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Nem gasolina, nem eletricidade: a Mazda está a produzir combustível a partir de algo que cresce na água

Francisco Laranjeira

Fabricante japonesa está a apostar na produção de biodiesel a partir de microalgas, com o objetivo de utilizar este combustível nos seus automóveis a gasóleo

A solução para manter os motores de combustão em circulação poderá estar num lugar inesperado: dentro de tanques cheios de algas. A Mazda está a desenvolver um combustível renovável produzido a partir de microrganismos aquáticos e acaba de dar mais um passo para transformar esta tecnologia numa alternativa aos combustíveis fósseis.

Segundo o site espanhol ‘Autonoción’, a fabricante japonesa está a apostar na produção de biodiesel a partir de microalgas, com o objetivo de utilizar este combustível nos seus automóveis a gasóleo.

O projeto recebeu agora o apoio da Organização para o Desenvolvimento de Novas Energias e Tecnologias Industriais do Japão (NEDO), que o selecionou para um programa de investigação e desenvolvimento dedicado à descarbonização.

A novidade foi anunciada pela Mazda no passado dia 7 e representa mais um passo numa estratégia que não depende exclusivamente da eletrificação dos automóveis.

Como é possível transformar algas em combustível?

O processo começa com o cultivo de microalgas, organismos microscópicos capazes de realizar a fotossíntese e absorver dióxido de carbono durante o crescimento.

Estas microalgas acumulam substâncias oleosas no interior das suas células. Depois de cultivadas, são recolhidas e processadas para extrair esses óleos, que podem ser transformados num combustível renovável conhecido como HVO, ou óleo vegetal hidrotratado.

A Mazda ficará responsável pelo desenvolvimento dos processos de cultivo e extração, enquanto a empresa energética japonesa Idemitsu Kosan colaborará na investigação da fase de refinação.

Uma das principais vantagens das microalgas é não exigirem grandes áreas agrícolas. Ao contrário de outras matérias-primas utilizadas na produção de biocombustíveis, podem ser cultivadas em instalações próprias, reduzindo a concorrência com a produção alimentar e a pressão sobre as florestas.

Mas há uma diferença importante: o combustível continua a produzir emissões quando é queimado no motor. O potencial benefício ambiental depende da quantidade de carbono absorvida durante o cultivo e das emissões associadas a todo o processo de produção.

Mil litros de cultivo para produzir combustível

A Mazda não está a começar do zero. A fabricante investiga combustíveis derivados de microalgas desde a década de 2010, em colaboração com instituições académicas e através de experiências realizadas nas suas instalações.

Os resultados já permitem produzir mais de um litro de combustível em aproximadamente duas semanas, utilizando um tanque de cultivo com capacidade para mil litros.

É um avanço tecnológico, mas também revela o principal desafio do projeto: conseguir aumentar significativamente a produção para abastecer automóveis em grande escala.

A empresa terá agora de melhorar a eficiência do cultivo, da extração e da transformação dos óleos, além de encontrar formas de tornar o combustível economicamente competitivo.

Mazda já tem uma data em mente

O objetivo anunciado pela fabricante japonesa é começar a utilizar este biodiesel no abastecimento inicial dos veículos a gasóleo produzidos nas suas fábricas do Japão no início da década de 2030.

Ou seja, a intenção é que esses automóveis possam sair da linha de produção já abastecidos com combustível renovável.

Isso não significa que todos os proprietários de um Mazda a gasóleo possam, dentro de poucos anos, abastecer com combustível produzido a partir de algas. A distribuição comercial em larga escala continua dependente da evolução da investigação e da capacidade de produção.

Para a Mazda, a aposta enquadra-se numa estratégia que procura combinar diferentes soluções para reduzir as emissões, incluindo motores de combustão alimentados por combustíveis alternativos.

Numa altura em que grande parte da indústria automóvel concentra os investimentos nos veículos elétricos, a fabricante japonesa procura demonstrar que o futuro da mobilidade poderá passar também por mudar aquilo que colocamos no depósito, em vez de substituir necessariamente o motor.