Olhe para vários Audi, Volvo, Mini ou Fiat recentes e provavelmente conseguirá descobrir a marca antes mesmo de ver o símbolo. Faróis, grelhas, linhas da carroçaria e até proporções parecem repetir-se de modelo para modelo. Poderia parecer uma forma de poupar trabalho aos designers. Na realidade, fazer carros diferentes parecerem membros da mesma família é um dos desafios mais complicados do design automóvel moderno.
Houve uma época em que uma berlina, um coupé e um monovolume da mesma marca podiam ter personalidades quase completamente independentes.
Hoje, a tendência é diferente.
As marcas procuram criar uma linguagem visual suficientemente forte para que um automóvel seja imediatamente reconhecido como seu, independentemente de estarmos perante um pequeno citadino, um SUV ou um modelo de maiores dimensões.
Daí aquela sensação familiar quando encontramos dois automóveis da mesma marca: não são iguais, mas há qualquer coisa que imediatamente os denuncia.
E isso não acontece por acaso.
Não basta aumentar ou diminuir o mesmo carro
À primeira vista, a solução poderia parecer simples: criar um modelo e depois aumentar ou reduzir as suas formas para produzir o resto da gama.
É precisamente isso que os designers tentam evitar.
Um automóvel pequeno tem proporções completamente diferentes das de um grande SUV. Mudam a distância entre eixos, a altura, a largura, os volumes, a posição dos ocupantes, o tamanho das rodas e até as necessidades aerodinâmicas.
Copiar literalmente o desenho poderia resultar num automóvel visualmente desequilibrado.
O verdadeiro trabalho consiste, por isso, em escolher determinados elementos capazes de sobreviver à passagem de um modelo para outro.
Pode ser a assinatura luminosa. A forma da frente. Uma determinada linha lateral. O tratamento das superfícies. Ou simplesmente uma combinação de proporções e detalhes que o nosso cérebro acaba por associar a determinada marca.
A Grande Panda mostra como nasce uma família
A Fiat oferece atualmente um exemplo particularmente evidente.
A Grande Panda introduziu uma nova linguagem visual que está agora a chegar aos Grizzly e Grizzly Fastback.
Os novos modelos não são simplesmente uma Grande Panda ampliada.
O Grizzly tem uma postura mais vertical e orientada para espaço e praticidade, enquanto o Grizzly Fastback aposta numa silhueta mais baixa e dinâmica. Apesar disso, existem elementos visuais que permitem perceber imediatamente que pertencem à mesma família.
É precisamente esse equilíbrio que os designers procuram: preservar o ADN da marca sem transformar a gama numa coleção do mesmo carro em tamanhos diferentes.
No caso da Fiat existe ainda outra dificuldade. O novo desenho olha deliberadamente para o passado, recuperando referências à Panda original, mas sem tentar simplesmente recriar um automóvel com mais de quatro décadas.
Audi levou a ideia particularmente longe
Durante anos, a Audi foi talvez um dos exemplos mais evidentes desta estratégia.
Modelos de segmentos e dimensões diferentes partilhavam uma frente, uma grelha e determinadas proporções que permitiam reconhecer imediatamente um Audi.
A vantagem é evidente: a identidade da marca torna-se extremamente forte.
Mas existe um risco.
Se a semelhança for levada demasiado longe, os clientes podem começar a ter dificuldade em distinguir os próprios modelos.
É aí que aparece a fronteira que os designers têm de encontrar: um A3 tem de parecer inequivocamente um Audi, mas não pode parecer simplesmente um A6 encolhido.
Um Volvo pequeno tem de continuar a parecer um Volvo
O mesmo exercício pode ser observado na Volvo.
Coloque um EX30 ao lado de um EX90. Um é um SUV compacto; o outro é um grande SUV de sete lugares.
Ainda assim, há poucas dúvidas sobre o parentesco.
A assinatura luminosa inspirada no chamado “martelo de Thor”, a interpretação da frente dos elétricos e determinadas linhas da carroçaria criam uma ligação visual entre ambos.
A própria Volvo explica que um modelo novo, mesmo quando não tem antecessor direto, precisa de encaixar na família. No desenvolvimento do EX30, por exemplo, elementos provenientes dos modelos maiores foram usados para preservar essa identidade.
Mas o pequeno EX30 não é simplesmente um EX90 em miniatura. As proporções e vários elementos da carroçaria são próprios.
É exatamente esse o objetivo.
E depois há marcas que partem de um único carro
A Mini enfrenta um desafio ainda mais curioso.
Grande parte da identidade atual continua a nascer de um automóvel lançado originalmente em 1959.
Cooper de três e cinco portas, Aceman e Countryman são veículos muito diferentes em tamanho e utilização, mas todos precisam de continuar a ser imediatamente reconhecidos como Mini.
Faróis, tejadilho, postura da carroçaria e inúmeros pequenos detalhes reinterpretam continuamente elementos associados ao modelo original.
Ou seja, em vez de cada carro começar numa folha completamente em branco, existe uma espécie de vocabulário que os designers têm de respeitar.
Podem construir frases diferentes. Mas algumas palavras têm de continuar lá.
Então porque é que os carros parecem cada vez mais irmãos?
Porque uma marca já não vende apenas modelos isolados. Vende também uma identidade.
Num mercado com dezenas de fabricantes e centenas de modelos, conseguir que alguém reconheça um automóvel à distância sem precisar de olhar para o emblema tem enorme valor.
É por isso que determinados elementos passam de geração para geração e de segmento para segmento.
O paradoxo é que aquilo que pode parecer falta de imaginação exige precisamente muito trabalho de design.
Fazer dois carros completamente diferentes é relativamente simples quando não existe qualquer obrigação de os relacionar visualmente.
Muito mais difícil é desenhar um pequeno elétrico e um enorme SUV e conseguir que qualquer pessoa perceba que são irmãos — sem que um pareça simplesmente uma versão maior do outro.
É aí que está o verdadeiro teste.
Uma família automóvel bem desenhada não é aquela em que todos os carros parecem iguais.
É aquela em que não precisamos de ver o símbolo para perceber o apelido.






