Júlio Verne imaginou uma volta ao mundo em 80 dias. Mais de 150 anos depois, Sam Sunderland prepara-se para tentar fazê-la em menos de 20 — e em cima de uma mota.
São cerca de 29 mil quilómetros, cinco continentes e jornadas que poderão chegar às 15 ou 16 horas de condução. Para bater um recorde com mais de duas décadas, terá de percorrer uma média próxima dos 1.600 quilómetros por dia.
Segundo a ‘Reuters’, Sunderland, britânico e duas vezes vencedor do Rali Dakar, partirá de Londres a 5 de setembro numa Triumph Tiger 1200 Rally Explorer. O objetivo é regressar ao ponto de partida em menos de 19 dias, oito horas e 25 minutos.
A aventura devia ter acontecido um ano antes. Uma queda durante a preparação, porém, deixou Sunderland com as costas partidas e obrigou-o a adiar tudo. Recuperado, está agora pronto para voltar à estrada.
1.600 quilómetros por dia durante quase três semanas
A escala do desafio percebe-se melhor quando se olha para aquilo que Sunderland terá de repetir praticamente todos os dias: cerca de 1.600 quilómetros de mota.
É aproximadamente a distância por estrada entre Lisboa e Paris. Só que, no caso de Sunderland, chegar ao destino significará descansar, recuperar e voltar a enfrentar uma distância semelhante no dia seguinte.
E novamente no seguinte.
O percurso estará dividido em seis grandes etapas e levará o motociclista da Europa à Ásia, Oceânia, América e África antes do regresso a Londres.
A rota prevista passa pela Turquia e pelo Sudeste Asiático, seguindo depois para Austrália e Nova Zelândia. Sunderland atravessará posteriormente o Pacífico para continuar a viagem no Canadá e passará ainda por Marrocos antes de regressar à capital britânica.
Se Phileas Fogg saltava de comboios para navios e recorria aos meios de transporte disponíveis para cumprir os 80 dias imaginados por Júlio Verne, Sunderland terá uma exigência adicional: os quilómetros por terra desta volta ao mundo terão de ser feitos na mesma mota.
E o relógio estará sempre presente.
Há regras para dar a volta ao mundo
Não basta percorrer 29 mil quilómetros e atravessar vários continentes para que o percurso seja considerado uma circum-navegação.
Sunderland terá de viajar continuamente na mesma direção, passar por dois pontos antípodas — lugares situados em lados opostos do planeta — e começar e terminar a aventura no mesmo local.
As travessias oceânicas serão naturalmente realizadas recorrendo a outros meios de transporte e não entram no tempo de condução.
Há ainda uma particularidade nesta tentativa. O ‘Guinness World Records’ deixou de reconhecer oficialmente esta categoria devido a preocupações relacionadas com a segurança, mas a marca que Sunderland procura superar continua a ser a estabelecida por Kevin e Julia Sanders.
Em 2002, os dois completaram a volta ao mundo em 19 dias, oito horas e 25 minutos.
Mais de duas décadas depois, é esse o relógio que Sunderland quer vencer.
Uma queda adiou tudo por um ano
A partida estava inicialmente prevista para 2025. Sunderland encontrava-se já a preparar o desafio quando sofreu uma queda grave e partiu as costas.
A lesão obrigou-o a abandonar os planos e a concentrar-se na recuperação. Um ano depois, decidiu regressar ao projeto.
Experiência em condições extremas não lhe falta. Sunderland venceu o Rali Dakar em 2017 e novamente em 2022 e retirou-se da competição profissional em 2024.
Mas dar a volta ao planeta coloca um problema diferente daquele que encontrou no Dakar.
Em vez de atacar o cronómetro durante uma etapa e recuperar para a seguinte, terá de suportar jornadas sucessivas de enorme duração, gerir o sono e a alimentação e adaptar-se continuamente a estradas, temperaturas, condições meteorológicas e fusos horários diferentes.
Uma avaria, um atraso numa fronteira ou algumas horas perdidas devido ao mau tempo podem ser suficientes para comprometer uma tentativa em que cada minuto conta.
A Triumph Tiger 1200 Rally Explorer que Sunderland levará nesta aventura já tem, por isso, data marcada para sair de Londres: 5 de setembro. Um ano depois de uma queda lhe ter interrompido os planos ainda antes da partida, desta vez o primeiro desafio será simplesmente conseguir arrancar.






