A histórica fabricante italiana Iveco passou para o controlo da indiana Tata Motors, numa operação avaliada em 3.800 milhões de euros que promete transformar o mercado mundial dos veículos comerciais. O negócio, apresentado oficialmente em Turim, cria um grupo com mais de 73 mil trabalhadores, 27 centros de produção e uma faturação anual combinada de aproximadamente 21 mil milhões de euros.
Segundo o ‘El Economista’, a aquisição representa uma das maiores operações de compra de um fabricante automóvel europeu por um grupo asiático, numa altura em que a indústria atravessa uma profunda transformação tecnológica e enfrenta uma concorrência global cada vez mais intensa.
A Tata Motors concluiu a oferta pública de aquisição através da subsidiária TML CV Holdings BV, passando a controlar 89,42% do capital da Iveco, o equivalente a aproximadamente 238,2 milhões de ações.
A operação foi realizada ao preço de 14,40 euros por ação e representa uma mudança histórica para a fabricante italiana, anteriormente controlada pela família Agnelli através da Exor.
Uma operação de 3.800 milhões de euros que muda o setor
A aquisição tinha sido anunciada em julho de 2025, mas dependia de uma reorganização do Grupo Iveco.
Uma das condições era a separação da divisão de defesa, que acabou por ser adquirida pelo grupo italiano Leonardo por 1.700 milhões de euros.
Concluída essa etapa, a Tata avançou com a aquisição do negócio de veículos comerciais e industriais, incluindo algumas das marcas mais importantes do setor europeu.
Além da Iveco, o grupo indiano passa a integrar a FPT, especializada em sistemas de propulsão, a Iveco Bus e a Heuliez, ligadas ao transporte coletivo de passageiros, e a Iveco Capital, dedicada aos serviços financeiros.
Os acionistas que ainda não aceitaram a oferta terão uma última oportunidade para vender as suas participações, durante o período adicional de aceitação previsto entre 2 e 6 de novembro.
A liquidação das ações adquiridas nessa fase está prevista para 13 de novembro.
“Não se trata de uma consolidação. Trata-se do futuro”
Durante a apresentação da integração das duas empresas, realizada na Vila Industrial da Iveco, em Turim, N. Chandrasekaran, presidente da Tata Sons, da Tata Motors e do Grupo Iveco, procurou afastar a ideia de que a operação se resume a uma aquisição destinada a aumentar a dimensão do negócio.
“Não se trata de uma consolidação. Trata-se do futuro. Estamos a unir duas empresas icónicas para criar um futuro de maior alcance”, afirmou, citado pelo ‘El Economista’.
O responsável explicou que a estratégia passa por combinar as capacidades industriais, tecnológicas e comerciais das duas fabricantes, reforçando a sua presença nos mercados internacionais.
A aposta inclui o desenvolvimento de novas tecnologias e soluções de mobilidade, num setor em que os veículos comerciais continuam a desempenhar um papel fundamental no transporte de mercadorias, passageiros e equipamentos.
Chandrasekaran considera que a indústria está perante uma transformação profunda e que a nova estrutura poderá beneficiar da experiência acumulada pelas duas empresas.
E o que acontece às fábricas europeias da Iveco?
Uma das principais incógnitas da aquisição está relacionada com o futuro das unidades industriais europeias, particularmente em Espanha.
A Iveco possui duas fábricas no país vizinho, localizadas em Madrid e Valladolid, herdadas da histórica fabricante espanhola Pegaso, adquirida em 1990.
Questionado sobre os investimentos previstos para estas instalações, Chandrasekaran evitou assumir compromissos concretos.
O presidente do grupo explicou que será necessário analisar as capacidades de produção de cada fábrica e determinar a melhor forma de distribuir os diferentes modelos pelos mercados nacionais e internacionais.
“Seria muito prematuro falar agora sobre todas as possibilidades que estão a abrir-se”, afirmou.
O responsável acrescentou que a prioridade passa por compreender as capacidades existentes, trabalhar com as equipas locais e garantir a competitividade do investimento a longo prazo.
A Tata não especificou quanto pretende investir em cada unidade industrial, nem anunciou alterações concretas à produção.
A importância das fábricas espanholas é significativa. Segundo os dados citados pelo ‘El Economista’, a unidade de Madrid produziu 20.300 veículos no último ano, enquanto Valladolid atingiu 20.600 unidades.
A subsidiária espanhola da Iveco registou uma faturação de 2.870 milhões de euros, menos 9,3% do que no exercício anterior, e um lucro líquido de 56 milhões de euros, uma quebra de 47%.
Nasce o quarto maior fabricante mundial de veículos comerciais pesados
A integração da Iveco na Tata Motors dará origem a um grupo com uma presença industrial e comercial em seis continentes.
A nova estrutura contará com 27 centros de produção, 25 instalações de investigação e desenvolvimento e uma rede superior a 9.300 pontos de venda e assistência técnica.
Em conjunto, as duas empresas passarão a ocupar a quarta posição mundial no segmento dos veículos comerciais acima de seis toneladas, considerando o volume de vendas.
O grupo terá ainda mais de 73 mil trabalhadores e uma faturação anual combinada próxima dos 21 mil milhões de euros.
A dimensão internacional é um dos principais argumentos apresentados pelas duas fabricantes para justificar a operação, permitindo combinar mercados, redes comerciais e conhecimentos tecnológicos.
A Iveco vai manter o nome?
Apesar da mudança de controlo acionista, a direção da nova estrutura garante que pretende preservar a identidade e o posicionamento das diferentes marcas.
A Iveco deverá, por isso, continuar a operar com a sua designação histórica, beneficiando da integração no grupo indiano.
Entre as prioridades anunciadas está o desenvolvimento de tecnologias multienergéticas, procurando responder às diferentes necessidades dos mercados onde as empresas estão presentes.
Girish Wagh, diretor-executivo da Tata Motors, e Olof Persson, diretor-executivo do Grupo Iveco, defenderam que a integração deverá decorrer de forma gradual, procurando assegurar estabilidade para clientes, concessionários, fornecedores e parceiros.
A aquisição encerra, assim, um capítulo importante da história industrial italiana e abre outro para a Iveco, que passa a integrar um dos maiores grupos mundiais de veículos comerciais.
A marca mantém as suas raízes europeias, mas as decisões estratégicas sobre o seu futuro passam agora a estar nas mãos da Tata Motors.






