Para o CEO da i-charging, a eletrificação dos transportes é, acima de tudo, “um desafio de infraestrutura”.

É nesse ponto que Pedro Silva vê a próxima fronteira de inovação. A expansão da mobilidade elétrica vai obrigar a uma maior coordenação entre operadores de carregamento, redes elétricas, armazenamento de energia e produção renovável. “É precisamente aí que vemos as maiores oportunidades de inovação nos próximos anos”, sustenta.

“Preparado para o que aí vem”

A i-charging tem procurado antecipar essa evolução desde a fundação. “Desde o início da i-charging que procurámos antecipar para onde o mercado iria evoluir”, recorda o CEO. “Fomos pioneiros em soluções distribuídas e em capacidades de potência que, na altura, muitos consideravam excessivas para as necessidades existentes. Poucos anos depois, essas necessidades tornaram-se realidade.”

O percurso da empresa ajuda a perceber essa aposta. A i-charging lançou soluções de 600 kW em 2022 e de 900 kW em 2024, antes de apresentar o MAX, solução distribuída que pode atingir 1600 kW. O novo all-in-one 500 surge agora para responder a outro problema: locais onde a potência é necessária, mas o espaço disponível não permite instalar uma arquitetura distribuída.

“Identificámos uma necessidade crescente por carregamento de potência muito elevada em locais onde as soluções distribuídas nem sempre são viáveis, seja por limitações de espaço ou características do local”, explica Pedro Moreira da Silva.

Mais potência em menos espaço

É o caso de áreas de serviço, postos de abastecimento ou zonas urbanas densas. Até agora, para atingir níveis de potência mais elevados, muitos operadores tinham de recorrer a sistemas distribuídos, com unidades de potência separadas dos pontos utilizados pelos condutores. Essa solução continua a fazer sentido em muitos hubs, mas nem sempre cabe em locais mais apertados.

“O all-in-one 500 responde precisamente a esse desafio, permitindo disponibilizar até 500 kW num único equipamento compacto”, afirma o CEO. O carregador tem duas saídas e distribui automaticamente a potência entre os veículos ligados, em função da capacidade de carregamento de cada um.

Na prática, isto significa que a potência não fica parada quando um dos veículos já não precisa dela. “Os veículos nem sempre solicitam a mesma potência durante toda a sessão de carregamento. O sistema monitoriza continuamente essa necessidade e distribui a potência disponível em tempo real entre os veículos ligados”, explica.

Para o condutor, a diferença pode estar no tempo de espera e na fluidez da utilização do posto. “Em vez de existir potência disponível sem utilização, essa potência é automaticamente direcionada para os veículos que dela necessitam naquele momento, reduzindo tempos de espera e aumentando a capacidade de atendimento da estação.”

Carros, camiões e até mobilidade aérea

O equipamento foi também pensado para uma mobilidade elétrica que já não se limita aos automóveis ligeiros. A i-charging fala de veículos de passageiros, frotas, transporte pesado e até mobilidade aérea urbana. A opção por cabos refrigerados capazes de fornecer até 800 A é particularmente relevante para aplicações de elevada potência e para veículos pesados, que têm baterias maiores e exigem correntes elevadas durante mais tempo.

Ainda assim, Pedro Moreira da Silva recusa limitar a empresa ao carregamento automóvel. “As nossas soluções nunca foram pensadas apenas para automóveis ligeiros”, afirma, lembrando que a i-charging esteve entre as primeiras empresas a desenvolver soluções MCS para pesados e a entrar no segmento da mobilidade aérea urbana.

“O nosso foco é no ecossistema que inclui a infraestrutura de carregamento, inteligência digital e gestão de energia”, resume. Mais do que servir um tipo específico de veículo, a empresa quer acompanhar a eletrificação da mobilidade “nas suas várias formas”.

“A diferenciação deixará de estar apenas no hardware”

Essa visão ajuda a explicar o investimento em software e gestão energética. Além da alocação dinâmica de potência ao nível do carregador, a i-charging desenvolveu o omni-e, uma solução para gestão de energia ao nível da instalação, capaz de coordenar geração local, armazenamento e carregamento.

“À medida que o setor evolui, a diferenciação deixará de estar apenas no hardware e passará cada vez mais pela capacidade de otimizar energia, operações e experiência do utilizador através de plataformas integradas”, defende Pedro Moreira da Silva.

Do Porto para dezenas de mercados

A ambição internacional faz parte da empresa desde o início. Fundada em 2019, com sede no Porto e em Atlanta, nos Estados Unidos, a i-charging está presente em dezenas de mercados, incluindo Europa, América do Norte, Médio Oriente, América Latina e Ásia. Para o CEO, competir num setor dominado por grandes grupos internacionais exige rapidez, especialização e tecnologia própria.

“A dimensão de uma empresa nem sempre determina a sua capacidade de inovar. Muitas vezes, a agilidade, a especialização e a capacidade de executar rapidamente fazem a diferença”, afirma.

Pedro Silva sublinha que a i-charging nasceu “já com uma ambição global” e focada em tecnologia própria. “Investimos fortemente em engenharia, propriedade intelectual e desenvolvimento de soluções que respondem a desafios concretos dos nossos clientes.”

É essa combinação que, diz, permite à empresa competir fora de Portugal. “Hoje competimos em dezenas de mercados porque oferecemos diferenciação tecnológica, flexibilidade e uma capacidade de adaptação que nem sempre é fácil encontrar em organizações de maior dimensão.”

A origem portuguesa é assumida como motivo de orgulho, mas o CEO prefere colocar o foco na qualidade tecnológica. “O facto de sermos uma empresa portuguesa é uma origem da qual nos orgulhamos, mas aquilo que nos permite competir é a qualidade da tecnologia que desenvolvemos.”

Crescer sem perder a liderança tecnológica

Nos próximos anos, a Europa continuará a ser um mercado central para a empresa, por ser uma das regiões mais avançadas na adoção da mobilidade elétrica. Os Estados Unidos são também estratégicos, com presença local desde 2021. A i-charging tem reforçado equipas comerciais em várias geografias europeias e, mais recentemente, no Sudeste Asiático, além de contar com parceiros de distribuição em regiões como a Austrália e a América Latina.

“Mais do que uma região específica, olhamos para mercados onde existe uma combinação de crescimento da mobilidade elétrica, necessidade de infraestrutura de elevada potência e abertura à inovação tecnológica”, afirma Pedro Silva.

A empresa acumula reconhecimentos internacionais, incluindo o Deloitte Technology Fast 50 Portugal, o Deloitte Technology Fast 500 EMEA e a entrada no Financial Times 1000 Europe’s Fastest Growing Companies 2026. Mas o CEO insiste que o objetivo não é apenas crescer em escala.

“As quatro dimensões estão ligadas entre si”, diz, quando questionado sobre se a prioridade passa por ganhar escala, liderar tecnologicamente, entrar em novos segmentos ou consolidar mercados. “Crescer em escala só faz sentido se continuarmos a liderar tecnologicamente, e a entrada em novos segmentos só é sustentável se mantivermos uma presença sólida nos mercados onde já operamos.”

A prioridade, resume, é preparar infraestrutura para a próxima fase da eletrificação. “Isso significa mais potência, mais inteligência na gestão da energia, maior flexibilidade e capacidade de servir novas aplicações.”

Pedro Silva deixa a ambição num ponto claro: “Queremos continuar a ser reconhecidos como uma empresa que define a tendência tecnológica na mobilidade elétrica e não apenas a acompanhar as necessidades do mercado.”