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Os carros elétricos estão a mudar as regras na Europa: há cada vez mais modelos abaixo dos 25 mil euros e as vendas dispararam

Francisco Laranjeira

Entre janeiro e agosto, foram matriculados 1,64 milhões de automóveis totalmente elétricos na União Europeia, um crescimento de 45% face ao mesmo período de 2025

Durante anos, um dos principais argumentos contra os automóveis elétricos foi o preço. Havia poucos modelos acessíveis, a oferta concentrava-se nos segmentos mais caros e muitos condutores continuavam a olhar para a eletrificação como uma alternativa fora do seu orçamento.

Mas 2026 está a alterar esse cenário. Os fabricantes multiplicaram os lançamentos, os elétricos mais baratos começaram a ganhar espaço e a subida dos combustíveis tornou a comparação com os automóveis a gasolina e gasóleo ainda mais relevante.

Os números ajudam a perceber a dimensão da mudança: entre janeiro e agosto, foram matriculados 1,64 milhões de automóveis totalmente elétricos na União Europeia, um crescimento de 45% face ao mesmo período de 2025.

Segundo um relatório da organização ambiental Transport & Environment (T&E), citado pelo ‘El Economista’, a transformação não acontece por acaso. As metas europeias de redução das emissões de CO2 estão a pressionar os fabricantes a alargar a oferta e, sobretudo, a apresentar propostas mais acessíveis.

Quase 100 novos elétricos num único ano?

A velocidade dos lançamentos é um dos indicadores mais expressivos.

Só no primeiro semestre de 2026 chegaram ao mercado europeu quase 40 novos modelos elétricos, elevando a oferta total para mais de 150 propostas diferentes.

E o ritmo deverá continuar: a T&E prevê outros 60 lançamentos até ao final do ano.

Se a previsão se concretizar, 2026 poderá terminar com perto de uma centena de novidades elétricas, um número quase quatro vezes superior à média anual registada entre 2021 e 2025.

Mas não é apenas a quantidade que está a mudar.

O número de modelos com preços de entrada inferiores a 25 mil euros duplicou nos últimos dois anos. A organização estima mesmo que as vendas de elétricos nesta faixa de preço possam ser sete vezes superiores às de 2024.

É uma evolução particularmente importante num mercado onde o preço de compra continua a ser uma das principais barreiras à eletrificação.

Combustíveis mais caros estão a mudar as contas

A maior variedade de automóveis elétricos coincide com outro fator: o aumento dos custos para quem continua a conduzir veículos a combustão.

Segundo os cálculos da T&E, a crise petrolífera associada às tensões no estreito de Ormuz representou um encargo adicional de aproximadamente 53 mil milhões de euros para os proprietários de automóveis na União Europeia.

Em meados de setembro, abastecer um depósito de 50 litros de gasóleo custava cerca de 30 euros mais do que antes do início da crise, de acordo com os valores apresentados pela organização.

A T&E estima ainda uma poupança de aproximadamente 350 euros em custos de utilização para um condutor que tivesse optado por um elétrico no início desse período.

Naturalmente, a vantagem económica depende de fatores como o preço de compra, os quilómetros percorridos, as tarifas de eletricidade e a possibilidade de carregar em casa.

Ainda assim, a diferença nos custos energéticos tornou-se um argumento cada vez mais importante na decisão de compra.

Pela primeira vez, os elétricos ultrapassaram os carros a gasolina num trimestre

A evolução das matrículas mostra que a mudança já não se limita às intenções dos fabricantes.

Durante o segundo trimestre de 2026, os automóveis totalmente elétricos alcançaram uma quota de mercado de 22% na União Europeia e, segundo os dados apresentados pela T&E, ultrapassaram pela primeira vez os veículos exclusivamente a gasolina num trimestre.

É um marco significativo, embora não signifique que os elétricos já dominem o mercado automóvel europeu.

Os híbridos continuam a representar uma parcela importante das vendas, enquanto os automóveis a combustão mantêm um peso considerável.

Para a T&E, contudo, a trajetória confirma que os fabricantes estão a aproximar-se das metas de emissões estabelecidas para o período de 2025 a 2027.

A organização alerta que um eventual alívio das exigências europeias poderá abrandar o lançamento de modelos mais acessíveis.

Volkswagen ID. Polo, Cupra Raval e Renault 5 mostram o novo caminho

A chegada de elétricos mais pequenos e baratos está no centro desta transformação.

Entre os exemplos destacados pelo ‘El Economista’ encontram-se o Volkswagen ID. Polo, o Cupra Raval e o Renault 5 elétrico.

O Cupra Raval, produzido na fábrica de Martorell, em Espanha, é uma das apostas para conquistar compradores que procuram um elétrico urbano sem entrar nos segmentos mais caros. O seu preço poderá ficar abaixo dos 25 mil euros no mercado espanhol, considerando os apoios previstos.

Já o Renault 5 elétrico, fabricado em França, tornou-se um dos exemplos mais visíveis do regresso dos pequenos automóveis elétricos com uma identidade própria.

Isabell Büschel, responsável da T&E em Espanha, considera que a procura por estes modelos demonstra que o problema não estava necessariamente na falta de interesse dos consumidores, mas na escassez de propostas suficientemente atraentes e acessíveis.

A interpretação é da organização ambiental, mas os números apontam para uma alteração clara na oferta disponível.

Depois de vários anos em que os elétricos foram associados sobretudo a preços elevados, a disputa começa a deslocar-se para os segmentos onde se encontram muitos dos compradores europeus.

E, se 2026 está a provar alguma coisa, é que a transição elétrica poderá depender tanto da autonomia e da tecnologia como de uma questão bastante mais simples: quanto custa levar o carro para casa.