Os portugueses estão à procura de mais automóveis usados, mas há uma faixa de preço que continua a destacar-se das restantes: os carros abaixo dos 15 mil euros. É o único segmento do mercado em que a procura está a crescer mais depressa do que a oferta e o tempo médio esperado para encontrar comprador caiu para 36 dias.
Os dados constam da análise do mercado automóvel relativa a agosto divulgada pelo ‘Standvirtual’, que revela também outra transformação importante: mais de um em cada três automóveis novos matriculados durante o mês foi 100% elétrico.
No mercado de usados, a procura aumentou 9% em agosto face ao mesmo mês de 2025. A oferta cresceu ainda mais, avançando 11%.
Esta diferença significa que, apesar de existirem mais potenciais compradores, há também mais automóveis disponíveis para disputar a sua atenção. Segundo o ‘Standvirtual’, a dinâmica do mercado continua, por isso, negativa em 2% face ao ano passado, embora tenha registado uma ligeira melhoria comparativamente a julho.
15 mil euros fazem a diferença
É quando se divide o mercado por preços que aparece uma tendência particularmente relevante.
Os automóveis abaixo dos 15 mil euros constituem a única faixa em que o crescimento da procura supera o aumento da oferta.
Para o ‘Standvirtual’, os números confirmam que o preço continua a ter um peso determinante na decisão de compra e que os consumidores mantêm um interesse elevado pelos veículos mais acessíveis.
Essa procura está também a refletir-se na velocidade com que o stock pode ser escoado.
O Market Days Supply — indicador que estima o tempo médio necessário para vender um automóvel tendo em conta o stock disponível — caiu neste segmento de 40 para 36 dias face ao mesmo período do ano passado.
Já entre os 15 mil e os 30 mil euros aconteceu o contrário, com um aumento do tempo médio esperado de venda.
Acima dos 30 mil euros, o indicador voltou a diminuir apesar do crescimento da oferta. Segundo a análise, esta evolução poderá estar relacionada com o peso crescente dos automóveis elétricos nesta faixa de preço e com a sua elevada rotação.
Há mais carros à procura de comprador
Os números ajudam a explicar por que razão o mercado de usados está a tornar-se mais competitivo.
As transferências de propriedade de ligeiros de passageiros diminuíram 23% em julho comparativamente ao mesmo mês de 2025. Entre janeiro e julho, a queda acumulada atingiu 8,2%.
Ao mesmo tempo, continuam a entrar automóveis usados provenientes do estrangeiro.
Em agosto foram importados cerca de 10.163 ligeiros de passageiros, mais 2,4% do que no mesmo mês de 2025. No acumulado dos primeiros oito meses de 2026, o crescimento das matrículas de importados chega aos 12,6%.
Apesar do abrandamento mensal, o ‘Standvirtual’ considera que as importações permanecem em níveis historicamente elevados e continuam a representar uma importante fonte de stock para o mercado nacional.
Os usados estão realmente mais caros?
Há ainda um aparente paradoxo nos preços.
O preço médio anunciado dos automóveis usados continua a aumentar. Isso não significa, porém, que um carro equivalente esteja necessariamente mais caro do que estava há um ano.
Segundo o ‘Standvirtual’, quando é eliminado o chamado “efeito de composição” e são comparados veículos semelhantes ao longo do tempo, os preços apresentam, na realidade, uma ligeira pressão descendente.
Ou seja, a subida do valor médio dos anúncios estará sobretudo relacionada com o tipo de automóveis que atualmente compõem o stock — e não com um aumento generalizado do preço dos usados.
“O comportamento dos preços é também revelador: a subida do preço médio anunciado não traduz necessariamente uma inflação dos usados, sendo sobretudo explicada pelo efeito de composição do stock”, explica Pedro Soares, Head of Sales do ‘Standvirtual’.
Para os profissionais, acrescenta, “o desafio passa cada vez menos por garantir simplesmente inventário e mais por garantir o inventário certo, ao preço certo e com capacidade de rotação adequada”.
Nos novos, elétricos batem recorde
Enquanto o mercado de usados enfrenta uma pressão crescente entre oferta e procura, o mercado de automóveis novos acelerou em agosto.
Foram matriculados 14.086 ligeiros de passageiros, mais 8,4% do que no mesmo mês de 2025. Desde o início do ano, o crescimento acumulado chega aos 9,5%.
Mas é na motorização dos automóveis vendidos que aparece um dos números mais significativos do mês.
Os veículos 100% elétricos representaram 36,1% de todos os ligeiros de passageiros novos matriculados em agosto, naquela que, segundo o ‘Standvirtual’, é uma quota recorde.
Significa que mais de um em cada três carros novos matriculados durante o mês foi totalmente elétrico.
No acumulado de 2026, os BEV representam já 26,8% das matrículas de ligeiros de passageiros novos.
Os números mostram, assim, dois mercados a avançar a velocidades diferentes: nos novos, as vendas continuam a crescer e os elétricos conquistam terreno; nos usados, há cada vez mais oferta a disputar os compradores.
E, nesse segundo mercado, há uma fronteira que continua particularmente clara: abaixo dos 15 mil euros, os carros encontram comprador mais depressa.






