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Entrevista: “Futuro muito próximo será elétrico, conectado e partilhado. Veículos elétricos são um processo irreversível”

Henrique Sánchez, presidente do Conselho Diretivo da Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos, abriu os horizontes e os desafios para a mudança de mentalidade dos consumidores portugueses

No passado mês de março, os veículos elétricos superaram as vendas dos veículos a gasóleo, de acordo com os dados apresentados pela Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos (UVE). O crescimento do entusiasmo dos consumidores portugueses pelos carros mais ecológicos é palpável e motivou uma entrevista com Henrique Sánchez, presidente do Conselho Diretivo da associação sediada em Lisboa, para perceber os motivos pelos quais os elétricos estão para ficar e dominar o mercado nacional num futuro próximo.

Recentemente foi revelado que as vendas dos veículos elétricos ultrapassaram as das viaturas a gasóleo. Essa tendência veio para ficar?

“O ponto de viragem foi novembro do ano passado, quando se venderam mais carros 100% elétricos, e só 100% elétricos, algo perfeitamente inimaginável há alguns anos. Desde essa altura, o que tem acontecido sucessivamente é que todos os meses vendem-se mais veículos elétricos – e aqui juntamos os 100% elétricos com os híbridos plug-in – e sistematicamente estas duas categorias de veículos vendem-se mais do que os veículos a gasóleo. Esta tendência, de queda dos veículos a gasóleo em especial mas também os veículos com motores de combustão interna, tem-se manifestado praticamente desde o início da pandemia da Covid-19. Foi o choque maior, até porque houve uma paragem abrupta de todas as atividades económicas, com repercussões grandes na indústria automóvel, com falta de peças, especialmente tudo a haver com chips, o que veio trazer problemas na distribuição e entrega quer dessas peças quer dos veículos.

Simultaneamente, a pandemia alertou-nos a todos dos efeitos nefastos das alterações climáticas, do aumento das temperaturas do planeta. Quando de repente parou tudo e vimos as cidades sem poluição atmosférica, ou com ela muito reduzida, com as cores mais limpas, até a ouvirem-se os pássaros, apercebemo-nos todos, embora pelas piores razões, do que poderiam ser os meios urbanos se não existissem veículos com motores de combustão interna, que não poluíssem tanto o ambiente. Essa é a razão pela qual, desde há dois anos, que as vendas da indústria automóvel em geral têm vindo em queda mas as vendas dos veículos elétricos esteja sempre a crescer.”

E é possível fazer uma previsão sobre este crescimento? Se falássemos dentro de um ano, conseguiria situar a implantação dos veículos elétricos no mercado nacional?

“É difícil fazer uma previsão mas tudo aponta para que se acelere ainda mais. Até porque depois há outra componente para o qual as cidades estão muito sensíveis: não só os problemas ambientais mas também os problemas de mobilidade. Há um processo que temos vindo a acompanhar até bastante antes da pandemia tanto em cidades europeias como nas americanas, de transformação das cidades, como diminuição do tamanho das ruas, aumento dos passeios, espaços de fruição para andar a pé. As cidades colapsaram no seu formato antigo, não comportam tantos carros. Tudo isto junto levou à forte diminuição dos carros a gasóleo, os mais poluidores de todos, mas também os a gasolina.

Curiosamente, neste último ano, venderam-se cada vez mais veículos elétricos em relação aos de plug-in. Há sete anos, a venda de plug-ins era superior às dos elétricos, neste momento essa relação está a alterar-se. Porquê? Porque os veículos 100% elétricos já apresentam autonomias que permitem o seu uso num país pequeno como Portugal, os híbridos plug-in são automóveis que gastam, em modo de combustão interna, bastante mais do que um carro equivalente a gasolina ou gasóleo. Os plug-in foram úteis porque serviram de porta de entrada para os carros elétricos. Mas os consumidores rapidamente perceberam que era mais fácil, prático, económico e ambientalmente saudável em modo 100% elétrico.”

Para este crescimento muito tem contribuído o entusiasmo da indústria automóvel, que oferecem cada vez mais soluções e modelos…

“Todas as marcas automóveis já dispõem de carros elétricos. Este é um processo irreversível. Portugal, como um país que não produz petróleo e tem de ser tudo importado – e temos visto como as guerras têm impactado no preço dos combustíveis -, deve acelerar a sua independência energética. Temos de usar o nosso petróleo, que é o sol, a água e o vento. Portugal é um país que produz 60% da sua eletricidade de fontes renováveis, mas é urgente que acelere fortemente para a total independência.

Mas se Portugal ‘acordasse’ um dia e de repente mudasse completamente para veículos elétricos, haveria sustentabilidade ou forma de satisfazer a necessidade?

