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SEAT pode acabar: o que desaparece com ela?

Automonitor

Volkswagen pode progressivamente retirar a marca do mercado até, no máximo, ao final de 2029

Uma fábrica não desaparece necessariamente quando desaparece uma marca. Os robôs continuam a soldar carroçarias, as linhas continuam a funcionar e os trabalhadores podem passar a montar automóveis com outro símbolo na grelha. É precisamente isso que poderá acontecer em Martorell se a Volkswagen concretizar o plano que coloca a SEAT no caminho da extinção até ao final de 2029.

Mas há coisas que não se transferem de uma marca para outra.

Não se transfere o automóvel que ajudou a pôr Espanha sobre rodas. Não se transferem seis milhões de Ibiza, décadas de ralis, nomes de cidades espanholas espalhados pelas estradas europeias nem a história de uma empresa criada quando ter automóvel ainda era um sonho distante para grande parte das famílias espanholas.

É isso que está verdadeiramente em causa se a SEAT desaparecer.

A ‘WirtschaftsWoche’ revelou esta semana um documento confidencial da Volkswagen segundo o qual a marca deverá ser progressivamente retirada do mercado até, no máximo, ao final de 2029. Produtos, operações comerciais e capacidade industrial seriam transferidos para a Cupra sempre que possível, numa altura em que o gigante alemão procura reduzir custos e simplificar uma estrutura que considera demasiado complexa.

O Conselho de Supervisão da Volkswagen aprovou entretanto, por unanimidade, o Future Plan 2030, o gigantesco programa de transformação do grupo. Mas há uma ressalva importante: o comunicado oficial não confirmou o desaparecimento da SEAT e a própria empresa insiste que não foi tomada qualquer decisão definitiva sobre a marca.

Portanto, a SEAT ainda não morreu.

Mas, pela primeira vez, é possível olhar para os seus 76 anos de história e perguntar seriamente: o que desapareceria com ela?

1950: nasce uma marca para pôr um país sobre rodas

A Sociedad Española de Automóviles de Turismo nasceu a 9 de maio de 1950. O objetivo era tão simples quanto gigantesco: ajudar a motorizar uma Espanha onde possuir automóvel estava ainda longe de ser uma realidade para grande parte da população.

A primeira fábrica abriu em 1953, na Zona Franca de Barcelona, com 925 trabalhadores e apenas um modelo em produção, o SEAT 1400.

Mas foi quatro anos depois que apareceu o automóvel que mudaria verdadeiramente a história da empresa — e, em boa medida, a do próprio país.

O SEAT 600 começou a ser produzido em 1957 e transformou-se num símbolo da democratização do automóvel em Espanha. Pequeno, relativamente acessível e suficientemente versátil para transportar uma família inteira, chegou numa altura em que uma mota com sidecar ainda podia desempenhar o papel de veículo familiar.

A procura foi tão grande que, antes mesmo de a produção arrancar plenamente, a lista de espera ultrapassava dois anos. Quando terminou a carreira, em 1973, tinham sido produzidas quase 800 mil unidades.

A própria SEAT descreve o 600 como o automóvel que ajudou a “pôr Espanha sobre rodas”. Não é apenas linguagem de marketing: a explosão da mobilidade individual espanhola nas décadas de 1950 e 1960 ficou intimamente associada àquele pequeno automóvel.

Do 127 ao Ibiza: quando a SEAT começou a procurar identidade própria

Durante os primeiros anos, grande parte dos SEAT nasceu a partir de modelos Fiat produzidos sob licença. 1400, 600, 850, 124, 127 ou 131 são alguns dos nomes que marcaram essa primeira era.

O 127, lançado em Espanha em 1972, tornou-se particularmente importante. Mais de 1,3 milhões de unidades foram vendidas e o modelo foi durante anos o automóvel mais vendido da história da SEAT.

Até aparecer o Ibiza.

A separação da Fiat deixou a empresa espanhola perante um problema existencial: precisava finalmente de construir uma identidade própria.

E o Ibiza, apresentado em 1984, tornou-se a resposta.

Ibiza: o automóvel que tornou a SEAT verdadeiramente SEAT

É provavelmente o nome que melhor sobreviveria ao desaparecimento da própria marca.

O primeiro Ibiza juntou algumas das figuras e empresas mais importantes da indústria automóvel europeia. O desenho foi entregue a Giorgetto Giugiaro, a Porsche participou no desenvolvimento dos motores e a Karmann colaborou na industrialização da carroçaria.

O resultado foi um automóvel que já não precisava de existir como versão espanhola de um modelo italiano.

Era um SEAT.

Depois chegaram cinco gerações, sucessivas evoluções técnicas e mais de seis milhões de unidades entregues em todo o mundo. Nenhum outro modelo da marca vendeu tanto.

O Ibiza tornou-se simultaneamente automóvel de primeiro emprego, primeiro carro de milhares de jovens, utilitário familiar e, nas versões mais desportivas, uma pequena máquina de diversão.

E também levou a SEAT aos ralis.

O Ibiza Kit Car conquistou títulos mundiais na categoria de 2 litros em 1996, 1997 e 1998, precisamente numa época em que começava a ganhar força outro nome que, três décadas depois, poderá acabar por substituir a marca que lhe deu origem: Cupra.

Volkswagen salvou a SEAT — e poderá agora acabar com ela

A ligação à Volkswagen começou formalmente através de um acordo de cooperação assinado em 1982.

Depois da saída da Fiat, a SEAT precisava de tecnologia, produtos competitivos e acesso aos grandes mercados internacionais. Para a Volkswagen, Espanha oferecia capacidade industrial, uma rede comercial já estabelecida e uma porta para um mercado europeu em rápida expansão.

