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Imposto do gasóleo em Portugal ronda 50 cêntimos por litro, bem acima do mínimo europeu: “Governo ainda tem margem para baixar”, diz fiscalista da Deloitte

Francisco Laranjeira

Afonso Arnaldo, fiscalista da Deloitte, falou em exclusivo à ‘Executive Digest’ sobre o efeito da medida do Governo para combater o expressivo aumento dos preços dos combustíveis

A subida recente dos preços dos combustíveis voltou a colocar a fiscalidade no centro do debate público. Sempre que gasolina e gasóleo encarecem, a questão repete-se: até que ponto o Governo pode intervir no preço final através dos impostos?

Para Afonso Arnaldo, fiscalista da Deloitte, existe ainda margem para reduzir o Imposto sobre os Produtos Petrolíferos (ISP), embora a decisão seja essencialmente política.

“No caso do gasóleo, o mínimo estabelecido na diretiva europeia é de 33 cêntimos por litro. Neste momento estamos com cerca de 50 cêntimos por litro, se juntarmos o ISP e a taxa de carbono”, explica. “Ou seja, ainda existe aqui uma margem relativamente grande.”

Ainda assim, sublinha que essa margem não significa necessariamente que a redução seja desejável do ponto de vista económico. “Não sei se é uma boa prática em termos económicos. Isto são decisões políticas que têm de ter em conta fatores sociais e económicos”, afirmou o especialista.

O mecanismo que liga o ISP ao IVA

A medida atualmente utilizada pelo Governo — reduzir o ISP quando os preços internacionais sobem — não é nova. Trata-se de um mecanismo que procura neutralizar o aumento automático da receita fiscal que ocorre através do IVA. “Esta é uma medida que já vem do Governo socialista e tem uma lógica simples: compensar a receita adicional do IVA que resulta do aumento do preço dos combustíveis”, explicou o fiscalista.

Quando o preço base do combustível sobe, o IVA arrecadado pelo Estado também aumenta, porque é calculado em percentagem do preço final. A redução do ISP serve precisamente para equilibrar esse efeito. “A lógica é dizer: não queremos perder receita, mas também não queremos ganhar à conta da subida dos preços.”

Mas este equilíbrio depende de uma variável essencial: o consumo. “Se o consumo se mantiver relativamente estável, a perda de receita de ISP pode ser compensada pelo aumento da receita de IVA”, explica.

Caso contrário, o impacto nas contas públicas pode ser diferente. “Se houver uma quebra no consumo, a receita de IVA pode não ser suficiente para compensar a descida do ISP.”

O limite da intervenção do Estado

Apesar de os impostos representarem uma parte significativa do preço final dos combustíveis, o Estado tem uma margem limitada para intervir.

Portugal não produz petróleo e depende totalmente do mercado internacional. “O petróleo é um produto que temos de importar e cujo preço base não controlamos”, lembrou Afonso Arnaldo.

No que diz respeito à fiscalidade, também existem limites europeus. O IVA, por exemplo, não pode ser reduzido apenas para os combustíveis. “Não podemos aplicar uma taxa de IVA mais baixa a estes produtos. Para isso teria de se reduzir a taxa normal do IVA, que teria um impacto gigantesco na receita do Estado.”

Por isso, a principal ferramenta disponível continua a ser o ISP. “Aquilo que sobra é, de facto, o ISP, dentro dos limites definidos pela diretiva europeia.”

Quem beneficia quando os preços sobem?

Outra questão recorrente é saber quem realmente beneficia quando os combustíveis disparam. Para o fiscalista da Deloitte, a resposta começa logo na origem da cadeia. “Quem beneficia mais são os produtores de petróleo”, indicou. No entanto, no mercado interno, a situação é diferente. “O ISP é um valor fixo por litro. Portanto, quando o preço sobe, o Estado não arrecada mais ISP”, explica.

O mesmo não acontece com o IVA. “Como o IVA incide sobre o preço final, quando o preço sobe o Estado acaba por arrecadar mais receita.”

No caso recente, essa lógica aplica-se sobretudo à gasolina. “Na gasolina não houve compensação através do ISP. Portanto, assumindo que o consumo não diminui, o Estado acaba por ganhar mais receita em IVA.”

Uma década de preços mais altos

O debate atual sobre impostos surge num contexto em que os combustíveis já registaram aumentos significativos na última década. Entre 2016 e 2026, o gasóleo passou de cerca de 1,03 euros por litro para aproximadamente 1,63 euros, uma subida de cerca de 58%.

A gasolina simples 95 evoluiu de 1,31 euros para cerca de 1,70 euros por litro, um aumento de cerca de 30%. Apesar de continuar mais cara, a gasolina viu a diferença em relação ao gasóleo diminuir significativamente.

O choque energético de 2022

O momento decisivo desta evolução ocorreu em 2022, quando os combustíveis ultrapassaram pela primeira vez a barreira dos 2 euros por litro. O gasóleo atingiu cerca de 2,08 €/l, enquanto a gasolina chegou a 2,17 €/l.

Perante esta escalada, o Governo reduziu temporariamente o ISP para limitar o impacto da subida internacional do petróleo. Nos anos seguintes, o imposto foi sendo gradualmente reposto.

O peso do ISP no preço final

Atualmente, o ISP continua a ser um dos principais componentes do preço dos combustíveis.

Em termos aproximados:

Gasóleo: cerca de 0,36 euros por litro de ISP

Gasolina: cerca de 0,50 euros por litro

Isto significa que o imposto representa aproximadamente:

22% do preço final do gasóleo

29% do preço da gasolina

A diferença fiscal ajuda a explicar porque é que a gasolina se mantém consistentemente mais cara.

Um novo patamar para os combustíveis

Depois da crise energética de 2022, os preços estabilizaram num intervalo mais elevado do que o observado antes da pandemia.

Hoje, o gasóleo tende a oscilar entre 1,50 e 1,70 euros por litro, enquanto a gasolina se situa normalmente entre 1,65 e 1,85 euros.

Ou seja, o mercado passou a operar num patamar cerca de 20 a 30 cêntimos mais alto do que há uma década.

Mesmo com alguma margem para ajustes fiscais, o fator decisivo continuará a ser o preço do petróleo — um elemento que Portugal, como a maioria dos países europeus, não controla.