Há quase 50 anos, a Volkswagen decidiu colocar uma bola de golfe dentro de um dos seus automóveis mais desportivos. Não servia para jogar, não aumentava a potência do motor e não tornava o carro mais rápido. Mas acabou por se transformar num dos pormenores mais reconhecíveis da história da Golf GTI. E, por detrás daquela pequena esfera, está uma ideia espontânea de uma designer que ajudou a criar a personalidade do modelo.
Quando a primeira Volkswagen Golf GTI chegou ao mercado, em 1976, trouxe uma receita que viria a influenciar gerações de automóveis: dimensões compactas, utilização prática no dia a dia e prestações capazes de entusiasmar quem gostava de conduzir.
Mas havia um detalhe no habitáculo que não tinha qualquer relação com cavalos ou velocidade.
A manete da caixa de velocidades parecia uma pequena bola de golfe, com as características cavidades na superfície.
À primeira vista, podia parecer uma brincadeira. Na realidade, foi uma escolha de design que acabou por atravessar décadas.
Segundo o ‘Motor1’, a história deste pequeno elemento está ligada à criação da identidade da primeira GTI e a uma associação inesperada entre o nome do automóvel e o desporto.
Porque é que uma bola de golfe foi parar à manete das mudanças?
A explicação mais imediata parece evidente: o automóvel chamava-se Golf.
Mas há um pormenor curioso. O nome do modelo não terá sido originalmente escolhido por causa do desporto. É frequentemente associado à palavra alemã “Golfstrom”, que designa a corrente do Golfo.
Ainda assim, a coincidência era demasiado tentadora para passar despercebida.
Em vez de utilizar uma manete convencional, a Volkswagen optou por uma peça arredondada que reproduzia as pequenas cavidades de uma bola de golfe.
Era uma forma simples de dar personalidade à versão desportiva, distinguindo-a das restantes Golf sem alterar profundamente o interior.
E o resultado foi tão marcante que o pequeno objeto acabou por se tornar uma das assinaturas visuais da GTI.
A ideia nasceu de uma designer e foi quase por acaso
Embora o detalhe seja frequentemente associado a Herbert Schäfer, então responsável pelo design da Volkswagen e entusiasta de golfe, a ideia original partiu de Gunhild Liljequist.
A designer trabalhava nos pormenores do habitáculo da marca e procurava soluções que dessem à GTI uma personalidade própria.
“Foi uma ideia totalmente espontânea”, recordou Liljequist, citada pelo Motor1.
A criadora explicou que começou a pensar nas associações entre o desporto e o nome Golf, até lançar uma sugestão simples: porque não utilizar uma bola de golfe como manete das mudanças?
A proposta acabou por ser aprovada e tornou-se um dos elementos mais característicos da primeira geração da GTI.
Não era um acessório complexo nem uma inovação mecânica. Era apenas um pequeno detalhe, mas suficientemente diferente para permanecer na memória de quem entrava no automóvel.
Não foi o único pormenor que tornou a GTI especial
A bola de golfe fazia parte de uma identidade visual cuidadosamente construída.
A primeira Golf GTI também se distinguia pelos apontamentos vermelhos na grelha dianteira e pelos bancos com o conhecido padrão aos quadrados.
Juntos, estes elementos ajudaram a criar uma imagem desportiva sem transformar o habitáculo num espaço excessivamente extravagante.
A manete tinha ainda uma particularidade importante: era um objeto com o qual o condutor interagia constantemente.
Sempre que mudava de velocidade, voltava a tocar naquele pequeno símbolo da identidade do automóvel.
A superfície com cavidades dava-lhe uma textura própria, embora não existam razões para concluir que melhorava, por si só, a precisão da caixa de velocidades.
O verdadeiro valor estava na combinação entre funcionalidade, originalidade e ligação à história do modelo.
E porque é que a bola de golfe começou a desaparecer?
Ao longo das décadas, a Golf GTI evoluiu, ganhou potência, tecnologia e equipamentos, mas manteve várias referências ao modelo original.
A manete inspirada numa bola de golfe foi uma delas, embora nem todas as gerações ou versões tenham utilizado exatamente o mesmo desenho.
Com a evolução das caixas automáticas e a redução da presença das transmissões manuais, este detalhe perdeu parte do espaço que ocupava tradicionalmente no habitáculo.
E a eletrificação coloca uma questão adicional.
Os automóveis elétricos não precisam de uma caixa manual convencional, pelo que uma manete semelhante à das antigas GTI deixa de ter a mesma função.
Isso não significa que o desenho esteja condenado a desaparecer para sempre. A Volkswagen pode continuar a recuperar elementos históricos como referências decorativas ou em novos comandos.
Mas o futuro da pequena bola de golfe está inevitavelmente ligado à forma como a marca decidir preservar a identidade da GTI.
Quase cinco décadas depois do lançamento da primeira geração, aquele objeto continua a mostrar que nem todos os símbolos automóveis precisam de estar na grelha, no volante ou na carroçaria.
Às vezes, basta olhar para a manete das mudanças.
E perceber que uma das ideias mais memoráveis da história de um desportivo nasceu de uma pergunta tão simples como esta: porque não colocar ali uma bola de golfe?






