A guerra entre os Estados Unidos, Israel e o Irão já começou a ter impacto direto no bolso dos consumidores em todo o mundo, com os preços dos combustíveis a subir rapidamente em dezenas de países. Dados compilados e analisados pela ‘Al Jazeera’ mostram que, desde o início do conflito, pelo menos 85 países registaram aumentos no preço da gasolina.
Nos EUA, por exemplo, o preço médio de um galão de gasolina comum passou de 2,94 dólares (2,71 euros) em fevereiro para 3,58 dólares (3,30 euros), o que representa uma subida de cerca de 20%, segundo dados da ‘AAA Fuel Prices’, um serviço de monitorização da Associação Automobilística Americana.
Em vários estados americanos, os preços já ultrapassaram os quatro dólares por galão (3,69 euros), enquanto na Califórnia superaram os cinco dólares por galão (4,61 euros), o valor mais elevado registado em mais de dois anos.
Países com maiores aumentos
De acordo com a análise divulgada pela Al Jazeera com base em dados da plataforma ‘Global Petrol Prices‘ — que acompanha os preços de combustíveis em cerca de 150 países — o Vietname registou a maior subida desde o início do conflito.
O preço da gasolina de 95 octanas passou de 0,75 dólares por litro (0,69 euros) a 23 de fevereiro para 1,13 dólares por litro (1,04 euros) a 9 de março, uma subida próxima de 50%.
O Laos surge em segundo lugar, com um aumento de cerca de 33%, seguido pelo Camboja, com 19%. A Austrália registou uma subida de aproximadamente 18%, enquanto os Estados Unidos aparecem com aumentos de cerca de 17%. Veja os países com maior impacto nos combustíveis desde o início do conflito:
País | Aumento
———————- | ———-
Vietname | +49,7%
Laos | +32,9%
Camboja | +19,0%
Austrália | +18,2%
Estados Unidos | +16,6%
Alemanha | +13,3%
Seicheles | +13,0%
Guatemala | +12,9%
Líbano | +12,3%
Nigéria | +11,8%
Canadá | +11,6%
Áustria | +11,6%
China | +10,5%
Luxemburgo | +9,97%
Zimbabué | +9,62%
Ucrânia | +9,42%
Albânia | +7,56%
Dinamarca | +7,49%
Macedónia do Norte | +7,46%
Afeganistão | +6,84%
Etiópia | +6,8%
Bélgica | +6,77%
Emirados Árabes Unidos | +6,47%
França | +6,39%
Turquia | +6,29%
Segundo a ‘Al Jazeera’, muitos outros países poderão registar subidas nas próximas semanas, uma vez que vários mercados atualizam os preços apenas no final de cada mês.
Ásia é a região mais vulnerável
Os países asiáticos estão entre os mais expostos ao impacto da guerra devido à sua forte dependência do petróleo proveniente do Golfo Pérsico.
O Estreito de Ormuz, atualmente paralisado devido ao conflito, é uma das rotas energéticas mais importantes do mundo. Antes da guerra, era através desta passagem que circulava uma parte significativa do petróleo global.
Países como o Japão e a Coreia do Sul dependem quase totalmente desta rota energética. O Japão importa cerca de 95% do seu petróleo do Golfo, enquanto a Coreia do Sul depende dessa região para cerca de 70% das suas importações energéticas.
Face ao agravamento da situação, o Japão já instruiu as suas reservas estratégicas de petróleo a prepararem-se para uma eventual libertação de crude no mercado. Já a Coreia do Sul introduziu um teto máximo para os preços da gasolina e do gasóleo pela primeira vez em três décadas.
Impacto económico já se faz sentir
No sul da Ásia, o impacto da crise energética é ainda mais severo, sobretudo em países com reservas financeiras limitadas.
Segundo a ‘Al Jazeera’, o Bangladesh ordenou o encerramento imediato de todas as universidades públicas e privadas como medida de poupança energética. No Paquistão, o Governo introduziu uma semana laboral de quatro dias para os serviços públicos, fechou escolas e autorizou trabalho remoto para metade dos funcionários do Estado.
Na Europa, os ministros das Finanças do G7 convocaram uma reunião de emergência para discutir a escalada dos preços da energia. O presidente francês, Emmanuel Macron, chegou mesmo a levantar a hipótese de libertar entre 20% e 30% das reservas estratégicas de petróleo para aliviar a pressão sobre os mercados.
Combustíveis mais caros pressionam preços dos alimentos
Os economistas alertam que a subida do preço do petróleo tende a refletir-se rapidamente nos preços dos alimentos.
A energia influencia praticamente todas as etapas da cadeia alimentar, desde a produção de fertilizantes até ao transporte de produtos agrícolas e alimentos processados.
“O transporte é a força vital da economia global”, explicou o economista David McWilliams à ‘Al Jazeera’. “Mover bens do ponto A para o ponto B é essencialmente um problema de energia e logística.”
Este tipo de choque energético também aumenta os receios de estagflação — um cenário em que a inflação sobe ao mesmo tempo que a economia abranda. Episódios semelhantes ocorreram após grandes crises petrolíferas, como em 1973, 1978 e 2008.
Nos países mais pobres, onde as famílias gastam uma maior fatia do rendimento em alimentação e dependem de importações de cereais e fertilizantes, o impacto pode traduzir-se rapidamente em escassez de alimentos.
Petróleo está presente em milhares de produtos
Para além dos combustíveis, o petróleo e o gás são matérias-primas essenciais para inúmeros produtos do dia-a-dia.
Plásticos utilizados em embalagens alimentares, garrafas, capas de telemóveis ou seringas médicas derivam diretamente do petróleo. O mesmo acontece com tecidos sintéticos como poliéster, nylon e acrílico, usados na indústria têxtil.
Segundo a análise citada pela ‘Al Jazeera’, produtos domésticos como detergentes, tintas e cosméticos também dependem de derivados petrolíferos.
Até a produção alimentar global depende do gás natural, utilizado na fabricação de fertilizantes que permitem aumentar a produtividade agrícola.






