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David Correia, Diretor de Mobilidade do Cetelem
Opinião
David Correia, Diretor de Mobilidade do Cetelem

Mobilidade Sustentável: Da ambição verde ao desafio financeiro

A transição energética parece reunir um consenso: queremos uma mobilidade mais sustentável

A transição energética parece reunir um consenso: queremos uma mobilidade mais sustentável. Mas num contexto, em que o aumento do preço do petróleo continua a pesar no orçamento dos condutores portugueses, acelerar esta mudança esbarra num desafio evidente: a sua viabilidade financeira.

Antes de perspetivarmos o sucesso de qualquer transição sustentável, precisamos de olhar para a aposta energética associada ao mercado automóvel em Portugal. Os últimos dados do Observador Cetelem Auto 2026 indicam que 92% dos portugueses reconhecem a importância de reduzir o impacto ambiental mas a adoção destas alternativas continua a deparar-se com uma barreira evidente: a capacidade financeira.

A ligação dos portugueses ao automóvel permanece forte, mas o obstáculo está, cada vez mais, na capacidade para os adquirir. A compra de um carro tornou-se um desafio financeiro para os portugueses, com 93% a considerarem os veículos novos demasiado caros. Como consequência, mais de metade dos portugueses (53%) planeia adquirir um veículo em segunda mão, vendo no mercado de usados a opção viável no imediato. É uma escolha financeiramente compreensível, mas que acaba por contribuir para o envelhecimento progressivo da frota automóvel nacional.

É com este desafio económico que a transição energética procura ganhar espaço. Os dados do Mobility Consumer Index de 2026, da EY, ajudam a perceber o contexto: a inflação e os custos iniciais de aquisição tornaram-se o principal travão à adoção de veículos elétricos, ultrapassando a apreensão com a autonomia das baterias. O obstáculo deixou de ser apenas tecnológico, é também financeiro. Na prática, a sociedade quer circular pela “via verde” da sustentabilidade, mas depara-se com uma “portagem” que muitas famílias não conseguem pagar.

Neste contexto, a indústria europeia tem procurado reavaliar a sua oferta, apostando em modelos elétricos de entrada de gama, mais compactos e acessíveis. Uma resposta que vai ao encontro daquilo que os consumidores esperam: 62% dos portugueses preferem viaturas novas que sejam mais simples e baratas, dispensando equipamentos não essenciais para reduzir o preço final. A capacidade de combinar inovação, escala industrial e preços competitivos é uma das condições estruturais para que a mobilidade sustentável seja acessível às famílias.

Contudo, a democratização da mobilidade sustentável não depende exclusivamente dos fabricantes; requer também um enquadramento de políticas públicas que ofereça maior previsibilidade e confiança ao consumidor. Os dados do Observador Cetelem mostram que quatro em cada cinco portugueses considerarem os apoios estatais pouco claros e instáveis. Para as famílias que ponderam investir num elétrico, a estabilidade das regras e dos incentivos pode ser determinante para transformar a intenção numa compra efetiva.

A resposta à mobilidade do futuro tem, por isso, de ser inclusiva e adaptada ao poder de compra real. A indústria tem o desafio de continuar a trabalhar para tornar os veículos eletrificados mais

acessíveis e as políticas públicas (fiscalidade, incentivos à compra e ou ao carregamento, infraestrutura de carregamento, ….) devem contribuir para criar condições de maior previsibilidade e confiança. Só assim é possível transformar a vontade de mudança numa verdadeira decisão de compra e abrir, de facto, a “via verde” da mobilidade a todos.