Durante décadas habituámo-nos a olhar para a F1 com circuitos selecionados pela sua especificidade, pela sua história. Aos dias de hoje também se escolhem as cidades onde os realizar.
O Grande Prémio de Madrid – Madring – representa por isso muito mais do que a chegada de um novo traçado ao calendário mundial da F1. Tal como Abu Dhabi converteu a Yas Marina num símbolo da ambição nacional e Singapura transformou uma prova noturna como o seu posicionamento global.
Madrid demonstra uma nova realidade na F1 moderna – além da F1 ser um desporto também se tornou numa plataforma económica, geopolítica e urbana. A capital espanhola não conquistou a organização da prova por ter um circuito histórico, mas precisamente pelo seu oposto – ao oferecer algo mais valioso do que a tradição: crescimento!
O novo Madring foi concebido com um propósito – responder às exigências contemporâneas do campeonato, com a acessibilidade a ser um item fundamental. Por isso, o circuito fica localizado na zona da IFEMA junto ao aeroporto Adolfo Suárez Madrid-Barajas e encontra-se ligado à cidade, a poucos minutos, por uma vasta rede de autocarros, ferroviária e metro, o que não foi um acaso ou coincidência, mas sim uma estratégia cuidadosamente pensada de integrar a F1 num grande centro urbano, uma vez que assim é possível criar exposição mediática, consumo elevado, turismo, mas também, uma componente digital.
Las Vegas é talvez o exemplo atual mais visível desta nova realidade e Madrid quis seguir a mesma tendência, embora com uma abordagem europeia mais sofisticada, contemporânea e menos exuberante, onde o circuito combina vias públicas, com secções permanentes construídas especificamente para a F1.
Esta conjugação permite-lhe ter um traçado híbrido, exigente, de aproximadamente 5,4 km que procura conciliar o espetáculo televisivo com os desafios técnicos.
Como qualquer novo circuito, também este tem um fator diferenciador e inovador – a longa e exigente curva inclinada conhecida como “La Monumental” – rapidamente apontada por todos, desde a imprensa, pilotos e engenheiros como uma das secções mais singulares, não somente pelo espetacularidade, pelas forças G envolvidas mas também por permitir que cada piloto adote a sua própria trajetória.
Mas focarmos a nossa análise somente na pista seria perder parte do essencial, até porque a verdadeira inovação está também fora dela, dado que Madrid transformou a cidade numa extensão da própria corrida, numa estratégia similar à de Miami e Las Vegas ao converter o Grande Prémio de F1 numa experiência urbana, onde os hotéis, restaurantes, centros comerciais, marcas de luxo, tecnologia e entretenimento se fundem naturalmente com o evento.
Desde que a série ‘Drive to Survive’ da Netflix estreou que as audiências da Fórmula 1 cresceram exponencialmente e os promotores perceberam que já não atraem “apenas” os fãs de automobilismo, mas também os consumidores globais e Madrid percebeu esta realidade, com a cidade a oferecer algo particularmente raro na Europa:
• dimensão,
• infraestruturas modernas,
• conectividade internacional
• capacidade hoteleira que permite absorver dezenas de milhares de visitantes sem as limitações observadas noutros destinos tradicionais
• crescente projeção internacional de Espanha com um setor turístico robusto, uma gastronomia reconhecida e uma imagem cada vez mais associada à qualidade de vida.
• Embaixadores permanentes – Fernando Alonso e Carlos Sainz.
Por fim, é bom não ignorar o fator político, pois ao garantir uma presença no calendário até meados da próxima década, Madrid vai assegurar uma exposição mediática global que é extremamente difícil de replicar através das campanhas tradicionais de promoção, dado que em termos de retorno de imagem, poucos eventos conseguem rivalizar atualmente com a F1: um campeonato que chega até centenas de milhões de espectadores em todos os continentes.
Torna-se fácil inferir que a F1 moderna já não vende somente voltas mais rápidas, mas vende narrativas, e é aqui que Madrid está a marcar o ritmo.
Basta olharmos para os números da organização pois estes ajudam a perceber a dimensão da aposta que foi efetuada:
• Madrid recebeu cerca de 120 mil visitantes durante o evento, aproximadamente 40% a 45% provenientes de mercados internacionais.
• O impacto económico estimado pode ultrapassar os 450 milhões de euros anuais
• Os estudos apontam para a criação ou manutenção de cerca de 8.850 postos de trabalho (estudo da PwC).
Podemos questionar a organização se realmente a F1 moderna necessita de mais circuitos urbanos ou se a crescente aposta em eventos espetáculo pode enfraquecer a identidade histórica da modalidade, ou até mesmo, o risco de saturação num campeonato extremamente exigente, com equipas e pilotos sujeitos a uma pressão logística bastante grande; ou a inevitável comparação com Barcelona, que durante décadas representou o coração da F1 em Espanha – utilizado para testes e desenvolvimento técnico.
Só que ponto de vista comercial, Madrid oferece à F1 aquilo que ela hoje mais precisa:
• proximidade a grandes centros populacionais,
• facilidade logística,
• patrocínios premium
• experiência urbana integrada.
Os tempos em que bastava possuir um excelente circuito já não é suficiente, e Madrid demonstra que a competição já não acontece apenas entre pilotos ou equipas, mas também entre cidades.
Reside aqui uma importante lição para os outros países que se queiram propor a ter um Grande Prémio de F1 em que o sucesso dos novos circuitos vai ter de conseguir o equilíbrio entre o traçado e a qualidade do ecossistema criado à sua volta.
E nesta corrida, Madrid saiu na Pole Position.






