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“Epidemia silenciosa sobre rodas”: flagelo rouba uma vida a cada 25 segundos a nível mundial

Cerca de 1,35 milhões de pessoas morrem por ano nas estradas do mundo – e outros 20 e 50 milhões ficam gravemente feridos. Metade dessas mortes e muitas das lesões envolvem pedestres, ciclistas e motociclistas

A pandemia da Covid-19 foi responsável por estatísticas assustadoras nos últimos dois anos: 500 milhões de casos, um milhão de mortes, isto apenas nos Estados Unidos. Mas há outro flagelo global com ‘menos atenções’ que precedeu o SARS-CoV-2 e provavelmente vai sobrevivê-lo: as mortes e ferimentos nas estradas.

Cerca de 1,35 milhões de pessoas morrem por ano nas estradas do mundo – e outros 20 e 50 milhões ficam gravemente feridos. Metade dessas mortes e muitas das lesões envolvem pedestres, ciclistas e motociclistas, os utilizadores mais vulneráveis nas estradas e ruas. Ou seja, alguém morre num acidente de trânsito a cada 25 segundos. Nas Nações Unidas, as mortes e lesões nas estradas foram consideradas uma “epidemia silenciosa sobre rodas”.

John Rennie Short, professor da Escola de Políticas Públicas, na Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, garantiu, ao jornal ‘The Conversation’, que tornar os sistemas de transporte mais seguros é viável. A chave está na ação governamental, que têm de priorizar estradas, velocidades e veículos mais seguros, assim como devem promover políticas de moderação de tráfego.

Pode parecer uma hipérbole falar nas mortes nas estradas como o equivalentes a doenças pandémicas mas os números ‘não mentem’: as fatalidades nas estradas são agora a principal causa de morte de crianças e adultos jovens em todo o mundo entre as idades de 5 e 29 anos, e a sétima principal causa de morte geral em países de baixo rendimento.

Um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU é reduzir pela metade o número de mortes e ferimentos globais por incidentes de trânsito até 2030.

Há uma variação considerável nas taxas de mortalidade no trânsito em todo o mundo: em África, são 27 por 100 mil habitantes, já na Europa ‘apenas’ 7 por 100 mil habitantes.

As nações mais ricas têm tráfego de automóveis em massa há mais tempo do que os países de baixo rendimento, dispondo por isso de mais tempo para desenvolver estratégias e táticas para reduzir acidentes e fatalidades. Mas mesmo entre os países mais ricos é possível encontrarem-se diferenças: em 1994, a Europa e os Estados Unidos tinham as mesmas taxas de mortalidade no trânsito, mas em 2020 os americanos tinham três vezes mais hipóteses de morrer nas estradas do que os europeus.

Hoje, 12 pessoas morrem no trânsito por 100 mil anualmente nos EUA, em comparação com 4 por 100 mil nos Países Baixos e na Alemanha, e apenas 2 na Noruega. A diferença reflete programas mais agressivos em toda a Europa para reduzir velocidades, maior investimento em transporte de massa e fiscalização mais rígida para direção sob efeito do álcool.

Os EUA não ficam apenas atrás de outros países ricos na promoção da segurança no trânsito. Nos últimos anos, as mortes no trânsito nos EUA aumentaram. Após uma redução gradual ao longo de 50 anos, as fatalidades subiram para um recorde de 16 anos em 2021, quando quase 43 mil pessoas morreram. As mortes de pedestres atingiram um novo máximo de 40 anos, fixando-se em 7.500.

O que causou este aumento de mortes? As estradas estavam menos movimentadas durante a pandemia da Covid-19 mas proporcionalmente as pessoas envolveram-se em comportamentos mais arriscados, tais como excessso de velocidade, beber sob o efeito do álcool ou não usar cinto de segurança.

As mortes de ciclistas e pedestres no trânsito estavam a aumentar mesmo antes da pandemia, pois as cidades incentivaram caminhadas e ciclismo sem fornecer uma infraestrutura adequada – pintar uma linha branca numa rua movimentada não substitui uma ciclovia totalmente protegida.

John Rennie Short frisou que as mortes e lesões no trânsito não são acidentes, são incidentes que podem ser prevenidos e reduzidos. Para isso, é preciso que Governos reimaginem os sistemas de transporte não apenas no que toca à velocidade e eficiência mas também a segurança e habitabilidade, o que significa proteger motociclistas, ciclistas e pedestres do tráfego de veículo. Também vai exigir melhores projetos de estradas, a aplicação de leis de trânsito que tornem as estradas mais seguras e medidas mais eficazes e exequíveis que promovam dispositivos de segurança como cintos de segurança, cadeirinhas e capacetes para motociclistas.

Ao contrário da pandemia da Covid-19, tornar as ruas mais seguras não requer a criação de novas soluções em laboratórios. O que é necessário é a vontade de aplicar as ferramentas que demonstraram funcionar, finalizou o especialista.