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Esqueça os carros autónomos: este robô senta-se ao volante e conduz como um humano

Automonitor

Equipa responsável pelo projeto tem vindo a investigar há vários anos a possibilidade de humanoides conduzirem automóveis utilizando essencialmente os mesmos comandos concebidos para seres humanos

Esqueça por momentos o carro autónomo que dispensa completamente o condutor. Investigadores japoneses estão a explorar uma solução bastante diferente — e visualmente muito mais estranha: manter o automóvel praticamente como está e colocar um robô humanoide no lugar do motorista.

Chama-se Musashi, foi desenvolvido por investigadores da Universidade de Tóquio e consegue fazer aquilo que qualquer pessoa faria quando entra num automóvel: agarrar o volante, carregar no acelerador e no travão, acionar o travão de mão e utilizar os indicadores de mudança de direção – veja o vídeo aqui.

E não se trata apenas de uma demonstração feita para as câmaras.

A equipa responsável pelo projeto tem vindo a investigar há vários anos a possibilidade de humanoides conduzirem automóveis utilizando essencialmente os mesmos comandos concebidos para seres humanos. Trabalhos científicos publicados pelos investigadores documentam experiências de condução com o Musashi e outros robôs humanoides.

Em vez de tornar o carro autónomo, tornar autónomo o condutor

É precisamente esta inversão que torna o projeto particularmente interessante.

Grande parte da indústria automóvel está a investir em veículos capazes de conduzir autonomamente através de câmaras, radares, sensores, computadores e software integrados no próprio automóvel.

A equipa japonesa explora outra possibilidade: e se fosse possível colocar um robô suficientemente sofisticado dentro de um automóvel convencional e deixá-lo utilizar os comandos que já existem?

O Musashi foi concebido com uma estrutura musculoesquelética inspirada no corpo humano. Possui câmaras nos olhos, sensores de força nas mãos e nos pés e articulações que lhe permitem interagir fisicamente com o automóvel.

Na demonstração divulgada em 2024, o humanoide consegue controlar o volante e os pedais e interpretar parte daquilo que acontece à sua volta.

As capacidades estavam, contudo, muito longe das de um motorista humano. Nos testes então divulgados, o Musashi circulava a cerca de 5 km/h num ambiente controlado.

Reconhecer semáforos e atravessar cruzamentos

O trabalho não terminou nessa demonstração.

A investigação posterior descrita pelo ‘Supercar Blondie’ indica que os cientistas continuaram a desenvolver os sistemas necessários para que o robô combine perceção visual com controlo físico do veículo.

Entre as capacidades demonstradas estão o reconhecimento de sinais luminosos, a atuação sobre os pedais em função da velocidade do automóvel e o controlo do volante durante a passagem por interseções.

A ideia é particularmente desafiante porque o robô não pode limitar-se a “saber” para onde pretende ir.

Tem de transformar essa decisão numa série de movimentos físicos: perceber quanto deve virar o volante, qual a pressão necessária no acelerador ou travão e coordenar simultaneamente os vários membros.

Exatamente aquilo que um condutor humano faz quase automaticamente.

Um motorista que pode mudar de carro?

É aqui que surge uma das possibilidades mais curiosas desta tecnologia.

Um sistema de condução autónoma convencional faz parte do próprio automóvel. Um humanoide suficientemente avançado poderia, em teoria, abandonar um veículo, entrar noutro e voltar a conduzir — desde que fosse capaz de se adaptar aos diferentes comandos.

Ou seja, em vez de transformar milhões de automóveis existentes em veículos autónomos, o “sistema autónomo” poderia ser o próprio motorista robótico.

Essa possibilidade continua, porém, muito distante.

O próprio Kawaharazuka reconheceu em 2024 que um verdadeiro motorista robótico capaz de funcionar no mundo real poderia ainda estar a várias décadas de distância. À ‘New Scientist’, admitiu mesmo um horizonte de pelo menos 50 anos.

E a indústria automóvel já está a olhar para a ideia

O conceito também não está limitado aos laboratórios universitários.

A Daimler Truck obteve nos EUA uma patente relativa a um sistema em que um robô humanoide pode assumir fisicamente tarefas de condução de um camião, mostrando que a possibilidade de colocar máquinas antropomórficas nos comandos de veículos já despertou interesse industrial.

Ao mesmo tempo, a evolução acelerada dos robôs humanoides está a aumentar a capacidade destas máquinas para executar tarefas que exigem coordenação de todo o corpo.

Isso não significa que os táxis das nossas cidades estejam prestes a receber motoristas robóticos.

Aliás, existe uma questão óbvia: se um automóvel pode ser concebido desde a origem para conduzir sozinho, colocar uma máquina com braços e pernas no banco do condutor parece uma forma extraordinariamente complexa de resolver o mesmo problema.

Mas o Musashi demonstra uma possibilidade diferente.

O automóvel do futuro pode não precisar de saber conduzir sozinho.

Talvez baste que quem se senta ao volante saiba.