Rodrigo Ferreira da Silva, presidente da ARAN – Associação Nacional do Ramo Automóvel (que vai organizar uma conferência sob o mote “Repensar o futuro do setor automóvel”, no Porto, no próximo dia 9), diz que não é justo comparar a situação atual com o último ano porque as quebras registadas na sequência da pandemia foram muito severas. A comparação deve ser feita, por isso, com 2019: «O ano de 2021 face a 2019 vem a registar a venda de 1/3 dos veículos em Portugal, com evidência no rent-a-car como consequência da quebra de turismo. Em 2021, o setor está a ter quebras de 36%.»

Em entrevista à Executive Digest, o responsável sublinha ainda que a crise sanitária afeta o setor de forma transversal, mas que a área dos carros novos é a que apresenta resultados mais críticos. «Neste panorama de incerteza e de preocupação com a saúde pública, os consumidores precisam de se sentir em segurança e, por isso, optam por adiar a compra ou por adquirir um veículo usado, em detrimento de um novo», explica.
Mas quais são os números? Segundo o presente da associação, Portugal não tem uma base fidedigna de estatística do mercado de usados e a ARAN tem insistido na criação de um registo profissional de revendedores de automóveis.
Olhando para o futuro, Rodrigo Ferreira da Silva confessa que o setor está em transformação e que se verificam, hoje, dois fenómenos impossíveis de contornar: a digitalização e a aposta em veículos mais amigos do ambiente. Está previsto, aliás, que, nos próximos cinco anos, 37% das vendas passem a ser feitas no online.
Acompanhe a entrevista na íntegra:
Como compara a situação do setor automóvel na primeira metade deste ano com o início da pandemia? Já se notam sinais de recuperação?
Sim, atualmente no setor automóvel já se começa a sentir uma ligeira recuperação. No entanto, podemos considerar que os efeitos da pandemia ainda não terminaram. Diria que não se pode comparar o ano de 2021 com o período homólogo, pois 2020 foi um ano muito negativo.
A pandemia teve um forte impacto no setor automóvel, que já tinha iniciado o ano de forma negativa, com quebras em relação a 2019. De forma global, o setor foi muito penalizado pelo impacto da Covid-19, acentuando a tendência de decréscimo.
Analisando em retrospetiva, podemos avaliar que o setor automóvel entrou nesta crise com problemas estruturais, como um sistema de distribuição muito tradicional, a falta de capital, margens baixas, resultados negativos e um endividamento elevado. Até agosto de 2020, o setor registou uma redução superior a 41%, com menos 10 mil carros novos /mês. E metade dos negócios dos automóveis novos desapareceu até agosto. A pandemia criou, sem dúvida, uma situação bem pior do que a que aconteceu na crise anterior, a da Troika.
E face a 2019?
Considero que é mais justo compararmos o ano de 2021 com 2019, dado que 2020 foi um ano atípico, pelo que não pode ser considerado um ano de referência. O ano de 2021 face a 2019 vem a registar a venda de 1/3 dos veículos em Portugal, com evidência no rent-a-car como consequência da quebra de turismo. Em 2021, o setor está a ter quebras de 36%.
Quais são os segmentos de negócio mais afetados pela pandemia?
Podemos dizer que o setor automóvel está a ser afetado na sua globalidade, com uma quebra. Mas, neste enquadramento, o segmento de venda de carros novos é o que está a ser mais afetado pela pandemia, dado que há menos confiança no futuro por parte do consumidor. Neste panorama de incerteza e de preocupação com a saúde pública, os consumidores precisam de se sentir em segurança e, por isso, optam por adiar a compra ou por adquirir um veículo usado, em detrimento de um novo.
A par, o segmento das oficinas também está a ser afetado, pois os portugueses têm vido a gastar apenas o indispensável na reparação dos seus automóveis.
Considera que há impactos que serão para sempre? Mudanças provocadas pela pandemia e que irão perdurar? Quais?
O setor está em transformação. Atualmente, há dois fenómenos impossíveis de contornar: a digitalização e a aposta em veículos mais amigos do ambiente.
