Está na frente de alguns dos automóveis italianos mais conhecidos do mundo, mas há um pormenor no símbolo da Alfa Romeo que muitos condutores nunca observaram com atenção. Ao lado de uma cruz vermelha, surge uma enorme serpente coroada, com uma pequena figura humana junto à boca. A imagem parece saída de uma lenda medieval e, curiosamente, a história da sua chegada aos automóveis começa com um homem à espera de um elétrico.
Para descobrir a origem do emblema, é preciso recuar a 1910, a Milão, cidade onde nasceu a empresa que viria a tornar-se a Alfa Romeo.
Na altura, a marca chamava-se A.L.F.A., sigla de Anonima Lombarda Fabbrica Automobili, e precisava de um símbolo para colocar na frente dos seus primeiros automóveis.
A solução não surgiu numa pista de corridas nem numa oficina. Segundo a história oficial contada pela Alfa Romeo, nasceu de uma observação feita nas ruas de Milão.
Um elétrico, um castelo e uma ideia inesperada
Romano Cattaneo, um jovem desenhador, esperava pelo elétrico número 14 na Piazza Castello quando reparou num símbolo representado na Torre della Filarete, do Castelo Sforzesco.
Era o Biscione, uma serpente associada à família Visconti, que governou Milão durante a Idade Média.
Cattaneo ficou impressionado com a imagem e partilhou a ideia com Giuseppe Merosi, responsável pelo desenvolvimento dos primeiros automóveis da A.L.F.A.
O desenho acabou por reunir dois símbolos históricos da cidade: a serpente dos Visconti e a cruz vermelha sobre fundo branco, associada a Milão.
Tudo foi colocado dentro de um círculo azul, com as inscrições “A.L.F.A.” e “MILANO” em dourado.
Ugo Stella, responsável pela empresa, aprovou a proposta. E assim nasceu, em 1910, um dos emblemas mais reconhecíveis da indústria automóvel.
Mas o que está a serpente a engolir?
É aqui que a história se torna ainda mais curiosa.
O Biscione é tradicionalmente representado como uma grande serpente, muitas vezes coroada, com uma figura humana junto à boca.
A imagem tem raízes na heráldica medieval e está rodeada de interpretações e lendas. Algumas tradições descrevem a figura como uma criança; outras associam-na a um inimigo derrotado.
Também não existe uma leitura universalmente aceite sobre se a serpente está a engolir ou a expelir a figura humana.
O que se sabe com segurança é que a Alfa Romeo não inventou a imagem. Foi buscá-la a um símbolo histórico de Milão, ligado à família Visconti, e transformou-a numa parte permanente da identidade da marca.
Por isso, o emblema não representa uma serpente escolhida apenas por parecer feroz ou desportiva. Representa, acima de tudo, as origens milanesas do fabricante.
E a cruz vermelha? Também tem uma explicação
A outra metade do símbolo é mais simples de interpretar.
A cruz vermelha sobre fundo branco é um emblema histórico de Milão. Ao juntá-la ao Biscione, a A.L.F.A. criou uma ligação visual imediata à cidade onde tinha sido fundada.
E essa ligação sobreviveu a mais de um século de transformações.
Em 1919, com a entrada do nome Romeo na identidade da empresa, o emblema passou a apresentar a inscrição “ALFA ROMEO”.
Em 1925, a vitória do Alfa Romeo P2 no primeiro Campeonato do Mundo de Grandes Prémios levou à introdução de uma coroa de louros à volta do símbolo.
Já em 1972, o nome “MILANO” desapareceu do emblema, numa altura em que a marca expandia a sua produção para fora da cidade.
O desenho voltou a ser modernizado em várias ocasiões, incluindo em 2015, mas os dois elementos fundamentais permaneceram: a cruz e a serpente.
Um símbolo que continua a contar a mesma história
Mais de 115 anos depois da fundação da A.L.F.A., o Biscione continua presente nos automóveis da marca.
E talvez seja essa a parte mais interessante de toda a história.
Aquilo que hoje vemos na frente de um Alfa Romeo não nasceu de uma campanha de publicidade nem de uma tentativa de criar um símbolo agressivo para um automóvel desportivo.
Nasceu da história de uma cidade, de um brasão medieval e, segundo o relato preservado pela própria marca, de uma ideia que surgiu enquanto um jovem esperava pelo elétrico número 14.
Da próxima vez que encontrar um Alfa Romeo estacionado, olhe com atenção para o emblema.
Há uma boa hipótese de descobrir um pormenor que nunca tinha reparado. E de perceber que, por vezes, uma pequena imagem consegue contar uma história muito maior do que o automóvel onde está colocada.






