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Um padre quis construir o carro mais seguro do mundo. No dia da apresentação, avariou vezes sem conta pelo caminho

Automonitor

Era novembro de 1957 e o padre católico seguia para Nova Iorque ao volante do automóvel em que tinha investido dinheiro, tempo e uma parte considerável da sua reputação

Alfred Juliano esperara anos por aquele dia.

Era novembro de 1957 e o padre católico seguia para Nova Iorque ao volante do automóvel em que tinha investido dinheiro, tempo e uma parte considerável da sua reputação.

Chamava-se Aurora.

Juliano acreditava ter construído um dos carros mais seguros do mundo e preparava-se finalmente para o apresentar à imprensa.

Então o Aurora avariou.

Juliano reparou-o e voltou à estrada.

Pouco depois, avariou novamente.

E depois outra vez.

Os relatos históricos apontam para sucessivas paragens durante uma viagem que deveria ter sido a consagração de uma ideia extraordinária.

Quando finalmente chegou a Nova Iorque, várias horas atrasado, o desastre estava consumado.

Não apareceu uma única encomenda.

Parecia o fim da história de um padre que achara que podia ensinar a indústria automóvel a construir carros mais seguros.

Só que a parte mais interessante desta história talvez seja outra.

Algumas das ideias que Alfred Juliano colocou naquele estranho automóvel em 1957 acabariam, décadas depois, por se tornar perfeitamente normais.

Um padre que queria desenhar automóveis

A paixão de Juliano pelos carros começara muito antes de vestir a batina.

Segundo a história preservada pelo ‘Lane Motor Museum’ e pelo ‘New England Auto Museum’, interessava-se profundamente por design automóvel desde jovem e chegou a demonstrar talento suficiente para poder imaginar uma carreira na indústria.

Escolheu o sacerdócio.

Mas não deixou os automóveis.

Já padre em Branford, no Connecticut, Juliano começou a pensar numa questão à qual a indústria dos anos 1950 ainda não dava a importância atual: o que acontecia às pessoas quando aqueles carros grandes, rápidos e pesados batiam?

A resposta não o satisfez.

Por isso decidiu construir o seu próprio automóvel.

E convenceu membros da congregação a ajudá-lo a financiar o projeto.

O carro parecia estranho por uma razão

O Aurora começou com o chassis de um Buick de 1953.

Depois Juliano cobriu-o com uma enorme carroçaria em fibra de vidro que ainda hoje parece pertencer a uma visão particularmente excêntrica do futuro.

A frente projetava-se para a frente como uma gigantesca pá. O para-brisas tinha uma curvatura invulgar. As proporções eram estranhas.

Mas Juliano não estava apenas a tentar chamar a atenção.

Queria que o carro protegesse pessoas.

O Aurora tinha cintos de segurança numa época em que estavam longe de ser habituais, superfícies interiores almofadadas e uma estrutura concebida para proteger os ocupantes numa colisão.

Havia preocupação com impactos laterais e até os bancos podiam ser rodados para trás antes de um acidente, colocando os ocupantes na posição que Juliano acreditava oferecer maior proteção.

Aquela enorme frente também tinha um objetivo: tentar diminuir os ferimentos provocados a um peão em caso de atropelamento.

Até a roda suplente foi posicionada para ajudar a absorver energia numa colisão frontal.

Era estranho.

Mas não era absurdo.

Então chegou o dia em que precisava de provar tudo

Juliano investiu anos no Aurora.

O problema é que, durante a construção, a mecânica passara longos períodos sem funcionar.

Quando chegou o momento da viagem para Nova Iorque, resíduos acumulados contaminaram o sistema de combustível.

Daí as avarias sucessivas.

E dificilmente poderia existir pior publicidade.

O homem que queria convencer jornalistas de que tinha construído um automóvel melhor passou grande parte da viagem parado à beira da estrada a tentar fazê-lo funcionar.

Quando chegou, horas depois do previsto, a imprensa tinha à sua frente uma história demasiado tentadora.

O revolucionário carro do futuro mal conseguira chegar à própria apresentação.

O sonho desfez-se rapidamente.

30 mil dólares, uma empresa falida e um carro abandonado

Juliano terá gasto cerca de 30 mil dólares no desenvolvimento do Aurora, uma pequena fortuna em 1957.

Parte do financiamento tinha vindo de membros da congregação e a utilização desse dinheiro acabaria por gerar controvérsia.

A Aurora Motor Company fracassou.

Só foi construído um carro.

Endividado, Juliano acabou também por perder o automóvel que lhe consumira tantos anos.

O Aurora passou por diferentes mãos e acabou abandonado.

Durante décadas, foi pouco mais do que a recordação de uma ideia que tinha corrido mal.

Até que, em 1993, um britânico abriu um livro e encontrou uma fotografia.

“Tenho de encontrar este carro”

O homem chamava-se Andy Saunders e construía automóveis personalizados. A imagem do Aurora deixou-o fascinado.

Saunders começou a investigar e conseguiu localizar nos EUA aquilo que restava do carro de Juliano.

Comprou-o por cerca de 1.500 dólares, praticamente sem saber exatamente o que iria receber, e levou-o para o Reino Unido.

Depois começou o trabalho de recuperação. Em 2005, o Aurora reapareceu finalmente perante o público no Goodwood Festival of Speed.

Tinham passado quase 50 anos desde aquela desastrosa viagem para Nova Iorque.

E o mundo automóvel entretanto mudara.

O padre perdeu. Algumas das suas ideias ganharam

Hoje ninguém olha para cintos de segurança, interiores concebidos para reduzir ferimentos, proteção lateral ou habitáculos estruturalmente protegidos como extravagâncias.

A proteção dos peões tornou-se igualmente uma preocupação central no desenvolvimento dos automóveis modernos.

Isso não significa que o Aurora estivesse pronto para revolucionar a indústria. Não estava.

Era caro, pesado, estranho e algumas das soluções imaginadas por Juliano estavam longe de ser práticas.

Mas a pergunta que estava a fazer era extraordinariamente moderna.

Porque é que a segurança das pessoas não podia começar no próprio desenho do carro?

Alfred Juliano tentou responder em 1957.

A sua empresa desapareceu. O seu carro acabou abandonado. E a viagem que deveria ter apresentado o Aurora ao mundo transformou-se num desastre.

Só construiu um.

Mas, décadas depois, é difícil olhar para algumas das ideias daquele padre e concluir que era ele quem estava completamente errado.