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Explicador: O que são os combustíveis sintéticos e será que o seu carro pode utilizá-los?

Explicador: O que são os combustíveis sintéticos e será que o seu carro pode utilizá-los?
Francisco Laranjeira

A possibilidade de utilizar combustíveis produzidos sem recorrer diretamente ao petróleo tem despertado o interesse de fabricantes como a Porsche. No entanto, há diferenças importantes entre o potencial da tecnologia e a sua utilização no dia a dia

Imagine que continua a conduzir o seu automóvel a gasolina, mas o combustível que coloca no depósito já não é produzido a partir de petróleo. É essa a promessa dos combustíveis sintéticos, conhecidos como e-fuels. A tecnologia já existe e pode ajudar a prolongar a vida dos motores a combustão. Mas será que funciona em qualquer carro? E é realmente uma alternativa mais ecológica?

A possibilidade de utilizar combustíveis produzidos sem recorrer diretamente ao petróleo tem despertado o interesse de fabricantes como a Porsche. No entanto, há diferenças importantes entre o potencial da tecnologia e a sua utilização no dia a dia.

Como se produz gasolina sem petróleo?

Os e-fuels são produzidos utilizando eletricidade, hidrogénio e uma fonte de carbono.

O processo começa com a utilização de eletricidade, idealmente renovável, para produzir hidrogénio a partir da água. Este é depois combinado com dióxido de carbono capturado da atmosfera ou de outras fontes, permitindo criar combustíveis com características semelhantes às da gasolina ou do gasóleo.

Segundo o Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), uma das vantagens destes combustíveis é a possibilidade de aproveitar motores e infraestruturas já existentes.

Contudo, a sua produção exige muita energia e continua a ser dispendiosa.

O seu carro pode utilizar combustíveis sintéticos?

Em muitos casos, sim.

Os combustíveis sintéticos podem ser formulados para cumprir as mesmas especificações da gasolina ou do gasóleo convencionais. Quando isso acontece, podem funcionar em motores compatíveis sem necessidade de alterações mecânicas.

São os chamados combustíveis drop-in, concebidos para substituir diretamente os combustíveis tradicionais.

Mas há uma condição importante: o combustível tem de cumprir as especificações exigidas pelo fabricante do automóvel. Não basta ser apresentado como sintético para poder ser utilizado em qualquer motor.

A Porsche já demonstrou esta possibilidade com o projeto Haru Oni, no Chile, onde são produzidos e-fuels a partir de energia eólica. A marca utilizou o combustível num Porsche 911 e também o levou à competição automóvel.

São realmente mais ecológicos?

Podem ser, mas não significa que deixem de existir emissões.

Um automóvel alimentado por e-fuels continua a libertar CO₂ pelo escape, além de outros poluentes associados à combustão.

A vantagem está no processo de produção. Quando o carbono utilizado foi previamente capturado e a energia necessária é renovável, é possível reduzir substancialmente as emissões de gases com efeito de estufa ao longo do ciclo de vida do combustível.

O benefício depende, porém, da origem da eletricidade, da forma como o carbono é obtido e da eficiência da produção.

Há ainda outro obstáculo: transformar eletricidade em combustível líquido e depois queimá-lo num motor implica perdas de energia consideráveis. Por isso, para automóveis ligeiros, os e-fuels são menos eficientes do que utilizar diretamente essa eletricidade num veículo elétrico.

E depois de 2035? Podem salvar os motores a combustão?

A União Europeia estabeleceu uma meta de redução de 100% das emissões de CO₂ dos automóveis novos a partir de 2035. Entretanto, a Comissão Europeia apresentou uma proposta para flexibilizar essa exigência, abrindo espaço a mecanismos associados aos combustíveis renováveis.

O debate político continua, mas importa distinguir propostas de legislação aprovada. Também é importante esclarecer que as regras relativas aos automóveis novos não significam que os veículos a gasolina ou gasóleo já existentes fiquem automaticamente proibidos de circular em 2035.

Os e-fuels poderão contribuir para manter motores a combustão em utilização, mas a produção limitada, os custos elevados e a menor eficiência energética continuam a impedir a sua generalização.

Afinal, vale a pena apostar nos combustíveis sintéticos?

Os combustíveis sintéticos mostram que o futuro dos motores a combustão não depende necessariamente apenas do petróleo.

A possibilidade de aproveitar automóveis já existentes é uma vantagem, sobretudo num parque automóvel que não será substituído de um dia para o outro.

Mas isso não significa que todos os condutores possam começar já a abastecer com e-fuels, nem que estes representem uma solução ambiental ou economicamente equivalente à eletrificação.

Para quem tem um automóvel a gasolina ou a gasóleo, a resposta é simples: poderá ser possível utilizar combustíveis sintéticos compatíveis sem modificar o motor. O verdadeiro desafio será produzi-los em quantidade suficiente, com baixas emissões e a preços acessíveis.

A tecnologia já funciona. Falta perceber quando poderá chegar ao depósito do condutor comum.

Os combustíveis sintéticos podem dar uma nova vida aos motores a combustão, mas não são a única alternativa. Descubra se os combustíveis renováveis podem salvar os carros a gasolina e gasóleo na Europa, o que está realmente em causa nas negociações europeias sobre o futuro do automóvel e como o novo comparador da ERSE já inclui o HVO nos preços dos combustíveis em Portugal.