Durante mais de um século, a missão foi sempre a mesma: receber peças, montar automóveis e enviá-los para as estradas. Mas uma das fábricas mais antigas da Alemanha prepara-se para fazer precisamente o contrário. A Volkswagen inaugurou uma linha industrial destinada a desmontar veículos, recuperar componentes e dar-lhes uma segunda vida. Por detrás desta mudança está também uma preocupação: o futuro da própria fábrica.
A história passa-se em Zwickau, no leste da Alemanha, uma cidade onde se produzem automóveis desde 1904. Ao longo de mais de 120 anos, a região acompanhou várias transformações da indústria automóvel, mas poucas terão sido tão invulgares como esta.
Segundo a revista francesa ‘L’Automobile Magazine’, a Volkswagen acaba de inaugurar uma linha de desmontagem que vai funcionar em paralelo com a produção de automóveis elétricos. O objetivo é recuperar peças e matérias-primas de veículos que, de outra forma, poderiam acabar por ser destruídos.
A novidade chega, contudo, num momento particularmente delicado para o construtor alemão, que está a reestruturar a sua atividade industrial e a avaliar o futuro de várias fábricas.
Uma linha de montagem que funciona ao contrário
A ideia é relativamente simples: em vez de juntar milhares de componentes para construir um automóvel, a Volkswagen vai desmontar veículos de forma organizada, separando aquilo que ainda pode ser utilizado daquilo que deverá seguir para reciclagem.
A nova instalação começou por receber veículos de pré-série, utilizados durante as fases de desenvolvimento e testes. Progressivamente, passará também a trabalhar com automóveis em fim de vida.
As peças recuperadas, depois de verificadas, poderão voltar ao mercado através da rede de concessionários, oficinas e distribuidores de componentes.
Portas, para-choques, motores e caixas de velocidades estão entre os componentes com potencial de reutilização. Já os materiais que não possam voltar a ser utilizados como peças poderão servir de matéria-prima para novos produtos.
De acordo com a Volkswagen, a linha dispõe inicialmente de oito estações de trabalho e permitirá desmontar cerca de 4.100 automóveis por ano a partir de 2027, com uma equipa de 100 trabalhadores que receberam formação específica.
A ambição é aumentar progressivamente esta capacidade até aos 15.000 veículos anuais em 2030.
Mas há uma razão menos animadora para esta transformação
Zwickau não é uma fábrica qualquer. Foi um dos principais símbolos da aposta da Volkswagen na mobilidade elétrica, tendo abandonado a produção de automóveis com motores de combustão em 2020 para se concentrar nos elétricos.
Agora, o seu futuro está envolto em incerteza.
Segundo a ‘Reuters’, a fábrica integra o conjunto de instalações alemãs cujo futuro está a ser reavaliado no âmbito da reestruturação do grupo. Atualmente, não existe produção automóvel assegurada para Zwickau depois de 2031.
É neste contexto que surge o novo centro de economia circular, apresentado como uma oportunidade para criar atividade industrial e preservar empregos.
A Volkswagen prevê investir até 90 milhões de euros no projeto, que contará também com um apoio de até 10,7 milhões de euros do estado alemão da Saxónia.
A longo prazo, a nova atividade poderá assegurar até 1.000 postos de trabalho. Ainda assim, este número está longe de corresponder à dimensão da fábrica, onde cerca de 8.000 empregos enfrentam incerteza devido aos planos de reestruturação.
Desmontar carros poderá ser parte do futuro da indústria?
A Volkswagen acredita que sim. Ao recuperar componentes e matérias-primas, o construtor pretende reduzir desperdícios, diminuir a dependência de recursos e criar novas oportunidades de negócio.
A estratégia enquadra-se no conceito de economia circular, que procura prolongar a vida útil dos materiais e reduzir a necessidade de produzir constantemente novos componentes.
Mas há uma questão fundamental por responder: será esta atividade suficientemente rentável para garantir o futuro de uma instalação industrial desta dimensão?
Especialistas ouvidos pela ‘Reuters’ alertam que o projeto continua a ter um caráter experimental e que a sua viabilidade económica ainda terá de ser demonstrada.
Por enquanto, Zwickau continuará a construir automóveis, mas passará também a desmontá-los. Uma inversão curiosa para uma fábrica com mais de 120 anos de história e, sobretudo, um sinal das profundas mudanças que estão a transformar a indústria automóvel europeia.






