Um condutor muda de faixa sem sinalizar, outro trava inesperadamente e um peão hesita antes de atravessar a estrada. São situações comuns no trânsito, mas representam desafios complexos para os sistemas de condução automatizada. Como pode um automóvel antecipar comportamentos que nem sempre seguem regras previsíveis?
Foi para ajudar a responder a esta questão que nasceu o BERTHA, um projeto europeu que, após três anos de investigação, apresentou em Bruxelas ferramentas destinadas a aproximar os sistemas de condução automatizada da forma como os humanos percebem e interpretam o trânsito.
Financiado pelo programa Horizonte Europa, o projeto desenvolveu modelos de comportamento humano, plataformas de simulação e metodologias para testar a resposta de futuros veículos automatizados perante diferentes situações de condução.
Em comunicado, a FI Group by EPSA Portugal, uma das entidades participantes, explica que o objetivo passa por tornar estes sistemas mais previsíveis e capazes de lidar com a diversidade de comportamentos encontrados nas estradas.
O problema dos carros autónomos não é apenas ver a estrada
Reconhecer um automóvel, um sinal de trânsito ou um peão é apenas uma parte do trabalho de um sistema de condução automatizada.
O desafio seguinte é interpretar o que esses elementos podem fazer.
Um condutor pode aproximar-se de um cruzamento e hesitar antes de avançar. Outro pode reagir de forma inesperada perante um obstáculo. E dois automobilistas podem tomar decisões diferentes perante a mesma situação.
Para estudar estas diferenças, os investigadores do BERTHA desenvolveram modelos que procuram reproduzir aspetos da perceção, atenção, tomada de decisão e resposta emocional dos condutores.
O projeto permitiu identificar diferentes padrões de comportamento e criar ferramentas para os integrar em cenários virtuais de condução.
E se fosse possível testar milhares de comportamentos antes de chegar à estrada?
Uma das aplicações apresentadas em Bruxelas consiste na introdução de diferentes perfis de condutores em ambientes de simulação.
Desta forma, os investigadores podem avaliar como um sistema automatizado responde a situações de trânsito complexas, incluindo comportamentos humanos distintos.
O projeto desenvolveu também ferramentas para gerar cenários de condução e uma plataforma denominada Open Human Behaviour Data HUB, destinada ao armazenamento, partilha e análise de dados comportamentais.
Estas soluções poderão apoiar fabricantes e investigadores no desenvolvimento e na avaliação de sistemas avançados de assistência à condução e de tecnologias de condução automatizada.
No entanto, os resultados apresentados não significam que os automóveis já consigam reproduzir todas as capacidades de interpretação e decisão de um condutor humano.
O comunicado também não apresenta indicadores quantitativos que permitam concluir quanto estas ferramentas poderão melhorar a segurança rodoviária.
A confiança dos condutores continua a ser um desafio
A questão da confiança esteve igualmente em destaque no evento final do BERTHA, que reuniu investigadores, representantes da indústria automóvel e decisores políticos.
A FI Group by EPSA Portugal, responsável pelas atividades de comunicação, divulgação e exploração dos resultados, participou numa mesa-redonda dedicada ao que será necessário para os europeus confiarem na condução automatizada.
“Os resultados alcançados pelo BERTHA demonstram a importância de integrar o comportamento humano no desenvolvimento de sistemas automatizados. Ao aproximar a tecnologia das necessidades, expectativas e reações dos condutores, o projeto contribui para uma mobilidade mais segura, eficiente e amplamente aceite pela sociedade”, afirma Bruna Fonseca, responsável pela Equipa de Projetos Europeus da FI Group by EPSA Portugal.
Com a conclusão do projeto, os modelos e ferramentas desenvolvidos poderão servir de base a futuras iniciativas europeias de investigação e desenvolvimento na área da mobilidade automatizada.
O desafio, porém, mantém-se: não basta que um carro consiga identificar o que acontece à sua volta. Para circular num ambiente tão imprevisível como o trânsito, também precisa de conseguir antecipar aquilo que os outros podem fazer a seguir.






