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O que tem o Prémio Nobel a ver com o motor diesel? Muito mais do que provavelmente imagina

Automonitor

Tudo começa com petróleo, um jovem engenheiro sueco, uma invenção que muitos ainda encaravam com desconfiança e um homem chamado Rudolf Diesel

O nome Nobel é imediatamente associado aos prémios entregues todos os anos a algumas das figuras mais importantes da ciência, literatura, economia e paz. No mundo dos motores, porém, a família de Alfred Nobel deixou outra marca, muito menos conhecida.

E esta começa com petróleo, um jovem engenheiro sueco, uma invenção que muitos ainda encaravam com desconfiança e um homem chamado Rudolf Diesel.

No final do século XIX, a família Nobel controlava um enorme império industrial e petrolífero na Rússia. Foi nesse contexto que Emanuel Nobel, sobrinho de Alfred Nobel, percebeu o potencial daquele novo motor e decidiu apostar nele.

Não se limitou a comprar uma licença. As empresas da família acabariam por desempenhar um papel importante no desenvolvimento do diesel como uma máquina verdadeiramente funcional e ajudariam a levá-lo para um dos territórios onde acabaria por se tornar fundamental: os transportes.

Tudo começou com uma viagem à Alemanha

Em 1897, o engenheiro sueco Anton Carlsund, funcionário da fábrica de máquinas Ludvig Nobel, em São Petersburgo, viajou até à Alemanha para participar num encontro de engenheiros.

Foi aí que ouviu Rudolf Diesel apresentar a sua invenção.

O princípio era revolucionário. Em vez de depender de uma fonte externa de ignição, o motor comprimia fortemente o ar dentro do cilindro, elevando a temperatura até permitir a combustão do combustível injetado.

Mais importante para quem vivia do petróleo: prometia consumir muito menos combustível do que as alternativas existentes.

Carlsund regressou a São Petersburgo impressionado e contou o que tinha visto a Emanuel Nobel.

O sobrinho de Alfred Nobel percebeu rapidamente o que aquela máquina poderia significar.

800 mil marcos por uma aposta arriscada

A decisão estava longe de ser óbvia.

O motor de Rudolf Diesel era ainda uma tecnologia jovem e controversa. Havia dúvidas sobre se conseguiria trabalhar de forma fiável às elevadas pressões previstas pelo inventor e até os seus direitos de patente eram discutidos.

Emanuel Nobel avançou na mesma.

Em fevereiro de 1898 encontrou-se com Rudolf Diesel e iniciou negociações para adquirir os direitos da tecnologia na Rússia. Segundo o arquivo histórico da família Nobel, o acordo foi assinado a 16 de fevereiro por 800 mil marcos, parte em dinheiro e parte através de ações de uma empresa criada para gerir as licenças russas.

Diesel ficou surpreendido com o entusiasmo do empresário sueco.

Numa carta à mulher, o inventor escreveu que aquele “sueco frio” estava agora mais entusiasmado com o motor do que ele próprio.

Só que comprar os direitos não significava que o problema estivesse resolvido.

O motor ainda não estava pronto

A fábrica Ludvig Nobel começou a construir em São Petersburgo um motor de 20 cv seguindo os desenhos fornecidos por Rudolf Diesel.

Não correu bem.

Os engenheiros descobriram que vários componentes não funcionavam adequadamente e interromperam a construção. Carlsund e a sua equipa decidiram então redesenhar profundamente a máquina.

Foi aí que a ligação dos Nobel ao diesel se tornou especialmente importante.

Em vez de simplesmente fabricar sob licença uma invenção alemã, os engenheiros ligados à família começaram a aperfeiçoá-la.

Em 1899 conseguiram colocar em funcionamento o novo motor. Os resultados foram suficientemente bons para chamarem a atenção do próprio Rudolf Diesel.

O filho do inventor, Eugen Diesel, recordaria posteriormente que chegou a Augsburg um relatório entusiasmado de São Petersburgo: a fábrica Ludvig Nobel tinha percebido como construir eficazmente aquele motor.

E havia outra questão fundamental.

Do petróleo nasceu a oportunidade

Os Nobel não estavam interessados no diesel por acaso.

Robert e Ludvig Nobel, irmãos de Alfred, tinham construído na Rússia a Branobel, uma gigantesca companhia petrolífera que explorava sobretudo os campos de Baku, no atual Azerbaijão.

No início do século XX, a empresa chegou a produzir cerca de 10% do petróleo mundial.

Para Emanuel Nobel, um motor extremamente eficiente que pudesse utilizar derivados do petróleo tinha uma lógica económica evidente. A família tinha simultaneamente acesso ao combustível, fábricas capazes de construir motores e uma enorme rede de transporte onde os utilizar.

Os engenheiros começaram a fabricar unidades cada vez mais potentes, destinadas a oficinas, à artilharia russa e às próprias operações petrolíferas dos Nobel.

Mas a história ainda iria dar outro salto.

E os Nobel colocaram o diesel num navio

Transportar petróleo através da enorme rede fluvial russa era caro, sobretudo devido ao consumo dos motores a vapor.

A utilização do diesel prometia reduções enormes nos custos de combustível.

Em 1903 surgiu uma resposta extraordinária: o ‘Vandal’.

O navio-tanque foi equipado com três motores Diesel de três cilindros, com 120 cv cada, ligados a geradores elétricos que alimentavam os motores das hélices.

Nascia uma das primeiras grandes aplicações da propulsão diesel-elétrica e aquele que é apontado pelo arquivo histórico dos Nobel como o primeiro navio do mundo equipado com motores diesel.

Emanuel Nobel assistiu à experiência.

Para o empresário, a nova tecnologia resolvia precisamente um problema que o incomodava há anos: enormes quantidades de petróleo eram desperdiçadas para alimentar máquinas a vapor pouco eficientes.

A experiência resultou.

A partir de 1903, os Nobel começaram progressivamente a substituir os motores a vapor da sua frota por diesel. A fábrica continuou, entretanto, a desenvolver novas versões, incluindo motores mais leves e soluções capazes de inverter o sentido de rotação, uma característica fundamental para utilização naval.

O que tem então o Prémio Nobel a ver com o motor diesel?

Alfred Nobel não inventou o diesel. Nem foi a Fundação Nobel que financiou Rudolf Diesel.

A ligação é familiar e industrial.

Alfred morreu em 1896. Apenas dois anos depois, o seu sobrinho Emanuel apostou uma enorme soma na invenção de Rudolf Diesel, enquanto engenheiros das empresas da família ajudavam a resolver problemas técnicos e a transformar a ideia numa máquina mais fiável e utilizável.

Há ainda uma coincidência temporal particularmente curiosa.

Os primeiros Prémios Nobel foram entregues em 1901.

Precisamente nessa época, noutra parte da Europa, a família que lhes dava o nome estava também a ajudar uma tecnologia chamada diesel a sair das oficinas experimentais e a conquistar a indústria e os transportes.

Mais de um século depois, o nome Nobel continua associado sobretudo a medalhas, ciência e descobertas que mudaram o mundo.

Mas uma parte menos conhecida dessa história também se escreveu entre barris de petróleo, pistões, enormes fábricas russas e motores que ajudariam a transformar para sempre a forma como o mundo se move.