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Transportes usados, mas pouco recomendados: carro mantém domínio na Grande Lisboa

Automonitor

Estudo “Tendências Urbanas de Mobilidade 2026 — AM Lisboa”, do Observatório ACP, apontou que o automóvel continua a dominar as deslocações diárias na capital

A maioria dos residentes da Área Metropolitana de Lisboa vive perto de transportes públicos, conhece o passe mensal e até utilizou autocarro, metro, comboio ou barco no último mês. Ainda assim, o automóvel continua a dominar as deslocações diárias e é também o meio preferido pela maioria. A conclusão consta do estudo “Tendências Urbanas de Mobilidade 2026 — AM Lisboa”, do Observatório ACP.

O retrato traçado pelo estudo mostra uma contradição central na mobilidade da região: o problema não está apenas na distância às paragens ou no desconhecimento da oferta. Cerca de 80% dos inquiridos vivem a menos de 500 metros de uma paragem ou estação de transporte público e 86% conhecem o passe mensal da área onde residem. Mesmo assim, os transportes públicos continuam a ter dificuldade em convencer os utilizadores.

O automóvel, como condutor ou passageiro, é o meio de transporte mais utilizado por 59% dos inquiridos. Mais de metade diz deslocar-se a pé com frequência, mas apenas um em cada dez considera a deslocação pedonal o seu principal meio de transporte. Já o transporte público rodoviário é utilizado por cerca de um terço dos residentes, mas só 16% o apontam como principal opção nos dias úteis.

A preferência pelo carro é ainda mais expressiva quando os inquiridos são questionados sobre o meio de transporte que preferem usar dentro do seu município. O automóvel surge em primeiro lugar para 67% dos residentes, enquanto a deslocação a pé aparece como segunda opção para 43%. Bicicletas e trotinetes são, na maioria dos casos, apontadas como o meio menos preferido.

A explicação está menos no preço e mais na conveniência. Quase metade dos inquiridos, 48%, afirma que usaria mais transportes públicos se houvesse maior frequência ou horários mais convenientes. Outros 31% apontam a necessidade de linhas mais diretas e com menos transbordos. A redução do preço dos passes ou bilhetes é referida por 17%, ficando atrás da frequência e da simplificação das ligações.

O estudo mostra também que a mobilidade quotidiana na Grande Lisboa é marcada por deslocações regulares e relativamente curtas. Cerca de 89% dos inquiridos deslocam-se todos ou quase todos os dias úteis, sobretudo por motivos de trabalho, que representam 61% das deslocações. Quase metade percorre entre dois e dez quilómetros entre casa e o destino, e 60% demora até 30 minutos por trajeto.

Apesar de 61% dos residentes terem usado transportes públicos no último mês, a avaliação global do sistema revela fragilidades. Os transportes públicos da Área Metropolitana de Lisboa registam um NPS negativo de -24, indicador que mede a probabilidade de recomendação a familiares ou amigos. O Metro de Lisboa é o operador com melhor desempenho, mas fica apenas em zero. Todos os restantes operadores avaliados apresentam valores negativos.

Entre os operadores analisados, a Carris e a Transtejo/Soflusa surgem com os valores mais baixos de recomendação, com NPS de -26 e -28, respetivamente. A Carris Metropolitana regista -22 e a CP Urbanos de Lisboa -23. O resultado sugere que os transportes são conhecidos e usados, mas não geram níveis de satisfação suficientes para inverter a dependência do automóvel.

As prioridades apontadas pelos residentes reforçam essa leitura. Na mobilidade local, 60% defendem que frequência e horários dos transportes devem ser melhorados, 44% pedem ligações diretas e rápidas e 38% apontam a redução do congestionamento automóvel como uma das áreas a corrigir. A principal barreira à mudança de modo de deslocação é a falta de alternativas convenientes, referida por 34% dos inquiridos, seguida da necessidade de flexibilidade e da falta de tempo, com 22%.

O estudo identifica ainda problemas de circulação que ajudam a explicar a perceção dos residentes. Quase metade dos inquiridos, 46%, considera o excesso de trânsito um dos principais problemas nos seus municípios. A falta de lugares de estacionamento surge logo depois, com 42%, enquanto 33% apontam a falta de fiscalização ou de presença policial como questão relevante.

Na avaliação das políticas municipais de mobilidade, Oeiras, Barreiro e Cascais são os concelhos com melhor apreciação por parte dos munícipes. Setúbal destaca-se pela razão oposta: é o único concelho com saldo negativo. Ainda assim, de forma geral, há uma perceção de melhoria das condições de mobilidade nos últimos dois anos, sobretudo nos municípios mais bem avaliados.

A segurança rodoviária surge como outro ponto sensível. A condução distraída, referida por 48%, e o excesso de velocidade, apontado por 46%, são considerados os comportamentos mais perigosos no trânsito nas zonas de residência. A maioria dos inquiridos considera ainda que a presença das autoridades nas zonas onde vive é muito reduzida ou quase inexistente, perceção particularmente acentuada em Setúbal e Almada.

O estudo do Observatório ACP foi realizado pela Pitagórica, com base em 1.850 entrevistas a residentes da Área Metropolitana de Lisboa com 18 ou mais anos, com ou sem carta de condução. O trabalho de campo decorreu entre 11 e 27 de novembro de 2025 e apresenta uma margem de erro global de 2,32%.

A conclusão é clara: a Grande Lisboa não parte do zero em matéria de transportes públicos, mas continua longe de oferecer uma alternativa suficientemente competitiva ao automóvel. Há paragens perto de casa, há conhecimento do passe e há utilização regular. O que falta, segundo os residentes, é uma rede mais frequente, direta, fiável e capaz de competir com a rapidez e flexibilidade do carro.