A classe política alemã está a prometer travar o plano da Volkswagen para cortar até 100 mil empregos e encerrar quatro fábricas no país, numa batalha que coloca o Governo de Friedrich Merz perante a crise cada vez mais profunda da indústria automóvel alemã.
Segundo o ‘POLITICO’, a proposta da administração da Volkswagen, revelada pela revista alemã ‘Manager Magazin’, deverá ser apresentada ao conselho de supervisão do grupo em julho. O plano, que poderá representar uma das maiores vagas de despedimentos empresariais de sempre, prevê o corte de quase um em cada seis trabalhadores da empresa.
Mas a decisão está longe de depender apenas da administração. A estrutura acionista da Volkswagen dá um peso determinante a políticos e sindicatos, que têm assento no conselho de supervisão e podem bloquear ou alterar profundamente a reestruturação.
A reação política não tardou. O Governo alemão sinalizou oposição aos cortes e prometeu defender os postos de trabalho e as unidades de produção. “O objetivo principal é preservar os locais de produção dos fabricantes alemães e proteger empregos”, afirmou Stefan Kornelius, porta-voz do chanceler Friedrich Merz.
A resistência é particularmente forte na Baixa Saxónia, onde se situa Wolfsburgo, sede histórica da Volkswagen. O estado regional é o segundo maior acionista com direito de voto da empresa, o que dá aos seus representantes um poder relevante sobre decisões estratégicas.
Olaf Lies, ministro-presidente social-democrata da Baixa Saxónia, tem assento no conselho de supervisão da Volkswagen, tal como Julia Willie Hamburg, vice-ministra-presidente do estado e dirigente dos Verdes. Ambos já prometeram resistir ao plano de cortes.
Lies defende que a administração da Volkswagen deve apresentar uma estratégia para recuperar competitividade e quota de mercado, em vez de assentar a resposta à crise em despedimentos e encerramento de fábricas. “A nossa tarefa deve ser garantir que não procuramos soluções através de medidas simplistas como ‘vamos despedir trabalhadores ou fechar locais’”, afirmou à televisão pública ZDF.
A votação no conselho de supervisão estará prevista para 9 de julho. Mas, segundo o ‘POLITICO’, os representantes dos trabalhadores e os políticos estaduais detêm atualmente 11 dos 19 votos, o que torna improvável a aprovação do plano sem alterações substanciais ou garantias adicionais para os trabalhadores.
A pressão sobre a coligação de Merz é também eleitoral. A Alternativa para a Alemanha, AfD, tem explorado a perda de empregos industriais para atacar o Governo e lidera sondagens nacionais, além de surgir particularmente forte em dois estados do antigo leste alemão que terão eleições em setembro.
Alice Weidel, uma das líderes da AfD, afirmou que “a base industrial da Alemanha está a desmoronar-se a um ritmo dramático” e acusou empresas históricas de fugirem à “má gestão económica” do Governo federal.
A crise na Volkswagen tornou-se, assim, um problema político de primeira ordem. Para o Governo, o desafio é prometer a defesa do emprego sem ignorar a realidade económica de um setor automóvel pressionado pela concorrência chinesa, pela transição elétrica, pelos custos elevados e pelas tarifas impostas pelo Presidente dos EUA, Donald Trump.
A administração da Volkswagen, liderada por Oliver Blume, tem vindo a endurecer a posição. Depois de acordar com os sindicatos o corte de 35 mil empregos até 2030, no final de 2024, o grupo agravou em março a meta para 50 mil postos de trabalho. Agora, a possibilidade de duplicar esse número para 100 mil provocou uma reação política muito mais forte.
Em comunicado enviado ao ‘POLITICO’, a Volkswagen disse não comentar documentos internos e confidenciais, mas reconheceu que todo o grupo, incluindo marcas e subsidiárias, terá de passar por uma “transformação profunda”. A empresa afirmou ainda que a administração tem trabalhado nos últimos meses num plano estratégico de reestruturação.
Um dos cenários mais sensíveis será a eventual separação de partes da empresa numa nova entidade. Especialistas admitem que esse modelo poderia dar à administração maior liberdade para decidir sobre fábricas e empregos, reduzindo o peso das atuais regras de governação, da participação pública e da representação sindical.
Helena Wisbert, professora de economia automóvel na Ostfalia University of Applied Sciences, considerou que uma tentativa desse tipo seria “muito radical” e difícil de concretizar, porque teria de ser aprovada pelo atual conselho de supervisão. Ainda assim, se a opção estiver realmente em cima da mesa, isso mostraria “quão intensa é atualmente a pressão para cortar custos”.
Para Grant Hendrik Tonne, ministro da Economia da Baixa Saxónia, o estado espera que a administração da Volkswagen apresente “um plano viável para o futuro”. “O encerramento de fábricas não é um plano para o futuro e, por isso, é inaceitável”, afirmou ao POLITICO.
O confronto em torno da Volkswagen expõe o dilema alemão: a classe política promete salvar empregos e fábricas, mas a maior fabricante automóvel do país diz precisar de uma transformação profunda para enfrentar uma realidade económica cada vez mais dura.





