Há três Ferrari F40 estacionados no mesmo armazém. Um deles conserva praticamente os quilómetros de entrega. Ao lado estão um F50, um Enzo e um LaFerrari. Do outro lado, um BMW M1 divide o espaço com um M1 Procar que competiu em Le Mans, enquanto um Porsche 935 K3 de 1977 repousa sob outro Porsche de corrida. Num lugar assim, até um Ferrari F40 começa a parecer um automóvel vulgar.
Estas são as instalações da BINGO Sports Japan, perto do aeroporto de Narita, um dos mais importantes concessionários e fornecedores de automóveis exóticos do país. Segundo uma reportagem da revista britânica ‘Top Gear’, este é um lugar onde se encontram algumas das máquinas mais raras do planeta — e onde muitas delas podem estar à venda.
A empresa foi fundada em 2002 por Shinji Takei, inicialmente como um pequeno negócio de compra e venda de carros interessantes em Nagoya. Mas Takei depressa percebeu que os grandes colecionadores não procuravam apenas automóveis impecáveis. Queriam saber quem os conduzira, onde tinham estado, como tinham sido utilizados e que histórias carregavam.
Foi assim que a BINGO Sports deixou de se limitar a vender carros e passou a ajudar os clientes a construir coleções. O trabalho tornou-se uma espécie de caça ao tesouro: localizar um modelo quase desaparecido, chegar ao proprietário e convencê-lo a vender. Quando finalmente encontram aquilo que parecia impossível, a reação é previsível: “Bingo”. É daí que vem o nome.
O armazém de Narita está dividido em oito espaços com temperatura e humidade controladas. Os carros costumam permanecer cobertos e ligados a carregadores de bateria, prontos para serem colocados em funcionamento. Entre eles estão um Porsche 962CR Schuppan e um Lamborghini Diablo GTR, ambos derivados de carros de competição, mas autorizados a circular na estrada.
Há ainda um Ferrari F40 que destoa de todos os outros. Em vez de uma carroçaria brilhante, apresenta-se coberto de sujidade e detritos. O automóvel passou quase uma década abandonado ao ar livre numa zona rural do Japão, até que Takei e a sua equipa localizaram o proprietário e conseguiram comprá-lo.
No espaço de exposição da empresa, no centro de Tóquio, encontram-se outros pesos-pesados: o primeiro Koenigsegg Jesko entregue no Japão, um Pagani Huayra BC e um Lamborghini Miura SVR Jota. Este último é especialmente raro: foi transformado numa versão radical inspirada no Miura Jota original e continua a ser o único exemplar do género no mundo.
Mas são os carros menos óbvios que melhor revelam a forma como Takei olha para o automóvel. A coleção inclui um Citroën SM com um antigo selo fiscal britânico, um Mazda Cosmo de 1967 e até um Honda S2000 prateado com interior vermelho. Este último continua relativamente acessível, mas poderá tornar-se um dos clássicos desejados pelas próximas gerações.
Takei acredita que o mercado do colecionismo está a atravessar uma mudança. Durante décadas, muitos compradores procuraram os carros associados a ídolos como James Dean ou Steve McQueen. Os colecionadores mais jovens, porém, cresceram com outras referências: Nissan Skyline GT-R, Honda NSX, Porsche dos anos 1990 e automóveis descobertos em videojogos.
Os modelos mudam, mas a paixão mantém-se. Um Ferrari F40 poderá fascinar praticamente todas as gerações, mas começa a partilhar o protagonismo com máquinas japonesas e europeias das décadas de 1990 e 2000. Para Takei, o segredo está em comprar aquilo que emociona, e não apenas aquilo que poderá valorizar.
O próprio fundador começou ao volante de um Mazda RX-7 da década de 1980, que acabou por destruir pouco depois de tirar a carta. Mais tarde competiu em campeonatos como a Porsche Carrera Cup e o GT World Challenge Asia. Apesar de já ter conduzido centenas de carros extraordinários, continua a apontar o McLaren F1 e o Ferrari F40 LM como experiências difíceis de igualar.
É impossível provar que a BINGO Sports é realmente o melhor concessionário de automóveis do mundo. Mas há poucos lugares onde três Ferrari F40 convivem com um Porsche de Le Mans legalizado para estrada, um Lamborghini único e um simples Honda S2000 escolhido por poder ser o clássico do futuro. E há ainda menos onde, perante tanta raridade, a única palavra possível parece ser precisamente a que deu nome à empresa: bingo.