Em junho de 1986, o grupo alemão comprou inicialmente 51% da SEAT e terminou esse ano com uma participação de 75%.

A transformação foi profunda.

A produção foi modernizada, a qualidade aproximou-se dos padrões do grupo alemão e a SEAT deixou progressivamente de ser um fabricante essencialmente espanhol para se transformar numa marca verdadeiramente europeia.

Em 1993 abriu a fábrica de Martorell, que se tornaria o coração industrial da marca. E, à medida que a gama crescia, a SEAT transformou também a geografia espanhola numa das suas assinaturas: depois de Ibiza e Málaga chegaram nomes como Toledo, Córdoba, Alhambra, León, Altea, Ateca, Arona ou Tarraco, levando cidades e lugares de Espanha para estradas de dezenas de países.

Leon: o outro grande sobrevivente

Se o Ibiza foi o automóvel que deu independência à SEAT, o Leon foi provavelmente aquele que melhor materializou a transformação da marca dentro do Grupo Volkswagen.

Lançado em 1999, atravessou quatro gerações e permitiu à empresa disputar diretamente um dos segmentos mais importantes da Europa.

Foi também através dele que a faceta desportiva da SEAT ganhou uma nova dimensão.

Versões FR e Cupra ajudaram a construir uma imagem mais jovem e agressiva — e aqui começa uma das ironias mais importantes de toda esta história.

A palavra que durante anos identificou os SEAT mais desejados acabou por crescer ao ponto de ameaçar engolir a própria SEAT.

O filho que cresceu mais do que a mãe

Cupra nasceu como designação associada às versões mais desportivas da SEAT. Em 2018 tornou-se marca independente.

O que aconteceu depois explica boa parte daquilo que está agora sobre a mesa em Wolfsburgo.

Em 2025, SEAT e Cupra entregaram conjuntamente um recorde de 586.300 automóveis. À primeira vista, poderia parecer um extraordinário ano para a empresa espanhola.

A divisão dos números conta uma história muito diferente.

A Cupra cresceu 32,5%, para 328.800 automóveis. A SEAT caiu 17%, para 257.400.

Pela primeira vez, a marca criada apenas sete anos antes já vendia mais automóveis do que aquela de onde tinha nascido.

E há outra diferença ainda mais importante para a Volkswagen: eletrificação.

Quase um quarto das vendas da Cupra em 2025 já correspondeu a automóveis totalmente elétricos, impulsionados pelo Born e pelo Tavascan. O futuro Raval será outro elétrico fundamental do grupo e será produzido em Martorell.

A SEAT, pelo contrário, continua atualmente sem um automóvel 100% elétrico na sua gama — apesar de já ter comercializado no passado o Mii electric.

Não é difícil perceber para onde está a apontar o dinheiro.

A morte da SEAT não significaria a morte de Martorell

Este talvez seja o ponto mais importante para perceber aquilo que está realmente em discussão.

Acabar com a marca SEAT não significa necessariamente fechar a SEAT S.A., muito menos apagar Martorell do mapa industrial.

A fábrica catalã está precisamente a ser transformada para desempenhar um papel central na nova geração de automóveis elétricos urbanos do Grupo Volkswagen. A produção do Cupra Raval e de modelos de outras marcas do grupo deverá garantir atividade industrial muito para além de 2029.

Ou seja: podem continuar os edifícios, as linhas de montagem, os engenheiros e milhares de trabalhadores.

O que poderá desaparecer é a palavra escrita nos automóveis.

Então, o que se perde realmente?

Perde-se uma das poucas marcas automóveis europeias cuja história está profundamente ligada à transformação económica e social de um país.

O 600 representou a democratização da mobilidade espanhola. O 127 acompanhou a modernização do país. O Ibiza representou a afirmação industrial depois da separação da Fiat. O Leon simbolizou a maturidade europeia dentro da Volkswagen. E modelos como o Córdoba, Alhambra, Toledo, Ateca ou Arona foram construindo uma identidade própria ao longo das décadas.

Não significa que todos fossem revolucionários. Nem significa que a engenharia dos SEAT modernos fosse exclusivamente espanhola — há décadas que plataformas, motores, caixas de velocidades, eletrónica e inúmeros componentes são partilhados entre várias marcas do Grupo Volkswagen.

É precisamente por isso que o eventual desaparecimento da SEAT diz algo que ultrapassa a própria empresa.

Num grupo automóvel cada vez mais pressionado para reduzir custos, eliminar modelos e aproveitar ao máximo plataformas comuns, a história e o valor emocional de uma marca podem deixar de ser suficientes para justificar a sua existência.

A Cupra pode receber tudo. Menos o passado

O paradoxo final talvez seja este.

Se o plano avançar, a Cupra poderá receber clientes, concessionários, fábricas, tecnologia, engenheiros e até ocupar segmentos deixados vagos pela SEAT.

Pode tornar-se a grande marca espanhola do Grupo Volkswagen.

Mas não poderá nascer em 1950.

Não poderá ter colocado famílias espanholas dentro de um 600 pela primeira vez, nem poderá dizer que atravessou a industrialização do país, rompeu com a Fiat, sobreviveu à transição para a Volkswagen e colocou mais de seis milhões de Ibiza nas estradas do mundo.

Essa história pertence à SEAT.

É por isso que, se o logótipo desaparecer realmente dos automóveis no final de 2029, não será apenas mais uma operação de racionalização dentro de um gigantesco grupo industrial.

Será o fim de uma marca que começou por ajudar a pôr Espanha sobre rodas — e poderá terminar precisamente no momento em que essas rodas estão a deixar a gasolina para passar à eletricidade.