“Isso é um dos tais mitos da indústria. Estive presente em várias conferências com administradores da EDP Comercial que me disseram que, mesmo que isso acontecesse, que é uma impossibilidade, teria um impacto de um aumento do consumo de eletricidade de 20%, o que era perfeitamente gerível. Mas isso não vai acontecer, vai demorar anos o processo de transição. Tem de demorar anos porque não há oferta suficiente, não há produção para a atual procura.

Por outro lado, um veículo elétrico é muito mais eficiente do que um veículo de combustão interna, ou seja, enquanto um motor de combustão interna apenas aproveita entre 20 e 25% da energia para se mover, o veículo elétrico consegue aproveitar entre 90 e 95% da energia produzida. Portanto, estamos a falar de cinco a seis vezes mais eficiente, o que provoca que seja necessário cinco a seis vezes menos energia para fazer andar a mesma distância.

Além de que, com um motor elétrico, consigo produzir eletricidade dentro do próprio veículo, coisa que não é possível ser feita num veículo de combustão interna. Fiz as contas, nos últimos sete anos, com um carro elétrico, 26% de toda a eletricidade que consumi no carro foi produzida pelo próprio carro.

Outra coisa que está já a acontecer já é uma produção localizada da própria eletricidade – agora temos parques eólicos muito distribuídos pelo país, vamos ter parques fotovoltaicos, barragens, mas temos algo que está a nascer ainda mais importante: a produção através de sistemas fotovoltaicos de alto consumo no local onde a eletricidade é consumida, ou seja, em grandes fábricas, hospitais, universidades, entre outros exemplos, para não falar das moradias individuais das pessoas, que têm possibilidade de produzir eletricidade, armazenar em baterias e depois utilizá-la.”

O percurso da eletrificação do parque automóvel português tem sido cumprido. Mas há medidas que poderiam ser tomadas para potenciar o crescimento. Tem alguma sugestão?

“Fizemos várias propostas à tutela da mobilidade elétrica que passam por aumento dos incentivos à aquisição de veículos elétricos. Neste momento, em termos de empresas Portugal está muito bem situado no panorama europeu e mundial. As empresas conseguem recuperar o IVA, estão isentas de tributação autónoma, além de isentas de IUC e ISV. Num ligeiro de mercadorias existe também um incentivo de 6 mil euros na aquisição de viaturas. Mas a nível particular, não tanto, porque temos a isenção do IUC, do ISV e um incentivo de 4 mil euros pela aquisição de veículo ligeiro de passageiros. Eram precisos mais incentivos para a aquisição de um automóvel elétrico – a médio europeia está nos 6 mil euros e em Portugal estamos nos 4 mil euros.

Têm de existir políticas públicas do Governo, através do Fundo Ambiental, para utilizar fundos para abrir estações de carregamento de multicarregadores no interior do país, para depois serem concessionados a operadores privados. Nesta altura, o que as pessoas mais precisam? O preço do elétrico é ainda um pouco superior a um veículo do mesmo segmento de combustão interna e por isso o incentivo é uma questão importante para equilibrar o preço – 5, 6 mil euros é a diferença de preço entre carros do mesmo segmento com motorizações diferentes.

Outro é haver uma rede pública suficientemente instalada por todo o território nacional, que permita às pessoas não terem ansiedade de fazer uma viagem. Isso hoje já é possível. Tudo o que estamos a assistir não é só a eletrificação da mobilidade, é uma revolução total na forma como usamos a energia para nos movimentar e abre um conjunto de negócios totalmente diferentes. Portugal é o 4º país com mais postos de carregamento por cada 100 km de estradas mas ainda há um longo caminho.”

E sente abertura do Governo e dos responsáveis políticos para continuar a trilhar este caminho elétrico?

“Essa é parte mais difícil. Tudo o que seja mudar de hábitos é complicado. Veja-se o caso da E-REDES, por exemplo. Se eu quiser construir uma moradia, e colocar o processo na E-REDES para instalação de um ramal para a eletricidade, vai demorar 8 ou 10 meses para darem uma resposta. Mas na mobilidade elétrica é imediata, ao fim de uma semana posso ter um carregador na rua. Se o processo do ramal continuar a demorar esse tempo, torna-se inviável. Esse processo tem de ser agilizado. Mas esta mudança nestas empresas, que sempre trabalharam com timings próprios, é complicada.

O futuro muito próximo será elétrico, conectado e partilhado. Estão para chegar uma série de soluções. Um carro elétrico com condução autónoma vai permitir grandes avanços em termos de sinistralidade, o que vai ter um reflexo nos seguros, porque o nível de sinistralidade vai diminuir substancialmente. Essa componente autónoma ainda está embrionária, está a nascer, vai desenvolver-se rapidamente. Hoje em dia é muito difícil prever o que vai acontecer dentro de 5 ou 10 anos. As coisas estão a evoluir muito rapidamente. É um turbilhão de alterações.”