Com o eclipse solar a aproximar-se, multiplicam-se nas redes sociais conselhos, truques e soluções improvisadas para observar o fenómeno. Uma das ideias que tem circulado é aparentemente simples: se o para-brisas de um automóvel já filtra radiação ultravioleta e alguns vidros reduzem a entrada de calor, será possível assistir ao eclipse em segurança sem sequer sair do carro?
A resposta dos especialistas é clara: não.
Segundo noticia o ‘El Economista’, especialistas da Carglass Espanha vieram esclarecer esta ideia antes do eclipse que esta quarta-feira será total numa faixa que atravessa Espanha e chegará ainda a uma pequena zona de Portugal.
O para-brisas pode desempenhar várias funções de proteção dos ocupantes de um automóvel, mas não foi concebido como filtro para permitir a observação direta do Sol.
O para-brisas filtra radiação, mas não chega
É aqui que nasce parte da confusão.
Os para-brisas modernos são constituídos por vidro laminado e conseguem filtrar uma parte significativa da radiação ultravioleta. Existem também vidros com tratamentos destinados a reduzir a entrada de calor no habitáculo.
Isso não significa, contudo, que ofereçam a proteção necessária para olhar diretamente para o Sol.
Segundo os especialistas citados pelo jornal espanhol, nenhum para-brisas convencional está preparado para reduzir a intensidade da luz visível até aos níveis necessários para uma observação solar segura.
O mesmo princípio aplica-se aos vidros escurecidos do automóvel.
Por mais escuro que pareça o habitáculo, o vidro continua a permitir a passagem de luz suficiente para tornar perigosa a observação direta do disco solar.
Porque é que durante um eclipse parece mais seguro olhar?
O eclipse cria precisamente uma das condições que podem levar as pessoas a subestimar o perigo.
À medida que a Lua vai ocultando o Sol, a luminosidade ambiente diminui. Olhar na direção do astro pode tornar-se aparentemente mais confortável do que num dia normal.
Mas essa sensação não significa que a radiação que chega aos olhos tenha deixado de representar um risco.
A luz que entra no olho é focada pela córnea e pelo cristalino sobre a retina. Uma exposição direta suficientemente intensa pode provocar uma lesão conhecida como retinopatia solar.
E existe uma característica particularmente traiçoeira: a retina não possui recetores de dor capazes de avisar imediatamente que está a ser lesionada.
Os sintomas podem surgir mais tarde
Uma pessoa pode, por isso, olhar diretamente para o eclipse, não sentir dor naquele momento e assumir que nada aconteceu.
Os problemas podem tornar-se evidentes posteriormente.
Entre as consequências possíveis estão alterações da visão central, manchas no campo visual, distorção das imagens ou alterações na perceção das cores.
Em casos graves, os danos podem ser permanentes.
É precisamente por isso que a diminuição da luminosidade durante um eclipse não deve ser confundida com uma diminuição suficiente do risco.
Óculos de sol também não servem
Outra solução aparentemente lógica também deve ser excluída.
Óculos de sol convencionais, mesmo muito escuros ou com lentes espelhadas, não substituem equipamentos especificamente desenvolvidos para observação solar.
Para acompanhar diretamente o eclipse devem ser utilizados óculos próprios que cumpram a norma ISO 12312-2.
Estes filtros são muito mais escuros do que óculos de sol normais e foram concebidos especificamente para reduzir a radiação solar até níveis adequados à observação.
Essa diferença explica também por que razão nunca devem ser utilizados para conduzir.
E não tente ver o eclipse enquanto conduz
O ‘El Economista’ chama ainda a atenção para outro comportamento de risco: tentar acompanhar o fenómeno ao volante.
Olhar através do para-brisas, do teto panorâmico ou de qualquer outro vidro do veículo não torna segura a observação direta do Sol.
Também não se deve conduzir com óculos próprios para eclipses.
Como estes filtros bloqueiam praticamente toda a luz ambiente, utilizá-los ao volante tornaria extremamente difícil ou impossível observar adequadamente a estrada, outros veículos, peões e obstáculos.
A recomendação é, portanto, simples: quem quiser acompanhar o eclipse deve estacionar primeiro num local seguro e só depois observar o fenómeno com proteção adequada.
Cuidado também com telemóveis, câmaras e telescópios
Há ainda outra confusão frequente.
Colocar óculos de eclipse diante dos olhos e depois olhar através de binóculos ou de um telescópio não constitui uma proteção adequada.
Estes instrumentos concentram a radiação solar e necessitam dos seus próprios filtros solares específicos, colocados corretamente na parte frontal do equipamento.
O mesmo cuidado deve ser tido com câmaras e outros dispositivos óticos.
Os filtros destinados aos olhos não devem ser utilizados como substitutos dos equipamentos específicos exigidos por estes aparelhos.
O carro não é um par de óculos para eclipses
A origem do mito é compreensível: os vidros dos automóveis protegem efetivamente os ocupantes de determinados tipos de radiação e alguns são concebidos para diminuir significativamente o calor que entra no habitáculo.
Mas uma coisa não implica a outra.
Um para-brisas foi desenvolvido para proteger os ocupantes, garantir visibilidade e resistir a impactos. Não para transformar o Sol num objeto que possa ser observado diretamente.
Por isso, nesta quarta-feira, a regra continua a ser a mesma dentro ou fora de um automóvel: para olhar diretamente para o eclipse são necessários filtros especificamente certificados para observação solar.
O para-brisas pode ficar entre os seus olhos e o Sol. Isso não faz dele proteção suficiente.