A pandemia veio acelerar a revolução digital, que já se encontrava em marcha. Foi impulsionada para dar resposta a um desafio imposto pela Covid -19, promovendo uma oportunidade de reinvenção e de reavaliação. Está previsto que, nos próximos 5 anos, 37% das vendas vão passar a ser feitas no online.
Outro desafio será a maior aposta em veículos elétricos, enquadrado no Plano Nacional de Energia e Clima. Portugal está numa ótima posição a nível de utilização de carros elétricos na Europa, mas é necessária uma política nacional pensada e estudada, alinhada com o crescimento da quota dos carros elétricos.
Prevê-se que, dentro de cinco anos, 30% do parque de carros vendidos seja elétrico. Há uma necessidade de as empresas estarem preparadas para terem capacidade de investir no futuro. Importa salientar que falta investimento em infraestrutura para o parque elétrico crescer. A infraestrutura não deve andar a reboque da procura. Pelo contrário, deve incentivar e permitir o seu crescimento.
Como justifica o interesse crescente pelos carros usados?
Temos registado um crescente interesse pelos carros usados, que têm vindo a aumentar as vendas. No enquadramento da pandemia, tem havido uma transferência da compra de carros novos para usados. Esta procura crescente é consequência de uma compra mais racional, pois ao optarem por um carro usado, os compradores ficam com uma margem que gastariam num carro novo enquanto “almofada”.
As viaturas usadas importadas também têm contribuído para este aumento de venda, beneficiando de um quadro fiscal atrativo. Contudo, é uma estratégia que contraria a ambição nacional de ter um parque automóvel mais seguro e amigo do ambiente.
Como estão as vendas de usados neste momento em relação a veículos novos?
Em Portugal não existe uma base fidedigna de estatística do mercado de usados, por isso a ARAN tem insistido na criação de um registo profissional de revendedores de automóveis.
Considera que as medidas em vigor de apoio ao setor são suficientes?
Para o setor foi muito importante o primeiro lay-off simplificado do Governo, nomeadamente para atenuar os efeitos económicos associados à pandemia da Covid-19. No entanto, o processo foi complicado por todas as medidas posteriores, pois ficou a faltar o reforço das medidas de financiamento à economia, através de linhas de crédito, que teriam sido relevantes para o reforço das tesourarias e a promoção de soluções que facilitassem o acesso ao financiamento bancário, designadamente às micro, pequenas e médias empresas do setor.
Ciente da importância da recuperação do setor, a ARAN apelou ao Governo e tentou sensibilizar os vários partidos políticos para a necessidade do desenvolvimento de medidas de apoio ao estudo da fiscalidade do sector automóvel, assim como de acionar medidas de redução de custos de contexto.
Que outras medidas seriam necessárias?
A ARAN considera que o Governo deveria ter incluído cinco medidas estratégicas no Orçamento de Estado de 2021. Medidas que foram propostas pela ARAN visando a implementação de uma estratégia integrada de retoma do setor automóvel, capaz de impulsionar a retoma económica e a recuperação deste setor no atual enquadramento económico, face ao impacto da COVID-19.
O pacote de medidas proposto era fortemente vantajoso para potenciar a retoma económica do setor, atenuando os efeitos da crise nas empresas e potenciando a sua competitividade, estimulando uma recuperação gradual da economia. Está em causa a sobrevivência do setor automóvel composto por diferentes tipologias de empresas, desde as maiores exportadoras, às PME, a microempresas e ENI. Um setor promotor de emprego tão importante em diversas regiões do país.
Dada a redução da tributação dos carros usados importados, a ARAN apelou ao Governo para que apoiasse a redução do ISV, bem como o incentivo ao registo profissional de revendedores usados. Estas são duas medidas das estratégicas propostas pela ARAN ao Governo, importantes para impulsionar a retoma económica, dado que fortaleceriam o aumento da tesouraria das empresas, apoiariam a renovação do parque automóvel e atenuariam o impacto da quebra da receita fiscal (ISV e IVA). Enquanto a criação de um registo profissional de revendedores de veículos automóveis seria ainda fundamental para o combate da concorrência desleal, à evasão fiscal e potenciar a criação de uma base estatística fidedigna referente ao comércio de automóveis usados em Portugal.






