Quanto cabe num fim de semana no Estoril?
A resposta curta seria 184 automóveis, 12 corridas e máquinas construídas ao longo de praticamente meio século. Mas os números da 10.ª edição do Estoril Classics, que decorre entre 18 e 20 de setembro no Autódromo do Estoril, contam uma história bastante maior.
Há 4.182,72 metros de asfalto, 13 curvas, uma reta onde há quase um quilómetro para acelerar e um recinto de 52 hectares. Há Fórmula 1, protótipos, GT e Turismos. O carro mais antigo nasceu em 1960; o mais recente é de 2009.
E depois há números muito mais pequenos.
Dois milésimos de segundo já decidiram uma corrida neste circuito. Meio ponto foi suficiente para decidir um Campeonato do Mundo de Fórmula 1. E uma das máquinas que estará presente este ano foi construída para tentar chegar à F1 em 1980, mas teve de esperar 45 anos até rodar pela primeira vez.
São números que ajudam a explicar o que vai acontecer este fim de semana no Estoril. E alguns contam histórias extraordinárias.
184 carros. De 1960 a 2009
São 184 os automóveis inscritos na edição de 2026.
O mais antigo é um Morgan Plus 4 Super Sports de 1960. No extremo oposto está um Chevrolet Corvette C6 ZR1 de 2009.
Entre ambos cabem praticamente cinco décadas de evolução do automóvel de competição — e várias gerações para as quais a palavra “clássico” já significa coisas muito diferentes.
Para uns, será um Fórmula 1 dos anos 70 ou 80. Para outros, os carros que despertam memórias são precisamente os GT e protótipos dos anos 1990 e 2000 que começam agora a conquistar espaço no automobilismo histórico.
4.182,72 metros e 13 curvas
É o palco onde tudo acontece.
O Autódromo do Estoril tem 4.182,72 metros, distribuídos por 13 curvas — nove à direita e quatro à esquerda — e uma reta principal de 985,686 metros.
O recinto ocupa 52 hectares, o paddock principal tem 24.500 metros quadrados e existem 30 boxes.
Há ainda outro número importante: 45.
É o máximo de automóveis que podem estar simultaneamente em pista numa prova no circuito.
12 corridas para contar várias décadas de competição
O programa do Estoril Classics 2026 reúne 10 competições e 12 corridas.
O Classic GP volta a colocar em pista Fórmula 1 anteriores a 1986, numa grelha onde marcas como Lotus, McLaren, Williams e Ligier têm sido presença habitual.
Também regressa a Endurance Racing Legends, trazendo para o Estoril LMP e GT das décadas de 1990 e 2000. É o universo de máquinas como o Panoz Roadster S LMP1 ou o Pescarolo C60, construídas numa época em que estes protótipos disputavam as grandes provas internacionais de resistência, incluindo as 24 Horas de Le Mans.
Mas há uma máquina que chega ao Estoril com uma história bastante diferente.
1980. Depois, 45 anos de espera
O Riviera F.1 170 foi concebido para tentar disputar a temporada de Fórmula 1 de 1980.
Nunca chegou a fazê-lo.
A falta de orçamento travou o projeto antes de o monolugar poder participar num Grande Prémio e o carro acabou por se transformar numa das histórias mais invulgares da F1 que nunca chegou à grelha.
Só em 2025, cerca de 45 anos depois de ter sido concebido, o Riviera F.1 170 rodou pela primeira vez.
Em 2026 estará no Estoril Classics.
0,5 pontos: o Mundial que se decidiu no Estoril
Há números que pertencem ao evento e outros que pertencem ao próprio circuito.
Em 1984, Niki Lauda chegou ao Grande Prémio de Portugal a disputar o título mundial com Alain Prost.
Prost venceu a corrida. Lauda terminou em segundo.
Foi suficiente.
O austríaco conquistou o terceiro e último título mundial da carreira por apenas meio ponto sobre o companheiro de equipa — a menor diferença de sempre na decisão de um Campeonato do Mundo de Fórmula 1.
1985: a primeira vez de Ayrton Senna
Um ano depois, o Estoril voltou a entrar na história da Fórmula 1.
Sob chuva intensa, Ayrton Senna venceu ao volante de um Lotus 97T e conquistou a primeira vitória da carreira na categoria.
Na edição deste ano estará presente um exemplar do mesmo modelo — não o chassis conduzido por Senna naquela corrida histórica.
O circuito ainda voltaria a produzir outros marcos: Alain Prost alcançou ali a 28.ª vitória em 1987, ultrapassando o recorde então detido por Jackie Stewart; em 1993 garantiu no Estoril o quarto e último título mundial; e David Coulthard conseguiu ali a primeira vitória na Fórmula 1, em 1995.
0,002 segundos
Talvez seja o número mais difícil de imaginar de todos.
Em 2006, já sobre duas rodas, Toni Elías e Valentino Rossi chegaram à meta do Grande Prémio de Portugal de MotoGP separados por apenas 0,002 segundos.
Elías ganhou.
Dois milésimos de segundo fizeram a diferença entre primeiro e segundo numa das chegadas mais apertadas da história da categoria.
40 mil pessoas
Os números também contam o crescimento do próprio Estoril Classics.
Em 2022, o evento recebeu mais de 30 mil visitantes. Em 2024 passaram pelo circuito 35 mil pessoas. Em 2025 foram contabilizados 40 mil espectadores ao longo do evento.
Há ainda um indicador particularmente revelador da procura: segundo a organização, os bilhetes com acesso ao paddock esgotaram nas últimas seis edições.
E é precisamente aí que surge uma das principais novidades de 2026.
1 Pit Walk pela primeira vez
No domingo, 20 de setembro, à hora de almoço, o Estoril Classics estreia um Pit Walk.
Os detentores de bilhete de paddock poderão percorrer a pit lane, aproximar-se das máquinas e acompanhar os últimos preparativos dos Fórmula 1 antes da segunda e última corrida do Classic GP.
O paddock continua, aliás, a ser uma das particularidades do evento: os carros ficam instalados a poucos metros do público, que pode acompanhar o trabalho das equipas e aproximar-se de pilotos e máquinas que, noutros contextos, dificilmente estariam tão acessíveis.
Para os mais novos há outro número: 15.
Até essa idade, a entrada no paddock é gratuita quando acompanhados por um adulto com bilhete, até ao máximo de duas crianças ou jovens por adulto. O acesso à bancada da reta da meta é também gratuito e, em 2026, juntam-se novos pontos de observação entre as curvas 3 e 5 e na Reta Interior.
365 dias para preparar três
Talvez seja este o número que melhor explica aquilo que não se vê quando os carros entram em pista.
O Estoril Classics dura três dias, mas a preparação acompanha praticamente todo o ano.
É preciso reunir carros, equipas e pilotos de diferentes países, construir as grelhas, preparar o circuito e organizar toda a estrutura que permite colocar 184 automóveis de várias épocas no mesmo recinto.
E quando a última corrida terminar no domingo, a contagem não regressa propriamente ao zero.
Segundo a organização, na segunda-feira começa já o trabalho para 2027.
Três dias de Estoril Classics. Um ano para os tornar possíveis.














